Capítulo 140 - Podemos mesmo fazer as coisas assim?
Pelo resto do dia, o assentamento dos orcs se torna bastante agitado. Alguns orcs chegam da floresta, enquanto outros vão no sentido oposto.
Num clima de euforia, a tribo se prepara para partir. Boa parte das tendas são desmontadas e bolsas são enchidas com pertences e comida.
Próximo ao centro da tribo, onde se encontra a enorme árvore com inúmeras armas fincadas no tronco, está Brok, coordenando os vários orcs que circulam pelo acampamento.
De lá, ele aponta, dá direções, organiza e delega os serviços. Todo membro da tribo acena e segue cada ordem à risca.
Mãe Verde, uma orc anciã com cabelos negros como a noite, pacientemente acompanha Brok, orientando tanto ele quanto os mais jovens que buscam auxílio.
Mais ao fundo, perto das bordas, outra voz também ajuda na mobilização. Mindinho ajuda na arrumação do que irá ser levado. Ele, junto de outros, caminha de grupo em grupo, examinando cada objeto e equipamento.
Armas desgastadas, peças quebradas e tecidos em farrapos são separados, mas não descartados. Os orcs que o seguem pegam as coisas danificadas e levam para uma pilha ao lado de uma mesa perto do centro. Lá, um outro membro da tribo avalia mais uma vez, com calma, cada objeto.
Midinho segue em sua tarefa com firmeza, mas, às vezes, enquanto encara um objeto ou outro, pelo canto dos olhos, ele joga sua atenção em direção ao líder que organiza as coisas no centro.
Nesses curtos momentos, a tensão em seus dedos aumenta e o foco some de sua mente. Brok, tem certeza de que podemos mesmo fazer as coisas assim?, ele se pergunta, uma dúvida que ressurge constantemente.
Apesar das dúvidas, o orc sempre se volta ao seu dever, mantendo o ritmo o tempo todo.
Ao final do dia, quando o sol deixa de iluminar a floresta, metade do assentamento já está desmontado. Os pertences dos orcs que irão para a viagem estão dentro de bolsas e sacos, já posicionados em cima de padiolas simples.
Com a maior parte do trabalho concluído, o clima do acampamento muda. O bom humor e o ânimo se mantêm, mas a atmosfera do mutirão organizado fica mais descontraída e leve.
Os orcs se juntam ao redor de uma fogueira, comendo carne que assam em espetos ao redor do fogo. Ao centro, Brok conta a história de seu duelo contra Estoratora.
Com o machado em mãos, ele gesticula cada passo da luta como se estivesse em um teatro. A luz da fogueira faz sua sombra esticada dançar pelo acampamento.
Toda a tribo escuta e assiste de ouvidos e olhos atentos. Os mais jovens ficam impressionados, enquanto os mais velhos visualizam cada descrição como uma lição dada.
Quando o último golpe é encenado e a cabeça imaginária do inimigo de Brok é alvejada, os orcs vibram de emoção.
Em meio a tudo isso, Midinho se senta em um tronco à borda, afastado dos outros, perdido em seus pensamentos.
Sua expressão cabisbaixa contrasta com os rostos alegres, espalhados pelo acampamento.
Mindinho só volta a prestar atenção aos arredores quando percebe a inconfundível respiração pesada de Brok, próxima de si.
Ele move o olhar para frente e vê o chefe de pé e encarando-o, enquanto a comemoração se desenrola ao fundo.
Por que ele está aqui?, Mindinho se pergunta, acanhado pela presença imponente diante dele.
“Precisa de algo?”, pergunta ele.
Brok, sem responder, senta-se ao lado dele no mesmo tronco. “Por que… não está com os outros?”
Mindinho, antes de responder, vislumbra o centro do acampamento, vendo orcs comendo carne ao redor do fogo. “Eu… não estou no clima para isso.”
“Está preocupado… sempre está”, comenta o chefe.
Mindinho baixa o olhar. “Eles podem comer e festejar. Mas eu não consigo. Não enquanto…”
“Não enquanto…”, insinua Brok, para que onc complete.
Antes de seguir, Mindinho suspira baixo. “Não enquanto eu não sei o que nos aguarda em Cahjia”, desabafa ele.
“É isso que… te atormenta?”
O orc confirma com um aceno. “Essa força maior. Os outros podem achar que não, mas você a viu, não viu? É a coisa grande que você viu por aqui no dia em que o Polegar morreu, não é?”
Brok mantém o olhar ao centro do acampamento, com outro respirar ruidoso. “Você é… esperto. Atento. Bem mais do que eu… Por isso gosto quando você toma conta das coisas”, admite ele.
Mindinho se volta ao líder, com as sobrancelhas curvadas, preocupado. “Então me diga o que é”, pede ele, incisivo, com a voz mais alta e tremendo ao final.
Apesar da exigência, Brok mantém seu olhar para o centro, onde a festa acontece. “Se eu pudesse… se eu entendesse, eu contaria tudo a você. Contaria a todos”, responde ele, calmo e controlado. “Quando digo que… é uma força maior. Não é algo grande ou… forte. É algo que está além de nós, orcs.”
“Então como sabe que isso não vai nos matar como fez com o dragão?!”, Mindinho indaga, com as mãos erguidas. “Como sabe que não vai terminar como Estoratora?”
“É difícil dizer… Eu mesmo não tenho certeza”, responde o chefe, pensativo. “É como… aquela sensação de ganhar um duelo e ainda sentir medo de os orcs do lado perdedor te atacarem.”
Perante a franqueza e a calma resoluta de Brok, Mindinho dobra os dedos da mão e respira fundo. “Você… não sabe também”, ele conclui, voltando o olhar para o centro, assim como o chefe.
Por alguns momentos, os dois guerreiros ficam quietos, observando a comemoração no assentamento.
“Eu só queria estar despreocupado como eles”, Mindinho admite.
“Eles também estão preocupados, mas… preferem ter fé e arriscar a chance de uma vida melhor do que baixar a cabeça.”
Mindinho solta uma risada breve, com sua voz grave pesando o som. “Eu também sempre quis ir para Cahjia”, admite ele. “Era o sonho do Cruók voltar lá um dia.”
“Vamos fazer acontecer… e durar”, comenta o chefe, sério.
“Vou confiar na sua força maior.”
Brok fixa a atenção na fogueira crepitante no meio da tribo. “Acredite em mim… Se ela quisesse nosso mal, já estaríamos mortos”, ele afirma, quase como um aviso. “É algo que vai além até da força dos espíritos.”
“Quando você fala assim, até parece que achou um deus ou algo assim.”
“Pode chamá-la assim… se quiser…”, pontua Brok.
Mindinho franze uma sobrancelha. “Ein?”, comenta ele, com outra risada curta ao final.
“Quando chegarmos em Cahjia, vocês vão entender como eu me sinto”, completa Brok.

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