Índice de Capítulo

    div

    A campainha tocou baixo.

    Não era o som ideal para anunciar clientes em uma taverna, mas o lugar já não tinha clientes suficientes para justificar exigências acústicas. Com metade das mesas vazias e a outra metade ocupada por poeira, qualquer barulho já cumpria sua função.

    — Vai direto pro banho. Tá fedendo de novo.

    A taverneira ruiva fungou, mas não levantou os olhos esbranquiçados dos copos que secava com um pano gasto. Lúcia ignorou a observação e sentou-se na mesa mais próxima do balcão.

    — Porra, Lúci, eu to falando sério! É um inferno limpar esse cheiro.

    — Então é só não limpar.

    Lúcia deu de ombros e se acomodou melhor na cadeira. O corpo parecia pesar mais do que deveria depois de um dia inteiro nas ruas. Os olhos ameaçavam fechar enquanto apoiava a cabeça no braço, mas ela se obrigou a manter algum grau mínimo de consciência.

    Antes que o sono vencesse a discussão, lançou uma pequena bolsa sobre o balcão.

    O tilintar de moedas produziu um efeito quase milagroso.

    A mulher hesitou antes de recolhê-las. Contou rápido com os dedos.

    — Deu tudo certo hoje?

    Lúcia abriu um meio sorriso.

    — Até que sim. Consegui matar cinco, então me deram um extra.

    — Então não vamos ter que pedir pro Garm caçar. Isso é bom.

    — Nem ia ter como — murmurou Lúcia, esfregando o rosto. — Peguei um bico de entregas pra amanhã à noite. Ele vai me ajudar.

    As mãos da ruiva pararam imediatamente.

    O pano ficou imóvel no meio do copo.

    — Lúcia…

    — Não é nada perigoso, juro! 

    — Lúcia!

    — É urgente. Prometeram pagar o triplo do que pagavam antes! — Revirando os olhos, deixou a testa cair na mesa. — A vida tá cara demais, Eva. Não quero viver assim pra sempre.

    Eva respirou fundo, devagar. Não queria gritar.

    — Se te pegarem de novo não vai acabar só com uma advertência. Cê sabe disso. Não dá pra procurar um emprego normal?

    Lúcia mordeu o lábio inferior com força suficiente para um filete de sangue surgir.

    — Você sabe que não… Tenho sorte até quando me deixam passar pela porta.

    Eva voltou ao trabalho. Os copos voltaram a girar entre seus dedos.

    Mas antes que pudesse continuar a repreensão, tossiu.

    Foi uma tosse contida. Curta. Mesmo assim, pequenas gotas de sangue respingaram sobre a madeira do balcão.

    Lúcia levantou num pulo.

    — Deixa que eu limpo.

    A preocupação apareceu no rosto dela sem qualquer esforço para disfarçar. Não que fosse necessário. A ruiva à sua frente não podia ver expressão nenhuma.

    Ela mal teve tempo de pegar o pano.

    O sangue sobre o balcão se soltou da madeira, girou no ar como se tivesse vontade própria e voltou de uma vez para a boca de Eva.

    No mesmo instante, um soco desceu sobre o topo da cabeça de Lúcia.

    — Eu lembro de ter dito pra deixarem o Copo Nunca Vazio limpo se não quisessem ir pra rua.

    Apesar da bronca, o chão atrás da recém-chegada contava outra história.

    Pegadas vermelhas marcavam o caminho da porta até o balcão, manchando ainda mais o piso já bem acostumado com esse tipo de acidente.

    Lúcia não ficou para discutir o golpe.

    Correu porta afora.

     Eva, no entanto, só tentou sorrir.

    — Achei que você ia demorar mais, Bia. Foi um deslize…

    Beatriz parou diante dela com as mãos na cintura, olhou ao redor e deu seu maior sorriso. Aproximou-se da ruiva e falou baixo, quase no ouvido.

    — Não dá pra saber quando ele tá de olho.

    — Entendi… — respondeu Eva.

    Ela manteve o sorriso firme, mesmo sem entender direito o que aquilo significava. Não era a primeira vez que ouvia aquele aviso estranho.

    Provavelmente também não seria a última.

    Satisfeita, Beatriz puxou uma cadeira e se jogou nela sem cerimônia.

    Franziu o nariz.

    — Ela ainda tá caçando ratos?

    — Tá sim. O esgoto tá agitado ultimamente, então tem bastante vaga.

    Eva hesitou antes de continuar.

    Apertou os punhos atrás do balcão.

    — Bia… você realmente não pode treinar ela?

    Beatriz nem respondeu de imediato.

    Acendeu um cigarro amassado e estendeu a mão para o balcão. Eva encheu uma caneca e deslizou a bebida até ela.

    — O problema não é habilidade — disse a loira por fim. — É serem de fora. Já te expliquei isso.

    — Mas mesmo assim… Já te vi no jornal mais de uma vez. Tenho certeza que muita gente ia contratar a aprendiz de uma major do fronte.

    Beatriz bufou.

    Deu uma tragada longa.

    — O tipo de trabalho que ela ia conseguir ia feder muito mais que o atual. Confia em mim.

    — Mas…

    — Não tem “mas”. — Beatriz cortou. — “Mercenária Bruxa” ainda pesa muito mais na cabeça desses orelhudos do que “Major Beatriz”.

    A conversa morreu por alguns segundos.

    Eva decidiu engolir o resto do argumento.

    Não podia pedir mais ajuda do que já recebiam daquele casal.

    Beatriz terminou a tragada e soltou a fumaça devagar. Depois observou a taverneira por um instante mais longo do que o normal.

    — Olha… — disse por fim, tomando um gole da cerveja de frutas. — O grandão volta amanhã.

    Eva levantou a cabeça imediatamente.

    — Ele vai ficar na taverna por um tempo. Aquela desgraçada recuou com os piratas, e os batedores acham que vai levar pelo menos meio mês até ela reorganizar o ataque.

    Beatriz tamborilou os dedos na mesa.

    Parecia ponderar alguma coisa.

    — Tenho certeza que vou me arrepender disso… — murmurou. — Mas se vocês convencerem ele, deixo dar umas dicas pra garota.

    — Jura?!

    O rosto de Eva mudou instantaneamente. O sorriso finalmente parecia real.

    — Juro. Mas já falei: só se convencerem ele.

    A ruiva continuou sorrindo.

    Contra o gentil Colosso, ela sabia muito bem que a batalha de persuasão já estava ganha.
    div


    Quer apoiar o projeto e garantir uma cópia física exclusiva de A Eternidade de Ana? Acesse nosso Apoia.se! Com uma contribuição a partir de R$ 5,00, você não só ajuda a tornar este sonho realidade, como também libera capítulos extras e faz parte da jornada de um autor apaixonado e determinado. 🌟

    Venha fazer parte dessa história! 💖

    Apoia-se: https://apoia.se/eda

    Discord oficial da obra: https://discord.com/invite/mquYDvZQ6p

    Galeria: https://www.instagram.com/eternidade_de_ana


    div

    Ficaremos sem imagens por um tempo, mas logo volto a postar!

    Estou meio sem tempo e não estão saindo resultados bons…

    Curtiu a leitura? 📚 Ajude a transformar Eternidade de Ana em um livro físico no APOIA.se! Link abaixo!

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota