Capítulo 250: Subsolo

O primeiro rato não morreu com o golpe.
Isso irritou Lúcia.
Ela puxou o bastão de volta da água suja e bateu de novo, desta vez mirando a cabeça. O barulho seco ecoou pelo túnel e o corpo do homem ajoelhado finalmente parou de se mexer.
— Seis hoje — disse alguém atrás dela.
A voz de André era calma demais para alguém parado no meio de um esgoto.
Lúcia limpou o bastão na parede, respirou fundo e respondeu sem virar.
— Sete.
Ela chutou o corpo para o monte.
André ficou em silêncio por alguns segundos. Sem aviso, pegou mais dois, desamarrou seus pulsos e os arremessou na direção da garota.
— Ei! — ela reclamou, mas levantou a arma. — Já tô morta, não dá!
O homem grunhiu. Jogou mais um.
— Se reclamar de novo, dou facas pra eles.
Lúcia soltou um resmungo.
Sentia falta da espada. Mesmo assim, já era sorte não precisar lutar com as próprias mãos.
Girou o bastão por baixo e acertou a perna do que vinha pela direita. O osso virou num ângulo errado. O corrompido arregalou os olhos e soltou um som rouco.
Lúcia subiu o bastão até o queixo dele e terminou o serviço rápido. Não queria mais deles chegando.
Os outros dois já estavam em cima dela.
Ergueu o braço para bloquear o golpe da esquerda, mas as garras do que vinha da direita se cravaram no seu abdômen.
O Colosso cruzou os braços.
— Remédio não tá barato.
— Eu sei.
— Então se concentra.
Com um resmungo abafado, Lúcia saltou para trás e caiu de costas na água suja. Levantou rápido, fechou os olhos por um instante e voltou a abri-los.
Bateu nas mãos do rato da esquerda, afastando-o, e avançou com uma cotovelada no peito dele. As costelas cederam sob o impacto.
Dessa vez ela ignorou o da direita.
Quando o ataque veio, uma aura amarela opaca se solidificou diante dela.
— Tá mal feito — disse André. — Gastando mana demais. Se concentra — repetiu.
Como se a frase fosse um aviso tardio, a terra da pequena barreira se rachou.
Lúcia piscou forte.
Os grãos voltaram a se solidificar.
O suor já escorria pelo rosto dela quando finalizou o mutado ferido.
O Colosso segurou o outro rato antes que ele pudesse investir de novo. Apertou a cabeça da criatura até o crânio ceder e jogou o corpo na água.
Lúcia ficou apoiada nos joelhos, respirando pesado.
Levantou o olhar.
— Que foi? Eu consegui.
— Isso não é conseguir.
— Como não?
Ela colocou as mãos na cintura e apertou os dentes.
André apontou para a pilha de corpos.
— Sete.
— Nove agora — corrigiu Lúcia.
— Nove, que seja. Agora olha pra você.
Lúcia franziu a testa.
Não gostava quando o Colosso fazia aquilo — largar metade da explicação no ar e esperar que ela completasse o resto sozinha.
Infelizmente, quase sempre funcionava.
Eram apenas ratos.
Entre os corrompidos, não estavam entre os mais perigosos, mas também não eram exatamente presa fácil. Lutavam de forma desordenada, quase animal, mas com uma força que surpreendia quem ainda esperava algum traço de humanidade.
O excesso de mana havia deixado pouco mais que instinto dentro deles.
Corriam pelos esgotos, espalhavam doenças, comiam qualquer coisa que encontrassem — viva ou não. E se reproduziam numa velocidade que a capital preferia fingir que não existia.
Nas primeiras caçadas, Lúcia sofreu.
Na luta… e no resto também.
Ainda lembrava do primeiro que matou. Do jeito que o corpo demorou a cair. Do cheiro.
Agora já os matava com facilidade, mas raramente enfrentava mais de três ou quatro por dia. Não combinavam com seu estilo de luta. Eram imprevisíveis demais.
O verdadeiro problema, no entanto, é que não deveria ter dificuldades para lutar com a base. Seres irracionais.
Ficava exausta. Ficar sem energia ali embaixo era praticamente pedir para morrer.
O Colosso decidiu ignorar esse detalhe.
Ele se abaixou para ficar na altura dela.
— Menos explosão. Mais economia. Mana tem que ser apoio, não arma.
Lúcia revirou os olhos.
Começou a arrancar as orelhas esquerdas dos cadáveres.
— Vou tentar — murmurou.
André assentiu.
Seguiram pelos corredores úmidos em direção à saída. Os túneis eram simples demais para a cidade brilhante que existia acima deles — pedra bruta, arcos baixos e canais de água escura correndo entre as paredes.
Quando subiram pela escada estreita, Lúcia bateu duas vezes na parede.
Uma pequena portinhola se abriu.
Ela despejou as orelhas lá dentro sem cerimônia.
Cruzou os braços.
Dois minutos depois, uma moeda de prata e três de cobre caíram.
Lúcia sorriu ao guardar as moedas.
O Colosso, no entanto, torceu a boca.
— Você devia procurar um trabalho melhor.
— É. Sempre dizem isso.
Ela soltou uma risada curta, mais por hábito do que por graça.
Virou-se em direção ao beco.
— Obrigada por hoje.
Começou a caminhar. Não precisou olhar para trás para saber que André ainda estava parado ali. O olhar dele pesava nas costas.
Só desapareceu quando ela virou a primeira esquina.
Lúcia suspirou.
Enfiou a mão no bolso da jaqueta e puxou um papel amassado. Desdobrou devagar, alisando as dobras com o polegar.
Antes que pudesse reler o endereço, uma sirene cortou o ar.
Ela congelou por um instante.
— Merda. Tô atrasada.
Abriu a mochila e puxou uma máscara de gás improvisada. Dois respiradores grandes estavam presos nas laterais, cheios de terra escura e pequenas raízes entrelaçadas.
Acoplou a máscara no rosto. Respirou fundo.
O ar filtrado entrou pesado nos pulmões, com cheiro de terra molhada. Sentiu o corpo desacelerar, o coração voltando ao ritmo certo.
Só então voltou a olhar o papel.
Confirmou o endereço.
Guardou. Correu.
Sempre pelos cantos.
Sempre desviando.
Cada beco parecia mais apertado que o anterior. O brilho dos neons desaparecia aos poucos, substituído por lâmpadas fracas e fumaça acumulada.
Ali a cidade respirava pior.
Quando a luz ficou fraca o suficiente para que ela mal enxergasse os próprios pés, finalmente parou.
Uma porta de metal estava escondida entre dois prédios.
Lúcia bateu com o nó dos dedos uma vez.
Depois deu um chute leve na base da porta, seguido de dois socos rápidos.
Esperou um segundo.
Mais duas batidas curtas. Outro chute.
Por alguns instantes, nada aconteceu.
Então uma pequena fresta se abriu. Do outro lado, apenas um par de olhos claros observava em silêncio.
— Você tá fedendo.
— É… Sempre dizem isso.
Suspirando, Lúcia entrou.
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Ficaremos sem imagens por um tempo, mas logo volto a postar!
Estou meio sem tempo e não estão saindo resultados bons…

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