Capítulo 252: Dia de Sorte

Lúcia não se mexeu. Garm também não.
A floresta parecia ter prendido a respiração junto com eles.
A mulher caminhou devagar até parar a dois passos de distância. O lagarto branco levantou a cabeça, observando Lúcia com um interesse que parecia mais curioso do que hostil.
Ela não disse nada por alguns segundos. Apenas analisou a garota e o lobo.
Então estendeu a mão.
— A bolsa.
Lúcia olhou para Garm por um instante.
Rangendo os dentes, desamarrou a carga e a entregou.
A mulher abriu o fecho com uma calma irritante. Remexeu o conteúdo com dois dedos, puxando pequenos pacotes selados.
Um sorriso torto surgiu em seu rosto.
— Desse tipo eu não conheço — comentou. — Pra onde isso vai?
— Galpão sete…
A mulher soltou o pacote de volta dentro da bolsa.
— Ótimo. — Fez uma pausa curta. — Da última vez você saiu com uma advertência.
Um dos soldados dentro da armadura soltou uma risada baixa.
— Eu lembro — disse a voz metálica. — A menina chorou.
Lúcia não respondeu. Aprendeu cedo que responder esse tipo de gente nem sempre ajudava.
— Gosta mesmo de estar viva, menina?
— Gosto, coronel Marta.
O sorriso da mulher aumentou.
— Pois não parece.
Ela fechou a bolsa e deu mais um passo. A mão foi ao cinto. A faca surgiu com naturalidade e a ponta encostou na testa de Lúcia.
Garm rosnou baixo, mas permaneceu parado.
— Mas hoje é seu dia de sorte — disse Marta. — Tá indo pro mesmo lugar que eu ia.
Antes que Lúcia pudesse perguntar o que aquilo significava, uma das armaduras caminhou até elas.
Sem cerimônia, o soldado jogou duas maletas pretas pesadas no chão.
O impacto levantou terra e folhas secas.
Marta chutou uma delas na direção de Lúcia.
— Já que você gosta tanto de fazer entregas… — apontou para baixo. — Vai levar isso junto com as drogas.
Lúcia olhou para as maletas. Depois, para a mulher.
A coronel inclinou levemente a cabeça.
— Tá me olhando assim por quê? Se preferir, te mato e sigo eu mesma.
— Vou fazer a porcaria da entrega… coronel Marta.
A faca finalmente saiu da testa da garota, girou no ar e voltou ao cinto.
— É bom mesmo. Se eu souber que não chegou, é melhor você nem voltar pra cidade.
Lúcia assentiu.
Relaxando os ombros, começou a prender a carga em Garm.
— Missão completa — riu um dos soldados.
— Fácil, fácil — comentou o outro.
Marta balançou a cabeça, mas também deixou escapar um sorriso. Não olhou novamente para Lúcia.
Com passos pesados e conversas altas, os quatro seguiram pela trilha já aberta por Garm.
O silêncio voltou devagar.
— Se eu der a volta, a gente chega na cidade antes deles — murmurou o lobo.
— E pra quê?
— Buscar a Eva. Fugir.
Lúcia soltou um suspiro.
— Não. Vamos fazer a entrega. O pagamento dessa vez vai dar um respiro.
— Mas vai entregar mesmo as maletas?
— Sei lá… a gente pensa no caminho.
Ela voltou a montar nas costas do lobo. Se ajustou no pelo e Garm retomou o trote.
A mente de Lúcia ficou para trás.
As árvores passavam em borrões verdes enquanto ela pensava em cada passo que a havia trazido até ali.
Não era a vida que sonhava.
Não era a vida que queria.
Não era a vida que imaginou quando ainda achava que o mundo fazia algum sentido.
Afundou o rosto no pelo de Garm.
— Vai ser a última entrega. Prometo que a gente dá um jeito de sair dessa vida de merda.
O lobo fingiu não ouvir.
Foi quando o pelo dele voltou a se eriçar.
Logo depois veio o disparo.
Dessa vez Lúcia não foi rápida o suficiente. Seu corpo voou para frente.
Não machucou quando caiu em meio a um amontoado de arbustos.
Ela suspirou.
— Hoje não é meu dia…
Ergueu-se de uma vez, estalando as juntas.
Infelizmente, também não foi rápida o suficiente para se esconder.
O cano da arma encostou no mesmo ponto onde a faca de Marta havia estado segundos antes.
— De onde cê tá vindo?
Lúcia ergueu os olhos.
Um puro com roupas gastas, fedendo a cerveja, a encarava. Mesmo sem ver os outros, ela podia ouvir vários passos ao redor.
A arma pressionou mais forte.
— Tá vindo de onde, caralho?
Lúcia grunhiu antes de responder.
— Da capital. Só tô fazendo uma entrega.
— Entrega?
O homem olhou em volta. Só então percebeu o lobo.
Recuou um passo, assustado. Depois percebeu que o animal não ia avançar.
Os olhos dele voltaram para as maletas.
— Cê é bem azarada, hein?
— Não pode só me deixar ir embora? — Lúcia abriu seu melhor sorriso. — Só quero ganhar meu dinheiro.
O homem também sorriu.
Infelizmente, o dele era pior.
— Num dá não.
Ele tirou a arma da testa dela e usou o cano para coçar a nuca.
Suspirou.
— Ô Marcos… o capitão tá por aí?
— Tá na linha de trás — respondeu uma voz entre as folhas.
— Chama ele.
Ouviram um suspiro alto, sem resposta. O homem, no entanto, só esperou.
Não demorou para os sons de corte se aproximarem.
Dois homens e duas mulheres avançavam, abrindo caminho com facões largos.
Atrás deles, um homem caminhava devagar.
Sua pele queimava.
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Ficaremos sem imagens por um tempo, mas logo volto a postar!
Estou meio sem tempo e não estão saindo resultados bons…

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