Índice de Capítulo

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    Lúcia não se mexeu. Garm também não.

    A floresta parecia ter prendido a respiração junto com eles.

    A mulher caminhou devagar até parar a dois passos de distância. O lagarto branco levantou a cabeça, observando Lúcia com um interesse que parecia mais curioso do que hostil.

    Ela não disse nada por alguns segundos. Apenas analisou a garota e o lobo.

    Então estendeu a mão.

    — A bolsa.

    Lúcia olhou para Garm por um instante.

    Rangendo os dentes, desamarrou a carga e a entregou.

    A mulher abriu o fecho com uma calma irritante. Remexeu o conteúdo com dois dedos, puxando pequenos pacotes selados.

    Um sorriso torto surgiu em seu rosto.

    — Desse tipo eu não conheço — comentou. — Pra onde isso vai?

    — Galpão sete…

    A mulher soltou o pacote de volta dentro da bolsa.

    — Ótimo. — Fez uma pausa curta. — Da última vez você saiu com uma advertência.

    Um dos soldados dentro da armadura soltou uma risada baixa.

    — Eu lembro — disse a voz metálica. — A menina chorou.

    Lúcia não respondeu. Aprendeu cedo que responder esse tipo de gente nem sempre ajudava.

    — Gosta mesmo de estar viva, menina?

    — Gosto, coronel Marta.

    O sorriso da mulher aumentou.

    — Pois não parece.

    Ela fechou a bolsa e deu mais um passo. A mão foi ao cinto. A faca surgiu com naturalidade e a ponta encostou na testa de Lúcia.

    Garm rosnou baixo, mas permaneceu parado.

    — Mas hoje é seu dia de sorte — disse Marta. — Tá indo pro mesmo lugar que eu ia.

    Antes que Lúcia pudesse perguntar o que aquilo significava, uma das armaduras caminhou até elas.

    Sem cerimônia, o soldado jogou duas maletas pretas pesadas no chão.

    O impacto levantou terra e folhas secas.

    Marta chutou uma delas na direção de Lúcia.

    — Já que você gosta tanto de fazer entregas… — apontou para baixo. — Vai levar isso junto com as drogas.

    Lúcia olhou para as maletas. Depois, para a mulher.

    A coronel inclinou levemente a cabeça.

    — Tá me olhando assim por quê? Se preferir, te mato e sigo eu mesma.

    — Vou fazer a porcaria da entrega… coronel Marta.

    A faca finalmente saiu da testa da garota, girou no ar e voltou ao cinto.

    — É bom mesmo. Se eu souber que não chegou, é melhor você nem voltar pra cidade.

    Lúcia assentiu.

    Relaxando os ombros, começou a prender a carga em Garm.

    — Missão completa — riu um dos soldados.

    — Fácil, fácil — comentou o outro.

    Marta balançou a cabeça, mas também deixou escapar um sorriso. Não olhou novamente para Lúcia.

    Com passos pesados e conversas altas, os quatro seguiram pela trilha já aberta por Garm.

    O silêncio voltou devagar.

    — Se eu der a volta, a gente chega na cidade antes deles — murmurou o lobo.

    — E pra quê?

    — Buscar a Eva. Fugir.

    Lúcia soltou um suspiro.

    — Não. Vamos fazer a entrega. O pagamento dessa vez vai dar um respiro.

    — Mas vai entregar mesmo as maletas?

    — Sei lá… a gente pensa no caminho.

    Ela voltou a montar nas costas do lobo. Se ajustou no pelo e Garm retomou o trote.

    A mente de Lúcia ficou para trás.

    As árvores passavam em borrões verdes enquanto ela pensava em cada passo que a havia trazido até ali.

    Não era a vida que sonhava.

    Não era a vida que queria.

    Não era a vida que imaginou quando ainda achava que o mundo fazia algum sentido.

    Afundou o rosto no pelo de Garm.

    — Vai ser a última entrega. Prometo que a gente dá um jeito de sair dessa vida de merda.

    O lobo fingiu não ouvir.

    Foi quando o pelo dele voltou a se eriçar.

    Logo depois veio o disparo.

    Dessa vez Lúcia não foi rápida o suficiente. Seu corpo voou para frente.

    Não machucou quando caiu em meio a um amontoado de arbustos.

    Ela suspirou.

    — Hoje não é meu dia…

    Ergueu-se de uma vez, estalando as juntas.

    Infelizmente, também não foi rápida o suficiente para se esconder.

    O cano da arma encostou no mesmo ponto onde a faca de Marta havia estado segundos antes.

    — De onde cê tá vindo?

    Lúcia ergueu os olhos.

    Um puro com roupas gastas, fedendo a cerveja, a encarava. Mesmo sem ver os outros, ela podia ouvir vários passos ao redor.

    A arma pressionou mais forte.

    — Tá vindo de onde, caralho?

    Lúcia grunhiu antes de responder.

    — Da capital. Só tô fazendo uma entrega.

    — Entrega?

    O homem olhou em volta. Só então percebeu o lobo.

    Recuou um passo, assustado. Depois percebeu que o animal não ia avançar.

    Os olhos dele voltaram para as maletas.

    — Cê é bem azarada, hein?

    — Não pode só me deixar ir embora? — Lúcia abriu seu melhor sorriso. — Só quero ganhar meu dinheiro.

    O homem também sorriu.

    Infelizmente, o dele era pior.

    — Num dá não.

    Ele tirou a arma da testa dela e usou o cano para coçar a nuca.

    Suspirou.

    — Ô Marcos… o capitão tá por aí?

    — Tá na linha de trás — respondeu uma voz entre as folhas.

    — Chama ele.

    Ouviram um suspiro alto, sem resposta. O homem, no entanto, só esperou.

    Não demorou para os sons de corte se aproximarem.

    Dois homens e duas mulheres avançavam, abrindo caminho com facões largos.

    Atrás deles, um homem caminhava devagar.

    Sua pele queimava.
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