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    — Por favor, me acompanhem — disse o jovem além da porta aberta. Apresentara-se como Emanell, mostrando-lhes um estranho sorriso afável.

    Vestia-se bem demais para ser um simples guarda, com uma túnica carmim envolta com panos azuis sobre os ombros e torso, e sandálias de couro pouco gastas.

    Um residente?, pensou Zaya.

    O moço deu um passo para trás e fez como se esperasse.

    A garota pequena se adiantou, saindo antes de todos com a expressão serena de quem não parecia entender a posição em que se encontrava. O homem simplório a seguiu. Como a garota, parecia não se importar onde estava. Na realidade parecia apenas não se importar com nada.

    Ítalo olhou para a Zaya antes de seguir os outros dois.

    — Talvez seja algo bom — disse ele.

    Zaya teria de discordar, lembrando-se da cabeça de Luqa rolando pelo salão de Baaz. Nunca era algo bom quando ela era chamada por um anfitrião. Pensou em Aaliyah e então seguiu-o.

    Os passos de todos ecoavam pelo corredor, por pouco tempo, pois o espaço se abriu em uma antecâmara guardada por dois grandes homens envoltos em capuzes, segurando grandes lanças com pontas de ferro negro. Apenas seus rostos estavam visíveis com expressões sombrias a encarar quem por ali passava.

    Três passagens em forma de meia lua se ramificavam da antecâmara, à esquerda, à direita e à frente. Tochas em cada lado dos arcos iluminavam-nos, porém apenas no da frente era possível ver luzes iluminando o corredor. E foi por esse que o jovem residente seguiu.

    Daisy, a garota pequena, o seguia de perto, com uma passo que não deixava qualquer som escapar. O homem simplório, logo atrás dela, parecia imitar o jeito da garota andar, numa brincadeira infantil, o que Daisy riu ao perceber.

    — Eles são loucos — Zaya sussurrou baixinho.

    — Como assim? — Ítalo perguntou ao seu lado. Ainda que andasse na sua frente, parecia ter cuidado para acompanhar o passo de Zaya. Ou talvez preferisse se manter afastado dos outros dois. Zaya preferia.

    O corredor levou-os até outra passagem, mais luminosa e ampla, então Zaya se viu próxima do teto abobado, no alto de um grande espaço aberto na vila, estendendo-se como uma fenda na rocha até perder a vista. Pontes, movimentadas pelos passos de centenas de hóspedes, atravessavam-no de alto a baixo, sobre algo que deixou Zaya sem fôlego ao observar.

    Um rastro fluído e semi transparente correndo por entre as pedras no fundo.

    — Isso é uma ravina? — Ítalo perguntou ao seu lado.

    — Esse é o braço de Ash’hurr — respondeu o residente, caminhando pela trilha junto a parede da abóbada. — Sigam-me, nosso destino é além do céu de pedra.

    Caminharam e caminharam.

    Daisy e o homem simplório, descontraidamente. A garota cantarolava como se passeasse em direção a uma fonte de água. Ítalo, distraidamente, olhando para tudo ao redor. Parecia encontrar interesse na menor pedra que seu olho visse. Zaya se esforçava para caminhar.

    O que havia no final daquela passarela?

    Não desejava perguntar, nem saber a resposta, que se aproximava mais e mais a cada passo.

    Desceram por uma rampa e Zaya notou uma grande luz que estava à frente. As pontes começaram a diminuir  e rastros verdes, marrons e amarelos se espalhavam no fundo da ravina, ao redor do fluido fluxo, cada vez mais próximo.

    — Incrível. Como essas plantas sobrevivem com tão pouca luz? Talvez não precisem da luz do sol, né? — Ítalo olhou para Zaya, como se esperasse uma resposta dela à sua indagação.

    Tudo o que ela pôde dar-lhe foi uma expressão aborrecida, observando-o encolher os ombros e olhar para o outro lado.

    Continuaram caminhando atrás do residente, e a luz se expandiu ao redor dele. Zaya cobriu os olhos doloridos, se acostumando com a claridade e o calor, da mesma forma que fazia toda a vez que atravessava o portão de ferro da vila e se deparava com o céu azul.

    O mesmo que estava sobre sua cabeça naquele momento. A vila se abria como uma bacia, com as paredes arredondadas em volta do rastro de água no fundo, que acabavam no grande azul acima.

    As manchas verdes haviam aumentado, tanto em tamanho, sendo maiores que dois homens, quanto em quantidade, alastrando-se pelas rochas, em outras tonalidades de cores. Uma parte era branca, outra amarela e laranja, outra, arroxeada, todas envoltas por verde escuro. O rastro fluído alargou-se, cobrindo um espaço tão grande quanto a praça da grande fogueira em sua vila. À distância, ela viu movimentos na água, e percebeu que não eram de animais, mas pessoas. Mulheres e crianças, percebeu.

    Percebeu que não havia soldados para impedi-los de estar ali. Ninguém guardava a água. Toda aquela água tão azul. Nunca havia visto água com aquela cor, ou sequer sabia que água tinha cor.

    Lembrou-se das palavras de seu pai, ditas a tanto tempo.

    O que é esse azul, o céu?, perguntara tão inocente. Não, isso é o mar, ele respondera. Tão alegre quanto era.

    O mar é tão pequeno, pensou consigo mesma.

    Fitou, admirada por tantos motivos que não conseguia ordenar. Até que sentiu um leve toque em seu braço e olhou rapidamente para o lado.

    — Ei… temos que andar — Ítalo avisou com sua voz hesitante.

    Zaya viu os outros três se distanciando, descendo pelo caminho da encosta em formato de cuia, e percebeu que havia parado enquanto olhava para aquilo. Retomou a caminhada, sem conseguir tirar os olhos do azul de baixo, não mais prestando atenção no de cima.

    O vento soprava contra suas costas fazendo balançar os cabelos. Não sentiu a familiar quentura no pescoço ao qual estava acostumada. Aquele vento parecia frio, agradável como um abraço de mãe.

    As plantas espalhadas nas rachaduras das paredes e em volta do pequeno mar se mexeram.  Então Zaya viu algo sair das manchas coloridas. Coisinhas tão pequenas quanto insetos, flutuando, carregadas pelo vento. Centenas delas.

    Um punhado caiu junto às rochas e as outras plantas. Um punhado sobrevoou o mar, aterrissando na água em constante. Um punhado soprou em sua direção, atravessando a água e caindo sobre Zaya e os outros. 

    Sem que ela pensasse, seus pés deram um passo para trás, e seus ombros se encolheram enquanto os braços se recolhiam e agitavam tentando evitar serem tocados por aquelas pequenas criaturinhas coloridas. Enervou-se até que olhou para o lado e viu Ítalo com meia dúzia na palma da mão, observando com uma expressão boba.

    — Bonito — Zaya ouviu o homem simplório dizer enquanto catava com suas mãos grandes algumas que ainda estavam no ar.

    Uma das criaturinhas pousara na ponta de seu nariz.

    — Sim — Daisy respondeu, soprando as que estavam nas costas de sua mão.

    Zaya então deixou as pequenas lhe tocarem, e não sentiu nada se não cócegas enquanto as criaturinhas lhe roçavam a pele e os cabelos. Não pareciam vivas, embora algumas não parassem quietas.

    — Pétalas sopradas ao vento. Nunca pensei que veria algo assim aqui — comentou Ítalo com uma voz quase maravilhada.

    Nem eu.

    Continuaram andando, seguindo o residente até chegarem em um lugar onde os paredões de pedra em ambos os lados diminuíram e o mar se estreitava.

    Zaya ouvia um som, como um milhar de vozes chiando ininterruptamente. O caminho por onde seguiam de repente não era mais uma trilha estreita ao pé do paredão, mas uma grande extensão plana ao lado da água corrente, que seguia e seguia, até não existir mais. Nem a água, nem a rocha. Apenas o azul cortado ao meio pelo marrom claro do chão sob seus pés.

    Uma mulher esperava na frente do azul, virada para ele. O residente os guiou até ela e então Zaya teve a visão do que havia além do azul e para onde a água corria.

    Para baixo, e além, onde o fluxo azul seguia em meio ao vermelho.

    As pernas tremiam-lhe, a barriga apertou-se e o peito pulsava como se inchasse.

    — Isso é — disse, tentando por em palavras o que seus olhos viam.

    — Sim — A voz da mulher confirmou o que sua mente pensava.

    Zaya olhou para aquele vermelho abaixo e sentiu os joelhos baterem no chão quando os pés não mais suportaram o tremor em seu corpo.

    Ouviu a preocupação na voz de Ítalo quando este lhe perguntou o que lhe ocorria, se estava bem. Não respondeu, os gemidos e as lágrimas sufocaram qualquer som que sua voz poderia ter.

    — Chore e sinta. Pois todos os filhos de Ash’hurr o fazem quando se encontram na ponta de seu braço e contemplam a cor do sangue dos eleitos — disse a anciã, então continuou a dizer e tom solene. — Esse é o sinal do seu sacrifício. O mar vermelho.

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