Capítulo 11 - Zonas de risco
POV Paul
Passaram-se algumas horas desde o reencontro com Marco e Lucius. Tony havia nos mostrado a sala. A escondemos dos garotos e da Tarsila, evitando que vissem os horrores que ali ocorreram. Analisei um pouco alguns cristais. Pareciam normais, como grandes gemas, mas algo me intrigava. Era como se ele fosse feito de uma energia diferente. Meu núcleo pulsava ao encostá-lo. Provavelmente, era Hao.
Após sairmos da sala, Tony nos puxou para uma conversa em uma das salas do andar de cima. Subimos e deixamos Tarsila com os gêmeos. Adentrando à sala de aula, notei a falta de cadáveres na mesma. Tony disse que pela noite, havia os retirado para abrigar os garotos. Ele é mais legal do que parece.
Sentamos nas mesas em círculo e Tony nos contou tudo o que havia ocorrido com ele a partir do momento em que viu a escola, desde o contrato até tudo o que descobriu. Entretanto, havia algo que eu não tinha ouvido antes: Os Caminhos. Curioso, lhe questionei:
— O que são esses “Caminhos”?
— Bem, pelo que compreendi, são maneiras de usar o Hao. Pense nisso como feitiços dentro de uma história de fantasia. Cada feitiço tem seu “elemento”, certo? Pense nos Caminhos como sendo os elementos. A única diferença é que, pelo que sei, existem vários e você só pode “ativar” o seu em um Totem Espiritual
Já ouvi esse nome antes. Foi naquela voz de ontem.
Tony continou a dizer:
— Eles são encontrados em Ruínas Sagradas ou em Zonas de Risco
“Zonas de Risco”? Eu nunca ouvi esse nome antes.
— “Zonas de Risco”, você diz?
— Sim. Veio junto com as informações que recebi quando apaguei. São áreas comuns, diferente das construções que surgiram por aí, como as ruínas. As Zonas de Risco são lugares já existentes no mundo humano que foram “contaminados” pela aparição da “Fissura”. Existem muitas criaturas lá, mas existem recompensas, também
— Recompensas, hein?
— Eles variam desde itens, armas e, é claro, os Totens Espirituais
— E como eu faço para descobrir uma Zona de Risco?
Jacques perguntou.
— Você vai saber bem quando entrar em uma. Se quiser tentar localizá-las de longe, é mais difícil, mas você precisa “concentrar” sua Rachadura na cabeça. É meio confuso e demorado, mas, uma hora ou outra, você vai conseguir
— Eu acho que consigo com prática
Jacques se levantava e se alongava dizendo:
— Bem, vamos atrás da tríade da bagunça?
Lilia lhe respondeu instantaneamente:
— Não quer descansar um pouco? Acabamos de chegar e ainda precisamos pensar num plano! Não me sinto confortável em investigar esse fim do mundo com a Tarsila, então nem pretendo andar por aí com os gêmeos! É muito arriscado!
— Eles podem ficar aqui por enquanto, se quiserem
Tony respondeu de cabeça erguida. Milo abriu a boca:
— Acho uma ideia boa. Sabemos se a escola deles é perto dessa?
— Relativamente. Em Proust, não tem muito para onde ir
Comentei com uma leve risada. Milo sorriu e Lilia tornou sua fala:
— Ainda sim… Eu não gosto dessa ideia…
— Bem, creio que ninguém virá até a escola depois do que aconteceu com Paytan. Para os mais sensíveis com o Hao, ver o Hao de um Semideus espalhado num cômodo só o assustaria, mas os menos sensíveis, caso entrem, se depararão com os cristais. Posso deixar a porta da sala dos cristais aberta e trancar as crianças aqui com comida e água
Tony respondeu.
— Tendo em vista que vamos ficar fora por pouco tempo, acho uma boa ideia
Jacques disse, apoiando a ideia do homem. Lilia parecia apreensiva ainda. Precisávamos agir rapidamente:
— Lilia, você fica com as crianças, então. Vamos eu, Milo e Jacques
— Por que eu fico?
— Você é a mais responsável entre nós, sendo sincero. Além disso, você é forte também. Voltaremos o mais rápido possível
— Certo…
— E-Eu posso…
Uma voz saiu abafada do cabisbaixo Tony:
— Eu posso ir com vocês?
Nos encaramos. Olhei para Milo, Jacques e Lilia. Milo sinalizou discretamente que sim com a cabeça, Jacques também. Lilia, ainda tensa, consentiu. Me aproximei do mesmo. Estava curioso com algo há um tempo:
— Você pode. Contudo, vamos fazer um acordo
— Um acordo, você diz?
— Igual ao que o Semideus fez a você
— Isso é alguma piada de mal gosto?
— Bem, talvez…
Soltei uma leve risada, mas percebi que não conseguiria. Enquanto eu conversava com ele, tentei concentrar minha Rachadura ao máximo. Não sabia como materializar um contrato igual ao que o Semideus havia feito. Aprender a fazer isso seria perfeito. Ainda não confio totalmente em Tony, mas não o odeio. Contudo, ter um acordo com ele seria perfeito.
Apertei sua mão e disse:
— Fico feliz de fazermos parte dessa equipe, Tony
— Digo o mesmo
Pegamos comida e água e fomos. A escola não era tão longe. Fomos caminhando cautelosamente enquanto nos aproximávamos do prédio estudantil. Ele era maior que o dos gêmeos, mas menor que a Escola Longus, a qual eu estudava. Finalmente, havíamos chego na Escola Platus.
Perto de pisar na calçada do campus, ouvi a voz de Tony em um tom alto:
— Pare, Paul!
Fiquei imóvel e virei para ele:
— O que foi, Tony…?
— A escola…!
Vi seus olhos brilhando momentaneamente em roxo:
— A escola, Paul… É uma Zona de Risco!
Gelei instantaneamente. Milo engoliu seco e Jacques deu um suspiro. Mesmo que quisesse evitar qualquer tipo de situação de combate, eu precisava saber do paradeiro dos meus irmãos. Estralei os dedos e me virei para eles:
— Ainda sim, querem progredir?
— Espera, Paul… Você vai?
Tony me perguntou enquanto ajustava seu óculos.
— Sim, eu vou
— Vou com você, irmão
— Eu também vou contigo. Já matamos uma criatura antes! Não que seja fácil…
— Vocês… São completamente pirados! Que droga…!
Tony ficou rangendo os dentes e coçando a cabeça e disse:
— Que se dane, eu vou! Não vou ser um babaca!
— Ótimo! Vamos
Sorri e segui em direção à escola. Ao passar pelo portão, ouvi minha própria voz ecoando na minha cabeça:
[Você adentrou a Zona de Risco Escola Platus!]
O que foi isso agora há pouco? Parece com a voz que ouvi várias vezes ontem, mas foi a minha própria voz…
Fomos caminhando pelo jardim da escola. Me sentia observado enquanto andava. Os avisei em tom baixo sobre o que senti. Eles me disseram que também o sentiram. Precisava ficar atento, afinal, era uma Zona de Risco. A única sinfonia que passava pelos nossos tímpanos eram nossos cautelosos passos. Em poucos segundos, isso mudaria.
Passos rápidos no gramado vindo das sombras. Ajeitei a bainha e saquei a espada. Jacques instantaneamente puxou seu sabre, Tony se aprontou numa pose de defesa com seu cano e Milo puxou sua lâmina. Rapidamente, vê as mesmas criaturas negras que atacaram a mim e a Milo na primeira vez e gritei:
— Se preparem!
A primeira pulou até mim. Balancei a lâmina e a cortei ao meio com um só golpe. Realmente, os núcleos absorvidos por mim fizeram efeito. Eu estava mais forte e levemente mais “habilidoso”. Mesmo não sabendo quase nada sobre como usar uma espada, senti que havia aprendido o mínimo.
Dois deles pularam em cima de Jacques que cortou um deles com o sabre e golpeou o outro com um soco no peito, o deixando vulnerável e o decapitando logo em seguida. Com Milo, uma delas havia pulado em cima do meu amigo. Quase como se fosse um mestre do combate com armas brancas, pegou o lado de sua lâmina e fez um corte diagonal por todo o tronco da fera, que caiu e foi finalizada com um corte no pescoço.
Apenas uma avançou para Tony, que empurrou seu cano na direção de seu pescoço, a perfurando com facilidade. Relembrei das criaturas que enfrentamos na minha escola. Antes que tivéssemos tempo para respirar, mais delas saíram de trás das árvores e dos fundos do prédio. Talvez não fosse tão fácil quanto havia pensado.

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