Índice de Capítulo

    Roupas sociais não combinavam com o estilo de Kamito. Assim que terminou de se arrumar foi para a sala, foi alvo de risadas e provocações de Solum. Lília e Ruby, por outro lado, elogiavam a aparência do rapaz. Entre críticas e elogios, ficou do lado dos comentários que o faziam sorrir.

    Minutos depois, Akane desceu as escadas usando um lindo vestido vermelho com decote em V e luvas pretas que iam até os cotovelos. Os cabelos, agora brancos, foram presos para trás, deixando algumas mechas soltas. Kamito ficou boquiaberto.

    Akane se aproximou envergonhada e, ao mesmo tempo, ansiando por elogios. Não seria preciso esperar muito — todos ficaram impressionados com a mudança.

    — Borboleta, você está linda! Quem diria que branco e vermelho combinam tanto com você! Até o Lobo ficou sem palavras! Veja só a cara de bobo dele. — Ruby riu.

    Adorava provocações. Ruby fitou o rapaz com o semblante sapeca e deu uma leve piscadinha ao perceber que conseguiu o irritar. Pouco depois, ela se aproximou do casal, notando que estavam usando os pingentes.

    — Mesmo nessa ocasião, vocês não tiram os pingentes. Isso que é amor! Aliás, isso ajudará no disfarce. O par de pingentes dá ainda mais credibilidade à ideia de que vocês são noivos. Essas pedras são muito raras e especiais aqui no Extra-Mundo. Onde vocês as encontraram? — ela ergueu a sobrancelha direita.

    — Eu as comprei na Terra no dia que o Lobo e o Coiote se enfrentaram pela primeira vez… Assim que as vi, eu me encantei e as quis para nós. Eu não fazia ideia de que elas eram tão raras. — Akane apertou seu pingente com um sorriso meigo.

    — Que curioso. Essas pedras conseguem acumular energia, sabiam? — ela levantou o dedo, adotando a postura parecida com a de uma professora. — Por causa dessa propriedade, elas foram exploradas até o limite. Hoje em dia, esses pingentes seriam caríssimos aqui no Extra-Mundo. É basicamente um item de luxo dos nobres!

    — Então isso realmente ajudará no disfarce. — Akane respirou fundo, orgulhosa. — Mesmo que elas possam valer uma fortuna, eu não a venderia por nada. Ela me faz estar mais próxima do Lobo, é um presente meu para ele.

    — Igualmente. Quero carregar esse pingente pelo resto da minha vida, ele é especial para mim. E curiosamente também sinto o mesmo. Ele também me faz me sentir mais próximo da Borboleta quando não estamos juntos. — Kamito deu um sorriso contido.

    Logo as atenções se voltaram para a escada — faltava Katharine. Não demorou para ela aparecer. Desfilava naturalmente com um longo vestido negro com detalhes em azul; exaltava com orgulho os cabelos soltos.

    — Você se parece com um nobre, Lobo. Estou surpresa. — ela olhou para Akane e cruzou os braços com um sorriso de canto. — Mas não tão surpresa quanto fiquei ao ver essa dama. Você será o centro das atenções, Akane.

    — Estão todos prontos? Já está na hora. — interrompeu Raishi.

    — Estamos prontos. Cidade do Sul fica longe daqui, Raishi? E se nos atrasarmos? — perguntou Kamito, preocupado com a missão.

    — Relaxa, novato. — Tenebris, encostado na parede, abriu um sorriso confiante e apontou para si mesmo. — Deixa isso comigo.

    Bastou estalar os dedos. Eles e todos os aliados foram envoltos por uma energia azul e, num piscar de olhos, apareceram nas redondezas da grande Cidade do Sul.

    Longe de olhares curiosos, Raishi repassou o plano mais uma vez antes de deixar o trio principal ir. Kamito respirou fundo, precisava manter a calma — a encontrou no toque e no sorriso gentil de Akane. Sim, ele estava pronto para ir.

    Seguiram por uma estrada bem iluminada, onde um veículo de classe alta os aguardava. Assim, foram levados até a mansão do Político.

    O lugar era enorme e bem protegida. Após o motorista parar o carro na entrada da mansão, um mordomo prontamente os recebeu com todas as regalias e abriu a porta do carro. Um imenso tapete vermelho se estendia até o interior.

    — Bem-vindos à mansão do Senhor Sora. É uma enorme honra termos a presença de pessoas tão importantes como vocês. Por gentileza, o convite. — o mordomo fez uma breve reverência e estendeu a mão direita.

    Ao receber o convite das mãos de Katharine, o homem arregalou os olhos ao ver o brasão e, por puro instinto, abriu caminho para o trio passar.

    — Mil desculpas pelo inconveniente, meus senhores. Não se repetirá. É um prazer divino estar na presença de uma das Grandes Famílias Nobres, os Lobos do Norte. Divirtam-se essa noite. — ele deu um sorriso largo.

    — Muito obrigada. Se possível, eu gostaria que nossa presença não fosse anunciada. Os Otso não comparecem a eventos como este há muito tempo, por isso não quero ser o foco das atenções. — Katharine pediu num tom imperativo e seguiu pelo tapete. Estava séria e imponente, completamente diferente da mulher que Kamito e Akane se acostumaram a ver nos últimos dias. Ela os olhou por cima do ombro. — Eu falei que não haveria problema para vocês. E antes que perguntem sobre os “Lobos do Norte”, eu lhes direi. Somos de um clã de guerreiros extremamente poderosos vindos do Norte. Lobo é a tradução de Otso. Agora, concentrem-se em encontrar o Sora.

    O jovem casal a seguia atentamente; Akane segurava com elegância o braço do namorado. Ao passarem pela enorme porta, entraram num imenso salão lotado de convidados. Alguns deles já trocavam sussurros entre si graças à aparição do trio.

    — Não estou gostando disso, estamos chamando muita atenção. Foi certo termos vindo? Será que nossas roupas são o problema? — Kamito murmurou.

    — Devem estar comentando sobre nunca terem nos visto, e sobre a beleza da sua noiva. Aliás, use Kayn para ocultar seu nome. — Katharine caminhava tranquilamente pelo salão, sem dar atenção desnecessária aos convidados. Um mordomo passava com taças de champanhe. Pegou logo três. — Nem pensem em beber. Usem apenas para se misturarem. Seria um problema se vocês perdessem a cabeça. Agora parem de me seguir e vão se enturmar. Não serei babá a noite toda.

    — Falar é fácil. Como vamos obter informações sem chamar atenção? Sair por aí perguntando chamaria muita atenção. O único jeito é esperar ele aparecer. — Akane lançava olhares atentos aos arredores, em busca do anfitrião.

    Sem sucesso, aproveitou a breve calmaria para fazer alguns comentários

    — Você ficou lindo nesse terno, querido, principalmente seu cabelo. — ela sorriu, o segurando com mais força. — Mas eu prefiro ele bagunçado e assanhando.

    — É-é sério? Sempre achei que meu cabelo fosse um problema. Até estava pensando em cortá-lo para ver se melhorava, mas não irei mais. — ele riu, envergonhado.

    Precisou se recompor. Um casal se aproximava. Ele tentou avisá-la com o olhar, mas o nervosismo prejudicou sua performance. Akane não entendeu a mensagem. Sem saber como agir, Kamito tomou a iniciativa.

    — B-boa tarde. Eu sou Kayn Otso, e essa é a minha noiva, Kamine. É um prazer conhecê-los, eu acho… Como se chamam? Desculpem a grosseria.

    — Está nervoso, jovem? Essa é a primeira festa de vocês? Não que isso importe. Fico surpreso em ver que ainda existem Otso por aqui. Meus parabéns pelo noivado, sua noiva é linda. Você é sortudo. — comentou um senhor de terno preto com detalhes vermelhos, cartola e bigode. Os olhos azuis e cabelos marrons davam a ele a aparência de um Terráqueo, mas aquele homem certamente era Extra-Humano.

    Parecia simpático, mas era confiável?

    — Meu nome é Abel, e essa é minha adorada esposa, Selina. — ele apresentou uma mulher loira de olhos vermelhos. O longo vestido vermelho destacava sua silhueta. — Espero receber um convite para o casamento de vocês. Lembrem-se disso.

    — É um prazer conhecê-los, e com certeza os convidaremos. Estamos esperando o melhor momento para marcamos a data. Ainda está um pouco difícil devido a toda essa situação atual. Nos desculpem por não podermos dar uma data específica. — Akane deu um sorriso cordial, tentando contornar a situação.

    Sua resposta foi precisa — poderia conseguir informações sem sequer mencionar o Político. Entretanto, isso chamou a atenção de Selina, que puxou o marido de forma estranha. Akane e Kamito se olharam. Disseram algo suspeito?

    — Não seja tão alvoroçado, querido. Desculpem o meu marido, ele adora ser o centro das atenções. Parabéns pelo noivado, jovens. — ela disse com um sorriso amarelo.

    Após os cumprimentar outra vez, ambos se afastaram para uma área com poucos convidados e não olharam mais para o jovem casal. Estavam encrencados?

    — Não falei para você não ser tão intrometido? Você os assustou! Tente se controlar da próxima vez. — ela o advertia com seriedade, Abel dava um sorriso amarelo.

    Apesar de não saberem o motivo da retirada do casal mais velho, sua ausência ao menos serviu para deixar os jovens um pouco mais aliviados.

    — Por que será que ela fez aquilo? Foi muito suspeito, não acha? Talvez eles saibam algo sobre o Político. — Kamito levava a mão direita ao queixo, pensativo, mas logo deu um leve sorriso. — Acho que chegou a hora de interagirmos mais, “Kamine”.

    Pela primeira vez, Kamito se sentiu confiante para caminhar entre os nobres de Eudora. Akane não deixou. O segurou pelo braço, o impedindo de avançar. A feição séria era sinônimo de que algo não estava certo.

    — Aconteceu alguma coisa? Você está se sentindo bem? Akane? — ele murmurou.

    — Que nome é esse pelo qual me chama? Até agora eu não o entendi. Você o diz com uma naturalidade, não parece que foi de última hora. — ela ergueu a sobrancelha direita, os lábios levemente retorcidos.

    Kamito deu uma risada discreta e colocou a taça de champanhe na mesa ao lado. Em seguida, ele a segurou pelas mãos, ainda sem dizer nada.

    — O que foi? Fala. É alguém da sua família que eu não conheço? Ou é alguém que você nunca me contou, hum? Você nunca mencionou esse nome antes.

    — Kamine é o nome que eu pretendia sugerir caso tenhamos uma filha. Sei que soa estranho, mas minha mãe contou que esse quase foi o nome dela. Eu gostei muito e, se pensar com cuidado, é uma união perfeita dos nossos nomes. — ele sorriu, apesar da vergonha. Era a primeira vez que falava sobre filhos com a namorada.

    O olhar de Akane misturava surpresa e emoção.

    — Eu pretendia te contar no momento certo, já que talvez você detestasse esse nome, por isso que decidi usá-lo agora. Desculpa. — ele desviou o olhar.

    — Você realmente pensa em ter filhos comigo? E-eu estou surpresa… — ela deu um ar de riso envergonhado. — Nunca pensei que você já estaria pensando tão longe.

    Ela se virou de costas, tentando manter a compostura. Quando Kamito ameaçou se aproximar, ela se virou com um sorriso largo e os olhos brilhando como estrelas.

    — Está bem! Nossa primeira filha se chamará Kamine, mas eu escolherei os outros nomes! Nem tente discordar, entendeu? Vai! Diga que entendeu!

    Seus rostos estavam quase colados, tamanha era a animação da garota. Kamito riu e cedeu aos desejos da namorada, que vibrou discretamente.

    Naquele instante, a atenção dos convidados se voltou para as escadas principais. Um homem elegante descia degrau por degrau com classe. Só podia ser o Político, não? Kamito, Akane e Katharine — perfeitamente misturada entre outros convidados em outra área do salão — o observavam com seriedade. Agora sabiam quem era o alvo. Ou seja, a parte mais difícil estava prestes a começar.

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