Capítulo 85 — O Encontro com a Emota
Lá estavam os últimos membros da Emota, sentados ao redor da fogueira: uma moça com longos cabelos azuis e olhos amarelos, tinha pouco mais de vinte anos; um rapaz com cabelo branco e olhos negros, um pouco mais alto do que a parceira, e por volta de vinte e cinco anos; e outro rapaz com olhos e cabelos castanhos claro, com mais de um e oitenta, aparentando ser o mais novo entre os três.
— É um grande prazer conhecer a Ordem dos Cavaleiros Brancos. Eu me chamo Tenebris, sou o líder da Emota. — disse o rapaz de cabelos brancos.
Aproximou-se de Raishi sem ressalvar, a mão estendida para um cumprimento formal. Ele parecia tranquilo, seguro, como um líder nato. Os companheiros, por outro lado, mantinham a cautela enquanto observavam os convidados.
— Fiquei surpreso quando suas subordinadas nos encontraram, ainda mais com a proposta que trouxeram. Quem diria que, um dia, teríamos a honra de conversar com membros da lendária Ordem, conhecida em todo o mundo.
— Não precisa de tantos elogios. Os dias de glória da Ordem de foram há muito tempo. Atualmente, ela existe por um único motivo, o qual nos levou até vocês, Emota. Queremos derrubar o império e libertar o mundo. — Raishi o cumprimentou.
O semblante sem emoções do líder da Ordem era uma surpresa para o rapaz, que pensava já ter visto de tudo. Raishi abriu espaço para apresentar os demais.
— Eu sou o líder da Ordem, Coelho. Esses são Lobo, Borboleta, Graça e Ratel. Não os julguem pela idade. Eles conquistaram seus lugares na Ordem por merecimento.
— Ocultando o nome por cautela. Esperto, eu compreendo. Esses são Elarion e Raya. — ele indicou o rapaz e a moça que estavam ao redor da fogueira há pouco. — Estes que os acompanharam são Ryn e Capuz Negro. Sem codinomes, com exceção do Capuz. Então, querem mesmo derrubar o império?
O tom de voz mudou. Apesar de manter a calma, o olhar transmitia a seriedade que apenas alguém que enfrentou a morte por muitos anos poderia expor. Os outros rebeldes se preparavam para ativar suas Manifestações. A Ordem ficou em alerta.
— Pode me dar uma garantia? Antes de atacarmos o Imperador, fomos atacados por um homem chamado Cascavel, um antigo membro do seu grupo. Como saberei que vocês são aliados e não inimigos, como ele?
— Cascavel?! Isso é impossível! Eu o matei ano passado, como vocês o enfrentaram? — Kamito ficou boquiaberto. Tinha visto o momento em que Cascavel foi atingido pelo Blue Sky Ripper. — Não pode ser possível, tenho certeza de que o acertei com meu golpe final. Não tem como ele ter sobrevivido!
— Você é jovem, rapaz. Deve ter sido subestimado pelos inimigos, então não deveria cometer o mesmo erro e os subestimar também. Cascavel não é o tipo de oponente que morre com facilidade. — comentou Capuz Negro, sem nem olhar para Kamito.
— Eu entendo, mas… Vocês têm certeza de que era ele? Eu vi com meus próprios olhos o momento em que o acertei com meu golpe mais poderoso.
— Por que mentiríamos?! Por causa daquele rato, nosso ataque nos levou direto para uma armadilha! Mal conseguimos escapar! — Raya bateu o pé no chão. — Vocês não tinham motivos para lutar contra o império até agora. Por que isso mudou?!
Raya avançava sem restrições, Tenebris calmamente impediu sua passagem com o braço direito. A troca de olhar bastou para fazê-la parar, mas não para se calar.
— Digam, por que estão aqui? Quando precisávamos da Ordem, vocês deixaram o império se erguer. Só após a tirania se estabelecer e o povo decidir lutar pela sua liberdade, vocês decidem agir? Por que confiaríamos em vocês?!
— Porque o Cascavel é um traidor da Ordem. Nenhum de nós fazia parte do mesmo grupo que ele. Foram eles que destruíram a antiga Ordem. — ele fitou os jovens ao seu lado. — Eles destruíram a Ordem que deixou o Império se erguer.
Apesar do ímpeto, as palavras de Raishi e a calma de Tenebris obrigaram Raya a recuar. A tensão ainda era palpável, o diálogo precisava ser certeiro.
— Eu não tinha interesse de me envolver nessa guerra, até ouvir falar de um pequeno grupo. — ele caminhou tranquilamente até os rebeldes. — Um grupo que atacou o Imperador de Eudora e recuperou a esperança de um povo traumatizado. A Ordem precisava agir. Viemos para ajudá-los com o que começaram. Esse também é nosso mundo. Todos temos a perder caso falhemos.
— Belas palavras para um orador. — Ryn se aproximou, o fitando com desdém. — Disse que Cascavel era um traidor da antiga Ordem, certo? Quer dizer que ele causou problemas para vocês. Só por isso decidiram agir. Podiam assistir o Extra-Mundo pegar fogo, mas não suportaram a ideia de as cinzas caírem sobre vocês. Você não está aqui para salvar o mundo, Coelho. Você trouxe essas crianças para cumprir uma vontade pessoal. Desde que te vi pela primeira vez, seu olhar sem qualquer emoção fez eu me perguntar: o que ele realmente quer?
— Como você ousa falar essas besteiras sobre meu irmão?! — Ryruka se aproximou, ficando entre Raishi e Ryn. — Estamos arriscando nossas vidas e você vem com um discurso que questiona nossa índole? Quem você acha que somos?!
— Nos diga você. — Raya se juntou à amiga, ignorando o pedido de Tenebris. — Se você acha que está arriscando sua vida, experimente fazer isso por mais de quatro anos. Já tentou ajudar pessoas em situação de miséria sem poder se mostrar à luz do dia? Sabe como é o sentimento de precisar fugir e deixar essas pessoas para trás?
Ela deu outro passo à frente, ficando cara a cara com Ryruka.
— Sabe como dói ter que deixar quem ama para trás? — ela murmurou.
— Chega. Nós não temos culpa de nada disso. — Yujiro se aproximou. — A Ordem de que vocês precisavam não existia até ano passado, quando nós a recuperamos e a colocamos de volta nos trilhos. Sei que vocês estão cansados e sobrecarregados. Eu não vou dizer que consigo entender a perspectiva de vocês, porque nunca passei por nada disso. Sim, a antiga Ordem deixou o império se erguer. Bom, nós somos a nova Ordem que vai corrigir esse erro e derrubar tijolo por tijolo.
— Isso mesmo! Nós só queremos ajudar e vocês nos tratam assim?! Além disso, eu e o Lobo só despertamos nossas Manifestações ano passado, não podíamos fazer nada para ajudar antes! — Akane se juntou à discussão.
— Que?! Ano passado? Então vocês não passam de novatos! — exclamou Elarion.
Kamito suspirou e olhou para Raishi, que assistia ao debate sem apresentar nenhum incômodo. Não esperava que os ânimos fossem aflorar tão rápido, mas não queria ficar para trás enquanto a namorada discutia com estranhos. Prestes a dar o primeiro passo, sentiu uma onda de Energia Espiritual crescer. Por que era familiar? A discussão parou, os olhares se voltaram para Tenebris, que fitava os companheiros com negação — e com olhos amarelos. O vislumbre não durou muito, ele logo voltou ao normal e exibiu um sorriso amarelo enquanto se aproximava para puxar os aliados.
— Certo, certo, vamos nos acalmar. Quase não recebemos convidados especiais e vocês os afastam? Tenham um pouco de decência, pessoal. — após conter os ânimos dos amigos, trocou um olhar rápido com Capuz, em quem confiava muito, e voltou a olhar para Raishi. — Perdoe os meus amigos. Eles não são assim.
Outra vez, fitou Raishi com tranquilidade. Era nítido que queria uma aliança.
— Suas palavras parecem ser verdadeiras. Eu admito que erramos em ter confiado nas informações do Cascavel e ter atacado o Imperador daquela forma. Esse caos nos causou muitos problemas, mas também conseguimos fazer o povo se erguer. Não saímos de mãos vazias. Então, como vocês pretendem deter o Impero, Coelho?
— Eliminando os líderes de cada divisão. O império ficará fragilizado, desesperado com a hipótese de se fragmentar. Isso também nos poupa da possibilidade de um novo império se erguer no futuro. Vocês tentaram cortar a cabeça da serpente sem se preocupar com o corpo. Derrubar um Imperador é fácil, mas é mais fácil ainda o substituir. O verdadeiro desafio é derrubar o próprio império. Por isso que precisamos enfraquecê-lo antes de darmos o golpe final.
Ele caminhou até a fogueira para se aquecer. Os rebeldes ainda o olhavam com cautela, exceto Tenebris, disposto a ouvir seu plano até o final. Diante da fogueira, Raishi estendeu a mão direita sobre o fogo.
— Vocês acenderam a chama da liberdade e da revolta. Eu e meu grupo seremos a lenha que a manterá acesa. Não tenho interesse no que vocês pretendem fazer após a queda do império, só me interessa tirar aquele tirano do poder.
— Parece um bom plano, vindo de alguém que não tem interesse em como o Extra-Mundo ficará após o fim do império. Está bem, Coelho, se o que você diz for realmente verdade, a Emota o ajudará. — Tenebris se aproximou, sentando-se perto do fogo e convidando Raishi para fazer o mesmo. — Vocês possuem apoio de mais rebeldes? Quando pretendem começar as investidas? Sabe as identidades desses líderes? A maioria é mantida em sigilo pelo império. Nós só descobrimos quatro nomes…
Enquanto ambos conversavam, os demais trocavam olhares e opiniões.
— Acho que o Tenebris está se empolgando demais em querer trabalhar com esses caras da Ordem. Nós já derrotamos o homem que os traiu. Será que eles são mesmo tudo isso? Tirando a beleza das garotas, não vejo nada de diferente. Suas energias até que são um pouco acima do normal. — Elarion os analisava de cima para baixo.
Incomodada com o comentário, Ryn o cutucou. Não bastou para fazê-lo parar, o que incomodou Kamito. Ele ameaçou responder, Ryruka foi mais rápida.
— O que nossa aparência tem a ver com nossa força? Pensa que, só por sermos bonitas, não somos fortes? Não nos subestime. As rosas mais belas também têm espinhos, e eu dispenso elogios de alguém como você. Vocês duvidam de nós, mas não tiveram condições de lidar com o Impero. Quem realmente precisa de quem?
A provocação surtiu efeito, o quarteto a afrontou com raiva. Yujiro se aproximou, pronto para caso algo fosse acontecer. Com um olhar de desprezo, Ryruka sorriu.
— Não aceitam a verdade? Foram derrotados pelo Imperador e se envergonham disso, mas não aceitam que alguém toque no assunto? Não há vergonha em assumir um erro. Agora depositar essa frustração e desconfiança em quem estende a mão é ser idiota! Seus medrosos fracos!
Foi a gota d’água. Os rebeldes ativaram suas Manifestações e invocaram suas Relíquias. Akane e Kamito se juntaram às pressas aos amigos, preparando-se para um combate. Os líderes, que conversavam em paz até então, precisaram parar.
— E lá vamos nós de novo… — Tenebris levou a mão direita à testa, desapontado.
Enquanto encarava os rebeldes, Kamito sentiu o nervosismo crescer. Teria que lutar ali? E se sua energia se desestabilizasse? Mesmo com tantos riscos, ele nunca deixaria seus amigos lidarem com esse problema sozinhos.
Respirou fundo e a manifestou uma intensa chama azul que cobria seu corpo por inteiro; outra surpresa para os rebeldes. Raishi e Tenebris, enfezados, decidiram não interferir. Se havia diferenças entre eles, elas seriam resolvidas ali mesmo.

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