Bruno se encontrava anestesiado pela ideia de salvar sua irmã, e o impacto anterior de Rover mostrou-se inútil para cessar o avanço do garoto até ela, que também se encontrava presa naquela estrutura metálica deformada. — Ayon, por favor… — sua fé tornava-se um de seus poucos pilares naquele momento tão crítico, mesmo estando à beira de perecer, sustentando-se em uma linha tênue entre a vida e a morte.

    Finalmente, após longos minutos que mais pareciam uma eternidade, o motorhome destruído entrou em seu campo de visão, e embora alcançá-lo já fosse um desafio quase impossível, Bruno sabia que o verdadeiro obstáculo ainda estava por vir, pois precisaria encontrar uma forma de sair daquele lugar o quanto antes levando sua irmã, mesmo diante do estado em que ambos se encontravam.

    O que mantinha Bruno vivo, mesmo diante da perda massiva de sangue e de seus membros, não era algo que a adrenalina pudesse explicar, mas sim um fenômeno que beirava o inexplicável, um mistério que parecia violar as próprias leis da natureza.

    — Não é justo… — pensou Bruno enquanto travava uma batalha contra o cansaço de arrastar o que restava de seu próprio corpo utilizando apenas um dos braços e uma das mãos, sentindo cada movimento como uma punição insuportável. — Emma é uma boa pessoa…

    O corpo de Bruno havia chegado ao limite máximo de desgaste, a ponto de seu braço travar em uma câimbra terrível, impedindo qualquer avanço e reduzindo suas ações ao mínimo possível, restando-lhe apenas respirar de forma irregular enquanto observava o ambiente ao seu redor, cercado por destroços, sangue e desgraças que eram fruto direto daquela batalha.

    — Eu dou tudo de mim em minha devoção, e eu sou abandonado!? — o medo se esvaía na mesma medida em que seu sangue se esgotava, enquanto seu olho direito apresentava tiques nervosos e sua pupila se contorcia em círculos de forma antinatural, como se algo estivesse se manifestando além de sua própria consciência.

    — Eu não vou te perdoar… — Bruno voltava a se rastejar em direção à sua morada, agora movido por uma determinação mais densa e sombria, enquanto ecos indistintos, como prelúdios de algo maior, começavam a ressoar em sua mente. — NÃO VOU! — as palavras escapavam junto a um ar pesado e ensanguentado de sua boca, carregadas por uma fúria que ultrapassava o limite do desespero.

    — Se minha irmã morrer… — a palma de Bruno estava completamente dilacerada, não apenas pelos impactos sofridos anteriormente, mas principalmente pelo esforço absurdo que aplicava sobre o próprio corpo, suas unhas já inexistentes e seus dedos reduzidos a carne exposta, ossos e sangue visível, revelando a extensão de seu estado. — ELA NÃO PODE MORRER! — berrou com toda a força que ainda lhe restava, enquanto sua garganta expelia sangue a cada palavra, transformando sua voz em algo próximo de uma maldição, uma manifestação crua de seus sentimentos mais primitivos diante daquela situação.

    No outro lado daquele inferno, Eleonor e Rover continuavam travando uma batalha intensa, marcada por uma troca brutal de socos, poderes extraordinários e táticas refinadas vindas de dois extremos distintos, e mesmo em meio àquele confronto caótico, Eleonor conseguiu ouvir a voz de Bruno ecoando à distância, como um presságio inquietante do que ainda estava por vir, embora mantivesse o foco em seu embate.

    — Aquele cara ainda tá vivo e tá alucinando… mas porque isso me preocupa? — pensou em pleno combate, permitindo que aquela breve distração abrisse uma falha em sua defesa, o suficiente para que fosse atingida por uma onda de choque disparada por Rover diretamente em seu estômago, fazendo com que seu corpo fosse lançado ao ar com violência.

    — Baixou a guarda, sua puta! — complementou Rover no exato momento do impacto, e sem dar qualquer espaço para recuperação, impulsionou-se novamente como uma bala em direção a Eleonor, buscando causar o máximo de dano possível e encerrar o confronto com brutalidade.

    Eleonor pousava com maestria, porém no alto daquele mesmo céu que estava caindo anteriormente, surge Rover com seu palmo destro completamente carregado com sua aura prateada envolvendo unicamente aquele membro, seu punho estava cerrado indicando que iria bombardear Eleonor e o solo com uma explosão mais violenta.

    O impacto veio como um decreto inevitável, e no instante em que seu corpo atingiu o solo, o golpe de Rover desceu junto, fazendo com que o asfalto se fragmentasse em uma explosão brutal, abrindo uma cratera violenta que engoliu destroços, veículos e poeira em um único colapso, enquanto a onda de choque se expandia como um anel destrutivo, varrendo tudo ao redor com força esmagadora.

    No centro da destruição, por alguns segundos, não houve som algum além do eco do impacto dissipando-se lentamente.

    Eleonor havia utilizado a essência de seu sangue para criar a ilusão de que estava incapacitada de desviar devido ao ângulo em que pousava, quando na verdade encontrava-se a alguns metros de distância do ponto real de impacto, manipulando a percepção de Rover com precisão calculada enquanto observava o resultado de sua própria estratégia.

    — Nessa altura do campeonato a Indjaya já deve estar longe comigo ocupando o Rover desse jeito. — pensou enquanto via o impacto acontecer e se dissipar diante de seus olhos, posicionando o braço destro à frente do corpo como uma forma sutil de proteção, ainda mantendo total controle sobre a situação ao seu redor.

    Indjaya estava bem distante daquele caos, tendo seguido na direção para onde os civis haviam evacuado junto aos militares em retirada, permanecendo completamente sã e salva após seu desempenho na batalha, ainda que carregasse consigo o peso do desgaste físico que a impedia de retornar ao confronto naquele momento. Ao contrário da irmã, Indjaya havia muito menos experiência e força se comparado aos outros membros da Elite Sanctz, grupo este formado exclusivamente por aqueles que tem o dever de proteger a sua nação e subjugar forças hostis.

    De repente, um brilho avermelhado tomou posse do corpo de Rover, contrastando diretamente com a prata que revestia sua estrutura em uma harmonia mortífera e intimidadora, ao ponto de fazer parecer que a própria atmosfera ao redor se tornava mais densa, como se o ar estivesse sendo comprimido por uma força invisível.

    — Já era hora. — disse Rover, e naquele instante unificou novamente seus palmos, entrelaçando todos os dedos em um gesto característico, sua assinatura autoral para uma técnica que já havia assombrado povos e destruído mundos de maneiras distintas.

    Eleonor observava à distância toda aquela movimentação, temendo pelo pior enquanto seu pensamento acelerava em busca de uma resposta viável, e em reação imediata seu corpo materializou cerca de trinta faixas metálicas, o máximo que conseguia naquelas condições, espalhando-as ao redor de si como uma defesa preparada para o inevitável. — Isso não é bom… — pensou ela enquanto seus olhos esmeralda permaneciam fixos no rapaz.

    — Arte Esotérica: Memórias do Solo. — disse Rover calmamente, mas carregando um sorriso que contrastava com o ar sinistro que se instaurava ao seu redor, enquanto sua pele azulada começava a se desfazer, revelando que seu tom natural era de um branco puro, expondo com clareza sua natureza albina.

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