Capítulo 04
Bruno seguia em passo controlado com as compras recém-feitas, desviando entre os carros parados no engarrafamento enquanto equilibrava o peso das sacolas com cuidado. Ao longo da rodovia, os militares mantinham posições estratégicas, organizando o bloqueio e controlando o fluxo após a última apreensão, criando um ambiente rígido e monitorado. Civis permaneciam dentro ou ao redor de seus veículos, evitando movimentos desnecessários, enquanto soldados observavam cada deslocamento com atenção constante. A tensão era perceptível no ar, sustentada por silêncio e vigilância contínua, até que, de forma súbita, um soldado surgiu à frente de Bruno com precisão calculada, interrompendo seu trajeto ao colocar a mão direita sobre seu ombro com firmeza, impondo autoridade imediata. — Ei, de onde veio e pra onde tu vai? — questionou o soldado, mantendo o olhar fixo enquanto avaliava cada reação de Bruno.
Bruno percebeu a abordagem no momento em que a presença do militar bloqueou parcialmente sua visão e reduziu seu campo de movimento. Diante da diferença física e da postura dominante do homem, ele respondeu sem resistência, ajustando o corpo com cuidado para não deixar as sacolas caírem enquanto organizava rapidamente o que diria. — Aquele Motor Home do outro lado da via é minha casa, acabo de sair da conveniência aproveitando a parada pra reabastecer, minha irmã está lá dentro e formos abordados anteriormente pelo Sargento Vril — explicou Bruno, mantendo a voz estável e controlada, ao mesmo tempo em que observava discretamente o comportamento do soldado à sua frente.
A tensão da operação se mantinha constante entre os quase vinte soldados espalhados pela rodovia, todos em estado de alerta, com postura rígida e atenção voltada a qualquer anormalidade. O militar que abordara Bruno não demonstrava relaxamento, mantendo o corpo preparado para reagir a qualquer estímulo. Antes que pudesse dar continuidade à abordagem, a voz de Vril surgiu pelos rádios acoplados aos uniformes, cortando o ambiente com urgência clara. — Movimentação suspeita às 7 horas da rodovia, van escura e homens sain.. — iniciou o sargento, sendo interrompido abruptamente pelo som seco de disparos, que substituiu a comunicação por uma escalada imediata de caos.
A reação foi instantânea. Civis abandonaram seus veículos ou se jogaram ao chão, buscando proteção junto às latarias e rodas, tentando reduzir exposição enquanto gritos se espalhavam pela rodovia. Da van escura, sete homens armados desembarcaram rapidamente, vestindo uma combinação de roupas civis e equipamentos táticos escuros, movendo-se com coordenação clara. Os disparos foram direcionados com precisão, tendo Vril como alvo prioritário. O sargento reagiu no limite do tempo, lançando-se para dentro da cabine enquanto preparava seu fuzil, ao mesmo tempo em que os soldados italianos tentavam reorganizar suas posições em meio à presença de civis e à desordem crescente.
As sacolas escaparam das mãos de Bruno no momento em que ele se lançou ao chão em busca de cobertura, mas sua atenção permaneceu voltada ao motorhome, tentando localizar a irmã através das janelas. Nesse instante, um estrondo de grande magnitude tomou o ambiente. A ponte que haviam cruzado pouco antes foi consumida por uma explosão intensa, bloqueando completamente a via e lançando destroços para o alto. A onda de choque se propagou rapidamente, comprimindo o ar e levantando uma nuvem densa de poeira que reduziu drasticamente a visibilidade, enquanto o desespero da multidão se intensificava em gritos e movimentações desordenadas.
Os militares italianos hesitaram momentaneamente, limitados pela presença de civis espalhados pela área, o que dificultava o uso total de força. Vril permaneceu imóvel por alguns instantes dentro da cabine, aguardando uma abertura, controlando o momento de ação. Em um intervalo curto, ergueu o fuzil e efetuou um disparo preciso, atingindo um dos atacantes diretamente na cabeça, eliminando-o de forma imediata. No entanto, a reação inimiga foi rápida, e uma nova onda de choque atingiu a região, arremessando o caminhão onde Vril estava com violência desproporcional.
O veículo perdeu completamente a estabilidade, iniciando uma sequência de capotamentos descontrolados. O impacto contra o solo gerava faíscas e deformações a cada rotação, até que, sem controle, o caminhão colidiu diretamente contra o motorhome. Dentro dele, Emma não teve tempo de reagir adequadamente; o impacto comprometeu a estrutura do veículo, e o teto cedeu parcialmente sob o peso do caminhão. Entre os destroços, o corpo de Vril foi projetado para fora da cabine, já sem sinais de vida, com ferimentos graves e incompatíveis com sobrevivência, evidenciando a violência do impacto.
Do lado de fora, o grito de Bruno rompeu o caos ao reconhecer a cena. — Emma! — gritou, levantando-se sem considerar os riscos ao redor, movido apenas pela necessidade de alcançar a irmã. No entanto, ao direcionar o olhar para a origem dos ataques, seu movimento foi interrompido. Entre a poeira suspensa, uma figura permanecia parada, com o braço estendido em sua direção e um brilho branco envolvendo o corpo de forma incomum.
Não houve tempo para qualquer reação. Um veículo foi lançado diretamente contra Bruno, atingindo-o com força total e arrastando seu corpo junto à estrutura metálica. O impacto o prensou contra outro automóvel, interrompendo completamente seus movimentos e levando-o à perda imediata de consciência.
Emergindo da névoa de poeira e destroços, Rover Leroy tornou-se visível. Sua aparência contrastava com o ambiente ao redor: cabelos brancos longos com mechas acinzentadas, olhos de coloração âmbar intensa e uma pele com tonalidade azulada que refletia a luz de maneira incomum. Vestia roupas civis, mas sua postura e controle sobre o ambiente deixavam claro seu domínio sobre a situação. Ao seu redor, a atmosfera parecia reagir aos seus movimentos, evidenciando o uso de aerocinese, capaz de manipular o ar e gerar ondas de choque com força suficiente para deslocar veículos inteiros.
Protegida atrás de um dos veículos, a cabo Aline mantinha o rádio ativo, tentando transmitir informações mesmo sob risco direto. — Emergência! Os Franceses estão atacando na Rodovia Alghero via SS 291 e eles trouxeram um azulado! — reportou com urgência evidente, ajustando a posição para manter a comunicação. Sem hesitar, elevou a voz na tentativa de alcançar reforços. — Cigana! Indjaya! Tá na hora! — gritou, expondo completamente sua posição.
A resposta foi imediata. Um disparo preciso atingiu sua cabeça, encerrando sua ação de forma instantânea. Seu corpo perdeu sustentação e caiu ao chão sem qualquer reação adicional, enquanto o rádio permanecia ativo ao seu lado.
O atirador responsável reposicionou-se logo em seguida, movendo-se com agilidade controlada enquanto buscava cobertura lateral. Sua postura indicava experiência em combate, mantendo vigilância constante enquanto utilizava um sistema de comunicação tática no pulso para transmitir informações a Rover, sinalizando que reforços haviam sido acionados. Do lado oposto, os soldados italianos começavam a recuar, visivelmente desorganizados diante do nível de força empregado no ataque.
Dentro do motorhome, Emma ainda mantinha algum nível de consciência, embora desorientada. O impacto havia causado um ferimento aberto em sua cabeça, e o sangue escorria continuamente, comprometendo sua visão. Com dificuldade, arrastou-se até uma das janelas, tentando entender o que acontecia do lado de fora. A poeira intensa impedia uma leitura clara do cenário, restando apenas formas indistintas e movimentação caótica. Seu corpo apresentava instabilidade evidente, e cada movimento exigia esforço crescente. — Bruno…? — murmurou, com a voz enfraquecida, tentando localizar o irmão em meio à confusão.
Do lado de fora, os sons de disparos, metal sendo deformado e ordens desencontradas indicavam que o confronto ainda estava em andamento. Para Emma, no entanto, a percepção já começava a se reduzir a estímulos fragmentados, dominados por um zumbido constante e pela dificuldade em manter a consciência diante da dor e da perda de sangue.

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