Capítulo 03
O tempo parecia ter congelado sobre a Rodovia SS 291, mas para Mattia e Lorenzo, ele corria numa velocidade aterradora. Foi questão de instantes para que os mesmos soldados que operavam na vanguarda do bloqueio alcançassem o pequeno caminhão branco de suspensão arriada. A farda italiana, que sob a luz baça da manhã parecia apenas um incômodo burocrático, assumiu subitamente um contorno predatório. O metal dos fuzis brilhava com um aviso silencioso enquanto os militares cercavam o veículo como lobos cercando uma presa ferida.
Dentro da cabine, Mattia entrou em estado de choque absoluto. O suor frio escorria livremente pela sua careca, turvando a visão e fazendo as mãos escorregarem no couro do volante. Seu coração martelava contra as costelas com tamanha força que ele mal conseguia ouvir os próprios pensamentos. Num espasmo involuntário de puro pânico, seu pé direito pressionou o pedal do acelerador sutilmente, mas o suficiente para fazer o motor roncar num protesto metálico. Aquele som, num ambiente de silêncio tenso, foi como um tiro de largada para o desastre.
Quatro soldados, liderados pelo imponente Sargento Vril, reagiram com a memória muscular de anos de treino. Nivelaram seus rifles de assalto diretamente contra o para-brisa sujo, as bocas das armas apontando para os peitos dos ocupantes. Gritos de ordem cortaram o ar denso, exigindo que abandonassem o veículo imediatamente.
— Tu tá louco, porra? Olha a merda que você fez! — Lorenzo explodiu, a voz carregada de uma indignação desesperada.
A tensão dentro da cabine era acalorada, uma redoma de colapso nervoso onde o oxigênio parecia ter sido drenado. Lorenzo encarou Mattia no fundo da alma, um olhar que misturava ódio e incredulidade pela burrice monumental que o parceiro acabara de cometer. Ao denunciar o nervosismo para os militares, Mattia tinha acabado de assinar a confissão de ambos. Do lado de fora, a situação escalava para um ponto de não retorno. Outros soldados surgiram das laterais, flanqueando o caminhão e formando um sexteto de homens armados até os dentes, prontos para transformar a lataria em peneira ao menor sinal de resistência.
— Saiam da porra do carro, agora! — a ordem de Vril ecoou, firme e inquestionável.
A dupla desceu de forma desengonçada, as pernas vacilantes quase cedendo ao toque do asfalto quente. Foram recepcionados com uma hostilidade seca e profissional. Os soldados italianos não perderam tempo com cortesias; prensaram os rostos dos dois contra o compartimento de carga metálico do caminhão. O frio do metal contra a pele suada de Lorenzo contrastava violentamente com a adrenalina que lhe queimava as veias. Em segundos, o estalido metálico e definitivo das algemas selou o destino dos contrabandistas, imobilizando-os contra a prova do seu próprio crime.
Vril aproximou-se com uma calma que era, por si só, mais aterrorizante que os gritos anteriores. Ele cruzou os braços sobre o colete tático, encarando a dupla com um desprezo calculado, como quem observa insetos presos numa armadilha.
— Bom dia, senhores. O que vocês têm aí atrás que quase não conseguimos ver por conta da sua pressa? — ironizou o sargento, a voz destilando um sarcasmo gélido.
Seguindo um aceno de cabeça do sargento, dois soldados dirigiram-se à traseira do caminhão empunhando pés de cabra pesados, enquanto os outros quatro mantinham o interrogatório improvisado sob a mira constante das armas. Lorenzo tentava desesperadamente manter uma fachada de inocência, mas seu corpo o traía com espasmos de tremor.
— S-somos caminhoneiros só, senhor… — gaguejou o jovem, o suor ensopando a gola da sua camiseta. Ele sentia uma espinha gelada percorrer seu corpo, um calafrio que remetia a um inverno rigoroso em plena primavera da Sardenha. Tentou olhar para Vril, mas o peso psicológico da situação era tamanha que seu único desejo era fechar os olhos e desaparecer daquela rodovia.
Um estrondo metálico violento reverberou por toda a extensão da SS 291 quando os soldados arrombaram a tranca do compartimento de carga. Ao escancararem as portas pesadas, a luz pálida revelou o segredo que tanto temiam: centenas de garrafas empilhadas de forma precária. Havia desde vinhos de rótulos europeus duvidosos até uísques clandestinos e vodcas falsificadas, todos destinados ao mercado negro que florescia sob a sombra da guerra.
— Senhor, achamos os nossos suspeitos — a voz da Cabo Alice ecoou, firme e vitoriosa. Era o xeque-mate.
— Excelente. Vocês dois estão presos — declarou Vril, encerrando qualquer esperança residual de negociação. Com um gesto impaciente, ordenou que Mattia e Lorenzo fossem levados para uma das viaturas de transporte.
O sargento caminhou até a traseira do caminhão e confiscou o telefone de Mattia. Analisando uma das garrafas de uísque com a mão esquerda, ele discou um número gravado na sua própria memória com a direita. Após alguns instantes de expectativa, a chamada foi atendida por uma voz que exalava poder.
— Alô, Barão? Tô com uma boa aqui — disse Vril, o tom de voz mudando de autoritário para algo quase cordial, mas nitidamente submisso.
Do outro lado da linha estava um magnata cujas garras se estendiam desde as boates mais luxuosas de Nápoles até as altas esferas das forças armadas. O Barão era mais que um nome; era uma instituição de poder na Itália contemporânea, uma figura de punho de ferro que ditava as regras do jogo econômico e militar no mercado paralelo. Sua voz, grave e rouca, carregava o peso de quem nunca pede permissão, apenas emite ordens.
— Tô com tudo que tu puder imaginar de bebida: uísque, vinho, vodca e o caralho a quatro — relatou o sargento, descrevendo o espólio com a satisfação de um caçador.
A negociação foi rápida e eficiente. O Barão ordenou que a carga fosse levada para um de seus galpões disfarçados de oficina. Após encerrar a chamada, Vril guardou o aparelho e ordenou a troca imediata da fechadura do caminhão, manobrando o veículo apreendido para perto do Motor Home onde Emma Rossi ainda aguardava, alheia ao esquema de corrupção que se desenrolava a poucos metros.
Emma observava toda a cena pelo espelho retrovisor, mergulhada num tédio profundo que beirava a irritação. Para passar o tempo e abafar o som do exterior, ligou o rádio, sintonizando a frequência de notícias nacionais. A voz da âncora Giulia preencheu a cabine, trazendo o caos do mundo exterior para dentro daquele refúgio de metal e ervas aromáticas.
As notícias pintavam um quadro distópico: a guerra com a França completava três anos de impasse sangrento, com relatos de invasões a bases navais em Marselha e ameaças de retaliação terrorista envolvendo a figura mística de “A Cigana”. Mais perto de casa, falava-se do desaparecimento misterioso de uma jovem na Toscana, possivelmente ligada a uma rede de tráfico humano.
No cenário internacional, o rádio falava de uma filantropa russa, Haelena Morozova, que inaugurava usinas no Oriente Médio sob a bênção de ditadores locais. Mas o que mais chamou a atenção foi a notícia vinda do Brasil: tecnologias encontradas na Amazônia estavam sendo utilizadas para criar complexos de contenção absoluta, onde criminosos eram mantidos em celas de pressurização a vácuo e câmaras que simulavam o horizonte de eventos de um buraco negro, deixando-os congelados no tempo.
— Só notícia triste, puta merda — resmungou Emma, desligando o rádio com um movimento brusco. Ela encostou o rosto contra o volante e deixou escapar um suspiro longo, buzinando em frustração contra o mundo e aquele atraso interminável.
Enquanto isso, dentro da loja de conveniência, Bruno vivia sua própria dose de desconforto. Ele passava os produtos um a um no caixa, sentindo o olhar de indiferença desconfortável do atendente. Bruno sentia-se julgado por estar ali em plena manhã em um estabelecimento 24 horas sob aquele clima de tensão.
— São €78,23 — anunciou o atendente, sem sequer olhar para Bruno.
— Que caro… — pensou ele, sentindo o peso daquele valor no seu orçamento apertado. Retirou o cartão de crédito, inseriu-o na máquina e, em instantes, a nota foi emitida.
— Muito obrigado. — Bruno agarrou as cinco sacolas pesadas, dividindo o peso entre as mãos, e saiu do caixa com cuidado para não danificar as compras que seriam sua garantia de sustento.
Lá fora, o Sargento Vril estava sentado na cabine do caminhão apreendido, trocando mensagens com a esposa enquanto aguardava a ordem oficial para seguir. No entanto, sua calmaria dissipou-se num instante. No horizonte nublado, uma van escura surgiu atravessando a ponte em alta velocidade, parando abruptamente atravessada na pista à sua frente. Homens armados começaram a desembarcar com movimentos coordenados e letais. O sargento sentiu o instinto de combate despertar no seu sangue; a manhã na rodovia SS 291 estava prestes a se transformar num banho de sangue.

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