Capítulo 13
De repente, toda a estrutura da rodovia começou a se reconstituir diante de seus olhos, camada por camada, como se o próprio tempo estivesse sendo forçado a retroceder à força, reorganizando concreto, ferragens e asfalto em um estado anterior intacto, anulando completamente os vestígios de destruição que antes dominavam o cenário, e aquilo que há poucos instantes era um campo de guerra caótico agora assumia a aparência de um espaço limpo e funcional, como se nada jamais tivesse acontecido, criando uma dissonância perturbadora entre memória e realidade.
— H-huh? Q-quê!? — disse Bruno ao testemunhar aquilo, completamente incrédulo, seus olhos arregalados tentando processar a escala absurda do que acabara de acontecer enquanto sua mente, já fragmentada pela dor e pelo desgaste extremo, falhava em acompanhar a realidade que se desenrolava diante dele, como se tudo estivesse além daquilo que sua própria compreensão conseguia suportar.
— Eu sei que o nome é uma merda, mas ao menos, eu refinei o bastante pra ser usada e testada em uma operação dessas. — disse Rover, desfazendo lentamente o entrelaçar de seus dedos enquanto seus palmos se separavam com naturalidade, relaxando a postura de forma quase casual, como se não estivesse no centro de um campo de batalha, ao passo que a coloração carmesim que envolvia seu corpo se intensificava gradualmente, pulsando com uma energia densa e opressiva enquanto seus olhos permaneciam fixos em Eleonor, analisando cada mínima reação da mulher.
— O nome da técnica foi uma cantada? Pois de fato é uma bosta. — Eleonor debochou, deixando escapar um sorriso carregado de desdém e provocação, ainda que seu corpo permanecesse em estado de alerta absoluto, com cada músculo tensionado e suas faixas metálicas posicionadas estrategicamente ao seu redor, prontas para reagir a qualquer variação naquele cenário que claramente não obedecia mais às regras normais.
— Realmente. — Rover suspirava enquanto estalava a própria coluna e os braços, o som seco ecoando levemente naquele ambiente reconstruído, sua expressão assumindo uma serenidade desconcertante, quase entediada. — Só não morre com isso, ainda quero ver esses peitos de novo. — sorriu ao dizer, permitindo que um tom provocativo atravessasse suas palavras, evidenciando que, mesmo diante de uma técnica de escala absurda, ainda mantinha traços humanos — ou pelo menos a ilusão deles.
— Só ver, quem que vai querer dar pra uma porra dessas que mais parece uma vela? — disse Eleonor, respondendo sem hesitar, sua voz carregada de escárnio enquanto atacava diretamente a aparência albina de Rover, recusando-se a ceder psicologicamente mesmo diante da pressão crescente que tomava conta do ambiente.
— Que vulgar. — por fim, Rover repousou o palmo destro na própria cintura de forma despreocupada, elevando o outro braço lentamente enquanto mantinha o olhar cravado em Eleonor, e naquele instante sua aura prateada foi completamente suprimida pela vermelha, como se tivesse sido engolida por algo mais profundo e mais perigoso, alterando não apenas sua aparência, mas a própria sensação de presença que emanava de seu corpo.
— Ceder. — Rover desapareceu, não como um movimento rápido, mas como um apagamento abrupto de sua existência naquele ponto do espaço, deixando para trás apenas sua voz reverberando pelo ambiente de forma estranha e distorcida, como se estivesse sendo carregada pelos próprios ventos daquela nação, ecoando em múltiplas direções ao mesmo tempo.
A ponte recém-reconstruída começou a tremer de maneira quase imperceptível no início, um leve estremecer que rapidamente evoluiu para vibrações mais intensas, acompanhadas por rangidos metálicos profundos que ecoavam como uma sinfonia grotesca composta pela própria desordem sendo contida à força, e então tornou-se evidente a verdadeira natureza da técnica de Rover, que não apenas restaurava o cenário ao absorver os danos previamente causados, mas reescrevia toda a estrutura do ambiente como uma memória sólida, pronta para colapsar novamente, devolvendo cada fragmento de destruição acumulada com o dobro de potência, como se o mundo estivesse sendo forçado a lembrar, de forma violenta, tudo aquilo que havia sido apagado.
Eleonor pôde sentir o impacto se formando antes mesmo de acontecer, como uma reprise distorcida de algo que já havia vivenciado segundos atrás, uma repetição cruel e inevitável que se desenhava diante de sua percepção aguçada, e naquele instante a ponte, que já havia sido reduzida ao caos anteriormente, voltou a se tornar um verdadeiro inferno, como se a realidade estivesse sendo forçada a colapsar sobre si mesma. O mundo ao seu redor se fragmentou novamente, e ela foi engolida por uma avalanche de destroços que despencavam de todos os lados, enquanto a pressão do ar a puxava para baixo com uma violência esmagadora, comprimindo seu corpo contra o solo que já não era mais estável, levantando uma nova e densa nuvem de fumaça e poeira que se expandia de forma brutal, semelhante — porém ainda mais opressiva — à explosão que havia consumido a ponte minutos antes.
Distante daquele epicentro de destruição, os militares e os civis que haviam evacuado a área assistiam a tudo como meros espectadores de um desastre impossível de compreender, seus olhos fixos no horizonte enquanto a realidade parecia se desfazer diante deles, completamente incrédulos diante da escala do que presenciavam, incapazes até mesmo de reagir com clareza, e entre eles estava Indjaya, cujo corpo permanecia rígido, paralisado não pelo cansaço, mas por um choque profundo que a prendia naquele exato lugar.
— Não pode ser… Eleonor! — disse, tomada por uma perplexidade genuína que atravessava sua voz, enquanto seus olhos buscavam desesperadamente qualquer sinal da irmã em meio àquela cortina de destruição, e embora a vontade de retornar ao campo de batalha fosse esmagadora, quase instintiva, seu corpo simplesmente não respondia, travado entre o medo, o esgotamento e a impotência, forçando-a a permanecer ali, reduzida à condição de espectadora de um confronto no qual, até poucos instantes atrás, ela ainda era uma combatente ativa.
Bruno, seu motorhome e sua irmã também foram engolidos pela técnica de Rover, tragados sem qualquer possibilidade de reação enquanto o próprio cenário colapsava sobre si, e naquele instante parecia que o universo conspirava diretamente contra aquele jovem, que já havia testemunhado uma sequência de desgraças excruciantes, uma após a outra, sem qualquer intervalo para respirar ou compreender, sendo agora arrastado junto àquela rodovia que afundava como se estivesse cedendo ao peso de toda a destruição acumulada.
O motorhome, por fim, foi soterrado por uma massa esmagadora de detritos e escombros pesados que despencavam de todos os lados, selando completamente sua estrutura contra o solo com uma força brutal, e no interior daquele espaço comprimido e sem saída, Emma foi esmagada sem qualquer chance de resistência, tendo sua vida ceifada de forma violenta e irreversível.
O jovem também se encontrava soterrado, aprisionado sob uma nova camada de tormento gerada por mais uma desgraça daquele dia interminável, completamente imóvel sob o peso esmagador dos escombros, incapaz de mover sequer um músculo, enquanto sua mente, ainda consciente, era tomada por um turbilhão caótico de emoções que se chocavam entre si, oscilando entre negação, desespero e uma compreensão lenta e cruel da realidade que se impunha.
— N-não… — disse baixo, quase sem voz, e ao invés de sangue escorrendo por seu rosto, o que surgia era uma lágrima solitária que deslizava lentamente, marcando o instante exato em que sua mente finalmente aceitava a possibilidade de que Emma havia morrido, reduzida a mais uma estatística anônima em uma guerra da qual ele sequer fazia parte.
Eleonor ressurge dos escombros em um estado grotesco e devastador, seu corpo completamente destruído ao ponto de faltar-lhe um dos braços, com diversos cortes profundos espalhados pela carne exposta, ossos quebrados em ângulos impossíveis e até mesmo uma parte de seu cérebro visível entre os ferimentos, compondo uma imagem brutal que beirava o insuportável, mas ainda assim, lentamente, seu corpo começava a se reconstituir através do manto de sangue que pulsava ao seu redor, regenerando cada parte com uma persistência quase monstruosa.
— Que caralho… — disse cambaleando, sua voz carregada de dor enquanto tentava se manter de pé, seus olhos analisando o cenário ao redor em meio à névoa de poeira e destruição, buscando compreender a extensão do que havia acabado de acontecer.

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