— Mas que droga, Ferdinand! O que você tá fazendo aqui?

    — Eu só fugi de uma criatura e esbarrei num quadro e vim parar aqui! Você acha que eu queria estar aqui também?!

    — Tem mais alguém aqui?

    — Tinha, mas ele foi morto… Nem consegui ver seu rosto direito. Ele havia chegado antes de mim, só o vi gritar de dor enquanto era dilacerado…

    Conversamos e expliquei tudo o que sabia. Seu rosto deprimido estava cada vez mais nítido quando eu contava tudo o que ocorreu. Notei em sua mão uma espada curta. Provavelmente, deve ter achado nessa torre. Não quis que ele explicasse por enquanto, ele precisa de um tempo.

    Contudo, a masmorra não tinha um tempo de descanso. Vindo do andar de baixo, provavelmente graças à comoção, ouvi grunhidos e ranger de dentes. Puxei minha espada. Se eu utilizasse minha pistola, chamaria ainda mais atenção. Apertei forte o cabo e fiz minha tatuagem brilhar levemente, criando o desenho de ramos dourados por toda a espada.

    Provavelmente, já estamos perto do final. Descemos oito andares. Fiquei surpreso de Ferdinand ter sobrevivido até aqui, mas depois ele me explicaria melhor. Agora, eu precisava resolver isso. Os chamei com cautela enquanto eu descia as escadas armado. Rapidamente, notei um mar de criaturas.

    Sem hesitar, cortei uma por uma. Ficava mais ágil graças aos poderes do Moore e minha lâmina aparentava estar mais leve e afiada. Cortava pescoços de criaturas como manteiga e era mais ágil do que nunca. Em questão de poucos minutos, eu havia matado todas as criaturas do andar e me dirigi ao próximo. Eu não posso perder tempo.

    Fui seguindo na frente enquanto passava por todos os andares. Em um deles, Pierre achou uma espada comum e deixei com que ele ficasse com ela. Os andares estavam acabando, afinal, pelas poucas janelas que tinham, conseguia ver o que parecia ser o solo. Mais criaturas iam aparecendo e eu não deixei de cortar nenhuma.

    Finalmente, o último andar. Chegamos no térreo. Era uma espaçosa, embora fechada. Não existia um teto, era como um quintal de grama amarelada nos jardins do calabouço com uma liteira no centro. Prestes a pisar na área, ouvi minha voz.

    [Você está prestes a adentrar o último cômodo do quarto secreto “Paisagem Bucólica”. Está preparado?

    Caso não, poderá adentrar assim que desejar. Contudo, entrar no último cômodo impossibilita o retorno para os cômodos anteriores.]

    — Sim, estou preparado

    Falei sozinho enquanto andava e continuava:

    — Fiquem aí. Se entrarem aqui, não poderão voltar para a torre

    Enquanto caminhava, notei uma movimentação na liteira. De prontidão, uma voz grossa e duplicada saiu de dentro:

    — Ora, bem que eu imaginei… Não pensei que passariam tão rápido por toda a torre, mas só podia ser alguém como você

    Uma mão humanoide de cor cinza com unhas negras e longas se apoiava nas bordas da liteira e revelava uma criatura de pele acinzentada, com mantos negros sobrepostos e rasgados. Seu rosto se assemelhava com um humano, contudo, seus quatro olhos roxos, orelhas pontiagudas e uma boca muito maior com dentes podres mostrava nitidamente a distinção entre nós.

    Era mais alto que eu e parecia mais forte. Entretanto, ainda era uma criatura. Me assusta o fato dela ser racional, mas não tenho o que fazer. Isso é como em um jogo, afinal. Desembainhei meu sabre enquanto ela falava:

    — Vocês, humanos… Não conseguem sobreviver sem a ajuda do seu Deus? Espero que saiba, humano… Que eu, Ordog, sou tão forte quanto um Deus!

    O vi tirando o capuz e revelando dois grandes chifres. Suas pernas apareciam enquanto caminhava, revelando uma pelugem marrom. O olhei com desprezo e respondi:

    — Foi mal, minha mãe me falou para não confiar em estranhos…

    Ouvi um grunhido e ele disparou como uma bala na minha direção. Bloqueei por instinto enquanto ele me acertava um chute na barriga. Fui arremessado para as paredes que cercavam a área e o vi avançando como um leão faminto. Eu não poderia brincar aqui, então é melhor eu “liberar”.

    Minhas tatuagens brilharam e disse:

    Cerco do Nobre

    Uma muralha dourada me contornou, bloqueando o golpe de Ordog. Ouvi um barulho de dor vindo de sua boca. Provavelmente, machucou a mão após socar uma parede de ouro maciço. A tatuagem cresceu e contornou meu sabre enquanto eu liberava a muralha e desferia um corte, que arrancava sua mão machucada.

    Achei que o deixaria assustado, mas ledo engano. Com sua outra mão, vi um brilho púrpura surgindo.

    Égési Halal!1

    Uma labareda apertou meu braço e o vi incendiando meu braço, criando uma grande queimadura enquanto o chutava para afastá-lo. Me segurei para não gritar de dor enquanto apoiava meus dedos na ferida.

    Brilho do Asclepeion2

    Minha queimadura começou a se curar enquanto observava Ordog ria descontroladamente e enfiava sua própria mão em sua boca, retirando de sua garganta uma lâmina sem cabo ou empunhadura. Ela estava gasta e suja com o que parecia ser sangue ressecado. Ele apontou-a até mim e disse:

    — Você leva isso bem! Se não tivesse esses poderes… Você já estaria morto pelo poderoso Ordog!

    — Cale a boca… Você fala demais!

    Esperei ele avançar enquanto liberava o coldre da pistola. Quando havia preparado um golpe com sua espada, puxei a arma de fogo e disparei contra seu peito três vezes. O vi sendo derrubado um pouco para trás enquanto aparentava estar levemente espantado. Ri e me aproximei disparando mais duas vezes em seu torso.

    Apoiei minha perna em seu braço que segura a espada e disse:

    — Alguma última palavra, Ordog, o mais fraco?

    — Vai se foder!

    Na minha frente, o peito da criatura explodiu. Me assustei e me afastei alguns passos. Do buraco em seu peito, um braço idêntico ao qual eu cortei a mão surgia, maior e mais forte. De dentro do primeiro Ordog, um segundo aparecia, completamente renovado e mais forte. Surpreendentemente, era uma criatura eunuca. Provavelmente era a última de sua espécie. Não me sinto muito bem tendo que extinguir uma espécie, mas é necessário.

    O mesmo Ordog estendia a mão na direção da lâmina usada e ela foi até sua mão como se fosse telecinese. A criatura não falou nada e só avançou até mim, onde começamos um duelo de espadas. Eu golpeei em seu lado, mas fui bloqueado por sua lâmina. Em seguida, ele tentou cortar minha cabeça fora, mas defendi o golpe e aproveitei da falta da empunhadura em sua arma e deslizei meu sabre pelo fio de sua espada até cortar seu dedão direito e rasgar um pedaço de carne de sua mão e de seu braço.

    Ordog Katonái!3

    Do chão, mais daquelas criaturas que vi por todo a torre apareceram. Contudo, eram muitas. Passava dos sessenta com facilidade. Todas elas avançaram até mim juntamente de Ordog. Consegui derrotar uns dez enquanto fugia da investida de Ordog, mas fui cercado por elas enquanto vi uma sombra surgir em mim. Era Ordog.

    No ar, a criatura pulava descendo a lâmina até mim enquanto as outras criaturas avançaram até mim. Bloqueei o golpe de Ordog e utilizei novamente o Cerco do Nobre para bloquear as outras bestas, prendendo a mim mesmo com Ordog numa pequena arena improvisada pela minha habilidade.

    Égési Halal!

    Sua lâmina se preencheu de um brilho roxo com leves chamas e, com um corte, destruiu as paredes douradas. Por sorte, desviei, mas sabia que seria o próximo. Prestes a fugir, fui agarrado por trás por uma das criaturas e vi Ordog levantando sua lâmina. Tentei me soltar enquanto a lâmina descia até minha cabeça, mas vi algo batendo na cabeça da besta e chamando sua atenção até a direção de onde veio.

    Quando olhei, comecei a suar frio e gritei:

    — Eu disse para ninguém entrar! Seus… Idiotas de merda!

    Eu queria evitar que morressem, mas agradeci por terem vindo me salvar. Ferdinand empunhando uma espada curta e terminando um gesto de arremesso estava sendo escoltado por Pierre e Tony. Pierre estava escondendo seu rosto com a touca que utilizava enquanto Tony gritava:

    — Olha pra cá, seu desgraçado! A gente veio arrancar esses seus chifres com a unha, seu maldito!

    Notas do autor:

    1 – A habilidade de Ordog, Égési Halal, vem da língua húngara, que significa “Morte por queimadura”.

    2 – Asclepeion eram templos de cura na Grécia antiga dedicados a Asclépio, o Deus da Cura da Grécia.

    3 – A habilidade de Ordog, Ordog Katonái, também vem da língua húngara, que significa “Soldados de Ordog”. Por sinal, o original Ordog é uma criatura da mitologia húngara.

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