Capítulo 141 - Chamas Doutrinárias
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Vestiário da Arena Shang Mu
— E então, Sem Valor… Por que não vem pegar sua faixa preta? Haha, que piada!
O escárnio não ficou limitado só ao canino monge. Lutadores ao redor também riram, ainda que não fizessem parte do ato. Outros eram indiferentes e alguns sequer ficaram muito tempo para ter uma opinião.
O provocador, com uma risada sarcástica no rosto, bufava toda vez que olhava para Viktor.
— Acho que essa faixa deveria ganhar um significado novo… Sabe de quê? Fracasso! Não, isso é muito clichê… Ah, já sei: lixo marcial, é isso! Hahaha!
Contra tudo isso, os nervos de Viktor não o fizeram explodir, mesmo que seu rosto transmitisse outro significado.

A faixa, toda desprendida e arrastando no chão, era tratada como um simples pedaço de pano. Ele só não encardia no solo porque o nível de limpeza da arena era impecável.
As provocações não pararam.
— Admita: você é fraco! Huli pode ter deixado você entrar no torneio, mas todo Sem Valor que tenta lutar é um idiota que não sabe o próprio lugar!
Calado, sem esboçar mais nada além da pura raiva no rosto. Viktor era nutrido por uma impressionante resiliência.
Ele ouviu as palavras que já eram esperadas, mas sua faixa preta tinha um significado todo especial: vê-la sendo tratada como um reles objeto era como se fosse refém de um criminoso.
Mas Viktor, embora não parecesse, estava imóvel como uma rocha, no que diz respeito a seu brio. Isso irritou o monge: ele pôs um traço malicioso no rosto, com o canto da boca torta demonstrando asco.
Ele se irritou com a postura controlada do humano.
— Sua presença neste torneio ofende a todos, será que você não percebeu isso? Olhe à sua volta… e veja se tem alguém que não concorda comigo. Aqui não é o seu lugar!
O punho fechou, um pequeno passo para frente foi realizado, a pressão interna só crescia…
As palavras, as últimas…
“Aqui não é seu lugar!”
Agiu como um mantra maldito.
“Aqui… não é… seu lugar…”
Ecoou em sua mente, impregnando seu existir; fantasmas de um passado não muito distante.
Esse foi o momento que sua mente o levou para trás, de volta no tempo. Seu piscar de olhos mudou o cenário e as pessoas, mas não o momento.
Viktor tinha 13 anos, acabado de entrar no vestiário do Koto Budo no Seigi (A Justiça das Artes Marciais da Capital Antiga). Ele não estava com o mesmo brilho nos olhos, mesmo merecendo estar no local isolado no interior de Saratoga Spa State Park.
O ainda mais jovem Viktor arrumava seu armário.
Foi nesse lugar que um pesadelo começou.
— Então você está aqui pelo Saidai Shiken?
A voz veio de um rapaz oriental, vestindo um quimono. Seu rosto pouco importava, assim como os detalhes de seu quimono, pois as palavras eram o verdadeiro espelho de sua alma, que refletia a pior face do ser humano.
Viktor, inocente, sorriu, não levando a sério a suposta brincadeira. Como uma criança em formação, ele agiu como tal.
— Oi. Meu nome é Viktorius Ashem. Legal te conhecer.
O lado podre: sua faixa, que estava ancorada sobre a plataforma em seu armário, foi subitamente surrupiada por outros jovens veteranos.
Viktor, instintivamente, estendeu sua mão em direção ao seu bem, lhe causando irritação.
— Ei, me dá minha faixa agora!
Como toda criança que tem apreço pelo o que tem, ele correu e forçou sua mão para conseguir recuperá-la.
Sem sucesso: outros vieram, jogando a faixa entre o grupo de detratores, todos orientais. Viktor se esforçava, mas em vão.
As coisas escalaram assim que conseguiu segurar uma das bordas de sua faixa.
— Solta! Solta!
— Haha! Vamos ver se você é forte, ocidental!
Nesse dia, Viktor só agiu por instinto — de alguém ainda em formação.
— Vocês parecem que não gostam de mim só por eu não ser como vocês! Eu não sou, não quero ser… Eu sou eu! E eu não vou… querer ser como vocês… Porque eu amo o karatê mais que vocês!
Mesmo palavras infantis poderiam machucar. O semblante de todos mudou como uma passagem de estado de espírito.
A brincadeira havia acabado.
Tanto que Viktor obteve sua faixa, o que lhe trouxe uma alegria genuína, estampada em seu rosto — ela não durou muito tempo.
Nesse momento que contemplava seu sucesso, o menino recebeu um chute violento em seu tórax, o fazendo voar um metro, em direção a seu armário — e sua faixa voou, rompendo a tênue linha de conquista versus respeito.
O choque derrubou todos os seus pertences, que caíram sobre ele. A faixa caiu sobre Viktor, o peso era maior que o esperado.
O rapaz que originou todo o ato, com seu pé, o forçou contra a barriga de Viktor. Suas palavras machucaram muito mais.
— Um verme planeja participar do Saidai Shiken? Você não tem capacidade… e vamos te quebrar!
A mão do rapaz provocador tentou pegar o tecido antes de sair com seus amigos, mas, mesmo com sua cara voltada para o chão, Viktor teve forças e reflexo para segurá-la.
— Isso… é meu!
— Tss… seu m*rda! — ele insistiu no ato de pegá-la.
Porém, uma voz máscula foi ouvida no recinto.
— Parem.
Ela soou como uma ordem, autoritária, quase como um rugido. Os jovens se sentiram intimidados, e deixaram o lugar às pressas, deixando Viktor no chão.
A voz veio de seu mestre.
Sensei Kwame se aproximou, indo até seu aluno. O acudiu, segurando seu dorso e o encostando no armário acidentado.
O rosto triste e assustado de Viktor fez com que Kwame se sentasse ao seu lado. O homem foi direto:
— Garoto, ter uma faixa preta não faz você ser forte, nem diferente, nem nada.
— Eu não fiz nada pra eles…
— Fez sim. Você veio pra cá… e eles odeiam isso.
— Mas estamos no mesmo lugar.
— Não você.
Viktor engoliu seco. O rosto fechou, a boca tremeu e quase lágrimas saíram. Mas seu mestre estava ao seu lado — mostrar fraqueza era crime.
— Isso… não é justo…
— Justiça? Menos… Você foi avisado, e não conhecia esse lugar, até agora.
O silêncio veio. Viktor guardou para si os lamentos. Estava impactado, mas ao seu lado estava seu mestre.
Kwame lhe entregou mais:
— Entregar a seu inimigo o que ele quer… é derrota. Te humilharam. Eles ignoram sua existência. Você perdeu o que deveria proteger e tentou recuperá-la… e perdeu mais.
O menino segurava a faixa como o único elo que tinha. Kwame observou o gesto, não parou:
— Não tenho que explicar nada. Você caiu, se levantou… protegeu o que é seu. Já sabe o que fazer, Viktor.
A resposta Viktor no presente já tinha.
Ao piscar, o cenário era o vestiário da Arena Shang Mu.
Os segundos de retorno foram os mesmos, com o jovem olhando nos olhos do monge que segurava sua faixa.
Sua voz sussurrante cortou o ar como uma katana afiada e ungida por sal.
— Coloque a faixa na minha mão — ele a estendeu em direção ao canino.
O agressor ficou atônito. Até sua respiração se alternou entre pulsante e ofegante.
— Sem Valor arrogante! Você que deve tentar pegá-la, haha! — A risada veio, mas sem graça.
— Se você dá importância a tudo que precisou fazer para chegar até aqui, irá me entregar a faixa. Não estou pedindo que se desculpe, não precisa fazer isso.
Muitos os que olhavam para a cena pararam de rir. Os que saíram olharam para trás, surpresos com o que viram.
O canino deu dois passos para trás, rangendo os dentes. A graça foi embora, mas uma raiva maior veio com força.
— Quem você pensa que é para me dizer isso? Você não sabe por onde passei, os treinamentos que eu enfrentei pra chegar aqui e… — foi interrompido.
— Pare.
A frase seca encerrou o discurso do monge sem piedade. Não era ordem ou pedido… e sim só uma vontade.
— Eu só estou esperando que me devolva a faixa. Sei que seus calos não foram em vão.
Risadas vieram. O silêncio do monge causou isso. Todos em volta cochichavam, mas agora contra Brahma, que teimava em segurar o tecido.
Ele, irritado, fechou o punho a ponto de fazê-lo tremer. Uma agressão ocorreria, se não fosse uma voz feminina.
— Ei.
Todos olharam para trás, com Viktor mostrando espanto. A voz não era alta, tinha timbre agudo, não grosso mas firme.
Passos foram ouvidos, macios.
Os pés tocavam o solo, nus. Neles, unhas felinas deixavam marcas, quase invisíveis, no assoalho de madeira virgem encerado.
O quimono azul-escuro parecia brilhar como um estandarte ao sol. Nas extremidades, mãos calejadas — uma delas envolvida por chamas.
Era uma gata de pelagem chumbo, com marcas no rosto que amplificavam seus traços felinos. O cabelo branco, partido ao meio, dava volume ao seu rosto de combatente.

Ela se colocou à frente do monge, em base de luta.
— Posso lhe dar o que você procura, se quiser.
— E quem é você, gatinha?
— Tamui Ippon… do time Kirameku Kitakaze.
— Kirameku Kitakaze…? Haha! Nunca ouvi falar.
A felina não moveu um centímetro, ainda aguardando a escolha.
O monge não ficou quieto.
— Sou Brahma Fazto, monge do clã Planície Ovalada do Sul.
— Isso não é importante — disse Tamui, fechando os olhos.
— Como é que é? Você tem noção do que…
— Cale-se.
Brahma engoliu as palavras, com o ar ainda preso que quase o fez engasgar. O ruído de arranhar foi cômico, que o deixou ainda mais irritado.
No outro lado, Viktor observava a cena. Principalmente à nova lutadora.
— “Kimono trançado, mãos abertas, base firme e imponência no olhar… Tenho certeza: ela é uma judoca!”
Enquanto ele refletia, Tamui falava:
— Odeio me expôr… — o encarava. — “Monge honrado”, tudo que você disse sobre ele ser um Sem Valor te fez ignorar o que um verdadeiro artista marcial deve preservar.
— Hã? Do que está falando?
— Você e até eu sentimos incômodo por alguém sem Nirvana circular por aqui como um igual. Não, esse não é o ponto…
O tom da voz de Tamui dominou o ar. Era pesado e imponente, como Viktor percebeu.
— Preservar a identidade… — disse Tamui, fechando os olhos. — Ao ridicularizá-lo, você expôs sua baixeza como artista marcial, uma mancha indelével no que te define.
O ambiente se transformou. Quem antes riu sentiu incômodo após o que ouviu. A vergonha fez com que se retirassem tentando não deixar vestígios — mas Brahma percebeu.
Ele olhou ao redor, viu que estava ficando sozinho. E pior: a verdade o golpeava com veracidade.
Tamui concluiu:
— Esse Natural entrega uma alma de lutador que você abdicou. Monge Brahma Fazto, você é pequeno. Tem um espelho a sua direita: não olhe, senão ele quebrará.
Ele não olhou, mas quase se virou. A dúvida de verificar o rodeou. Essa sua relutância trouxe risada a Viktor.
— Por que está rindo, Sem Valor?
— Não tem espelho na direita.
Era um blefe. Havia sim um espelho. Brahma olhou, nada aconteceu. O espelho não quebrou, mas o seu orgulho trincou por causa disso.
— Idiotas… — falou, jogando a faixa no chão. — Cansei disso, vocês dois não sabem o que está por vir.
Ele caminhou, irritado, em direção a Tamui. Durante a passagem pela felina, deixou uma mensagem:
— Torça para não nos encontrarmos no lei tai, desgraçada! Nem que eu seja expulso do Tormenta, vou te destruir depois dessa!
Ele saiu às pressas, com as sombras projetadas pela luz do sol na parede externa
A faixa estava no chão, com Viktor olhando para ela. O jovem mestre não esboçou emoções, mas ele levou a mão na direção de seu item mais precioso.
Mas alguém chegou primeiro — Tamui.
A judoca pegou o tecido importante com sua mão com chamas, o que chamou a atenção do humano.
— “O que?! Mas… minha faixa não está pegando fogo?!”
O calor não gerou combustão. Tamui condensava seu Nirvana a tal ponto que mesmo chamas não eram capazes de queimar — a não ser se ela quisesse.
Ela pegou a faixa com respeito — a alinhando, como nova — deixando claro seu principal interesse.
— Afaste seus braços, por favor.
Viktor entendeu, atendendo ao pedido gentil. Ela passou a faixa pela cintura dele, cruzando o excesso e, para finalizar, aplicou o nó com firmeza — o ritual sagrado da graduação.
Após o ato, levou as mãos às laterais do corpo e prestou a saudação:
— Oss! — inclinou o corpo, sem desviar o olhar do jovem.
Viktor fez o mesmo.
— Oss!
Não era necessário mais do que isso.
A etiqueta de ambos se encontraram com harmonia e de forma orgânica.
Dois caminhos que se encontraram diante de uma quase ruptura ao código marcial. Era uma característica universal, que mesmo em outros mundos a reciprocidade era a mesma.
Mas…
— Puis-je participer à la réunion? (Posso fazer parte da reunião?)
O ar ficou quente, assim como o ambiente se silenciou. Mais ainda: se fechou, sem ecos, ruídos externos — era como se aquele espaço pertencesse a outro lugar.
Viktor esboçou frieza, controlando bem sua postura, já que ele sabia quem havia chegado.
Tamui virou os olhos, sabendo que a tal pessoa estava logo atrás. Mesmo assim, ela se limitou a virar, dando de cara com o visitante.
Era Ciel. E ele não estava sorrindo.
— Você tem interesse… na minha presa?
A figura que estava lá não era do gato sinuoso.
Era sua real persona.
“Ninguém morre enquanto permanece vivo no coração de alguém.”
Oscar Schmidt
☀️ 1958
⭐ 2026

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