Era um dia incomum.

    João coçava a cabeça, e a câmera tremia em suas mãos. Aquilo era loucura. Sim, coisa de ficção. Esse tipo de coisa deveria acontecer em Tóquio ou Nova York. Se tivesse que ocorrer no Brasil, seria em São Paulo, ou no Rio.

    E se fosse para ser no Amazonas, seria em Manaus. Não ali, não em Itacoatiara.

    “Mas é o que eu precisava!”

    Era exatamente o que ele queria.

    Uma garota estava no ar. Não pendurada por fios, ou em cima de uma plataforma, mas voando. Sim, ela ziguezagueava pelo céu, e havia um bastão em suas mãos. Ela gritava “Babiru-buh!”, e um disparo de energia rosa atingia a terra do campinho.

    E sim, tudo aquilo acontecia num campinho, aquele que fica de frente para a escola Carlos Mestrinho. No lugar onde crianças aprendiam os básicos do futebol, uma Garota Mágica enfrentava… 

    Um Power Ranger?

    — Não, não, parece que é Pill Ranger o nome dele… — murmurou para si. 

    Era um dia realmente oportuno. Era feriado, e o céu estava caindo sobre a cidade. Ninguém estaria ali para filmar, para postar em uma rede social e viralizar. Ele seria o primeiro, o único a testemunhar aquilo… 

    E fazer uma boa grana.

    Todas as rádios iam querer ouvir o relato, o Jornal do Amazonas pagaria pelas imagens e vídeos. Se a coisa pegasse fogo, talvez até aparecesse no Jornal Nacional! Seria notícia por uma semana, no máximo duas.

    Estar no fogo cruzado valia a pena.

    — Eu sei que você trabalha com elas! — berrou a garota, disparando contra o Pill Ranger, que escorregava pelo campo enlameado. — O teatrinho de vocês não convence ninguém!

    — Teatrinho?! — berrou o Pill Ranger.

    “Ele também é um garoto?!” Pensou João.

    — Do que você está falando?! — Ele tirou a Beta Gun do coldre. — Eu sou o Betaman! As Femme Fatales são minhas inimigas!

    — Ah, é?! — retrucou a garota, os olhos queimando chamas rosadas — Então como vocẽ explica o ataque de ontem?!

    — Ataque…?

    Ela parou. No céu, com seu vestido de marinheira, cuja saia e lenço eram feitos de luz rosa, a Garota Mágica mirou o bastão contra ele. O Betaman, por sua vez, mirou a Beta Gun. Era como ver um estranho duelo de faroeste.

    — Não se faça de bobo! Eu e as Magical Magna Maidens estávamos em Londres, enfrentando a Le Rough, a Senhora da Hemomancia, quando o Alphaman apareceu!

    “Alphaman…? Então eles são tipo os Power Rangers? Femme Fatales? Magical o quê? Mas que porra…”

    — Ao invés de nos ajudar… — A raiva da garota fez a energia ao redor evaporar as gotas de chuva. — Esse… esse desgraçado, ele nos atacou! A Blue Maiden quase morreu! 

    — Ele atacou vocês…? — murmurou Betaman, incrédulo.

    “Acho que tô entendendo…”

    — Mas… vocês lutam contra as Fatales também, não é? Por que ele atacaria vocês?

    — Não sei, me diga você! — devolveu ela, irada. — Você é um desses patifes, não é?!

    Ela deu um mergulho, indo na direção dele, como um avião em queda-livre.

    — CANNON BALL HUMAN! 

    De repente, a Garota Mágica girou em torno do próprio eixo, e as chamas rosadas giraram junto. Parecia um cometa rosa!

    Em questão de segundos, João se abaixou e… 

    BOOOOOOOOOOOM!

    João tossiu. Seu peito ardia como nunca, e o coração galopava como um cavalo doido. Aquilo era coisa de desenho animado. Heróis descobrem um traidor entre eles, e de repente estão brigando entre si, enquanto o inimigo em comum planeja o próximo golpe. 

    É um roteiro digno da Marvel.

    “Merda!”

    Uma densa camada de poeira levantou, mas logo se desfez. No centro dela, uma visão impensável e, em outro contexto, cômica, se desenhou aos olhos de João: uma garota de rosto branco, suave, fofinha, de cabelos com pompons e vestido de marinheira, segurava pelo pescoço um marmanjo de roupas coladas de cor azul e um capacete cafona (também azul).

    A epítome da loucura.

    — Renda-se, e diga aos seus comparsas que vou chutar a bunda de cada um deles! — gritou ela, dando uma cabeçada no capacete. — TÁ ME OUVINDO?!

    “Essa garota é doida!!”

    — Vamos, Betaman! É difícil me enfrentar sem ser pelas costas, né?!

    — Pink Maiden, por favor… — suplicou o Betaman, molemente segurando as mãos dela. — Eu nunca mais vi o Alphaman. Eu não sei o que ele anda fazendo.

    — Não sabe?! Essa é sua desculpa?! — Ela ergueu o bastão, e a ponta dele brilhou contra a viseira do pill ranger. — Espero que você… 

    — É sério! A Blue Pill apareceu na minha mão, duas semanas atrás! Ela só apareceu do nada! — falou o Betaman, desesperado. — O Alphaman até veio me explicar como esse lance de Pill Ranger funciona, mas depois sumiu e nunca tive notícias!

    — Então você está me dizendo que… 

    — Sim, que eu não tenho nada a ver com isso. Sério, eu não sei nada sobre a traição dele! Por favor, eu tô cuidando dessa cidade sozinho!

    “Ele realmente tá…” Lembrou João. “Ele resolveu uns três ou quatro casos de polícia, nesse meio-tempo. E ele não parece um cara mal…”

    — Eu estou tão confuso quanto você, Pink Maiden! 

    — Droga… — bufou ela, e o soltou.

    Aliviado, Betaman caiu e deitou no chão enlameado. Ele ofegava bastante. Bem, havia sido ameaçado por alguém mais forte que ele, era justo que estivesse com medo. João tirou foto daquela cena. Imaginou quanto seria pago por ela.

    — Você devia ter dito antes — reclamou a garota, ajudando-o a se levantar. — Imagina se eu tivesse te matado?

    — Se você viesse civilizadamente, quem sabe isso nunca teria acontecido!

    — Eu não sabia que você não era do mal… 

    — Mais um motivo para me perguntar antes, animal!

    — Animal?! — repetiu ela, indignada. — Animal  é você!

    — Não, você que é!

    — Você!

    “Ah, me poupem!”

    João guardou a câmera. O que tinha de interessante havia acabado. Ninguém iria querer ouvir sobre draminha adolescente. Ele mal conseguia acreditar que toda a porradaria ia acabar assim, com os dois discutindo.

    Ele tirou o cabelo todo rosto. Estava ensopado. Se chegasse em casa, ainda dava tempo de ouvir o Espaço Rock, um programa que ia ao ar no rádio do meio-dia às 14:00, do qual gostava muito.

    Enquanto chapinhava pela calçada, ele pensou com os seus botões. Com ou sem poderes, adolescente ainda são adolescentes. Um bando de idiotas.

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