— Como diria Fernando Pessoa — começou a professora, dando tapinhas no quadro branco. — “O poeta é um fingidor. Finge que é dor, a dor que deveras sente”.

    O rapaz, que encarava a janela, subitamente virou-se para prestar atenção ao que ela dizia.

    — Sei que faz um ano desde que Loni se foi — disse ela, olhando para a turma. — Ele adorava Fernando Pessoa. Me disse, numa dessas tardes antes das aulas começarem, que seu poema favorito era o Tabacaria.

    O rapaz, apertando os punhos, sentiu os olhos arderem. Céus, Loni! Que nome maldito! Maldito era aquele nome! Quatro letras, duas sílabas, o suficiente para lembrar que costumavam etiquetar um indivíduo que foi, para todos os efeitos, seu único e melhor amigo.

    — “Não sou nada, nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

    Sim, ele realmente adorava esse poema. Depois dos ensaios, era comum ouvir Loni recitando esses versos, como um mantra.

    — Ele tinha uma banda. A-Loni, né? — perguntou ela, olhando diretamente para o rapaz. — Ele me disse que tinham umas cinco, seis músicas prontas. Vocês só lançaram uma… 

    E, logo depois de ter sido lançada… 

    — I Hate Myself… quando penso nela, é quase uma confissão. Eu gostava muito, muito mesmo, das coisas que ele escrevia. Não sei explicar o motivo — falou ela, rindo, apoiando-se no encosto da cadeira. — Céus, nunca tive um aluno tão… tão Loni, sabe?

    Os colegas tentaram sorrir. Tentaram.

    — Essa música não faz sucesso. Duzentas e trinta e seis visualizações… no período de um ano. Ele dizia que não cobiçava a fama, que fazia o que fazia pela necessidade de se expressar. Eu acredito nisso, mas… 

    Ela se sentou, ajeitando os óculos.

    — Uma hora dessas, ele deve estar se reclamando, né? Dizendo que as pessoas não tem bom gosto… 

    Ela riu de si mesma.

    — Ah, se ele soubesse a falta que faz…

    — — — 

    — Eu não sei escrever letras.

    — Ninguém aqui sabe — concordou ela.

    — E se a gente só jogasse as palavras, e depois junta? Tipo um quebra-cabeça.

    — Não sei… a gente podia tentar.

    — A gente precisa de um tema. Sei lá. Dinheiro, por exemplo. O mundo gira em torno dele, né? O dinheiro fala.

    — É uma boa. Mas e aí, o que vamos fazer? Rock?

    Suspensa na sala, a pergunta dançou em torno dele.

    — Eu quero… sei lá, fazer alguma coisa legal. Pra se divertir, sabe? Dançar. Fazer algo dançante. Uma música dançante. A gente já ficou parado por tempo demais, tá ligado? — disse a garota, encarando o teto. — O Vitor também pensa isso.

    — O Vitor, você, eu… todo mundo. Mas é foda… 

    Eles estavam no sofá da sala. 

    — Sem ele… a gente perdeu o cabeça da banda. É difícil pensar sem um cérebro — reclamou ele, apertando os joelhos. — Não consigo mais segurar as baquetas. Eu fico esperando ele dizer “um dois, trẽs-quatro” e… ele é um fantasma. Ficava na minha cabeça, me assombrando.

    — Eu sei. Ele solfejava a melodia do baixo, me dando outras possibilidades. Era como se ele estivessem sintonia comigo. 

    — Vocẽ gostava dele, maninha.

    — Eu gosto — corrigiu ela, soltando o ar pelo nariz. — Era como se ele fosse um farol. Ele iluminava a estrada,  e nós, o carro, fizéssemos a coisa andar. É difícil enxergar no escuro. É difícil pensar em outra pessoa, quando já se tem uma em mente. Como você disse, é difícil pensar… 

    Sem uma cabeça.

    — Mano.

    — O quê?

    Um princípio de sorriso brincou nos lábios dela. Ele sabia o que aquilo significava: ela teve uma ideia.

    — Meu Deus, o quê? — indagou, desesperado.

    — Sabe o que é capaz de viver, mesmo sem uma cabeça?

    — O… o quê?

    Ela virou o rosto, e a expressão o fez erguer as sobrancelhas.

    — Não me diga que… 

    — Uma barata.

    Ela se levantou.

    — Vamos, Samsa!

    — Ei, espera!

    Tarde demais, ela já tinha pego um caderno e uma lapiseira. Abriu numa página qualquer, batucou um pouco a ponta no papel… 

    E começou.

    — Isso é…!

    —Somos uma barata, mano! E aí? Tá vendo? — mostrou o rascunho. — Eu imagino uma pegada meio pop. 

    — Mas a gente não faz isso.

    — Não fazia — disse ela, rindo, como se fosse óbvio e genial, ao mesmo tempo. — Faz um ano que a gente não ouve rock, por conta dele. E isso me mostrou uma coisa.

    — O quê?

    — Que a gente dependia demais dele musicalmente, espiritualmente… Por isso estamos assim. Ele pensava em tudo. Ele era o sol. A gente orbitava ele… ele era a banda. Nossas tentativas recentes parecem mais um cover de nós mesmos. Sabe por quê?

    — Porque a gente não é o Loni?

    — Exato. A gente não é o Loni, mano. A gente não tem aquela coisa toda de fazer rock. A gente fazia porque ele fazia a gente tocar. Mas a gente… a gente quer dançar. E o Loni dizia isso também, né? “Se você quer que te ouçam, faça eles dançarem!” 

    Ela estava animada.

    — A gente tava falando de dinheiro, né? Se liga.

    Terminou o rabisco, e mostrou:

    Moneytalks
    Money talks
    Money, bitch
    Honey, beach

    Status, viral
    Rhythm, moral
    Views will rule
    Da world 

    They want to control
    Your brain
    Your brain, man 

    — E aí? Tá idiota?

    — Tá idiota. Gostei. E a ideia da barata?

    — Ah, sei lá.

    — — — 

    — I hate myself and I want to die… 

    Era um título e refrão bem legais para uma música.

    Ele encarava o papel. Escrita em cinco minutos, a letra falava sobre como ele se sentia em relação à vida.  Percebe-se que não era algo feliz. E, bem, ele não era um falante de inglês, então poderia soar estranho.

    Porém, ele vinha lutando com isso havia algum tempo. Letras em portuguẽs, pelo menos as feitas por ele, não soavam legais. Eram tristes, sem dúvida, mas não fariam ninguém balançar a cabeça enquanto ouvia.

    Stuck in your mind
    Forever in your eyes
    I hate my life
    And I want to die

    I wanna cry
    All day, all night
    The meaning
    I can’t find

    Lost in my thoughts
    Walking around the clock
    My self-hate will be mocking me
    Save me from me

    Set the freedom on me

    If the taste of your kiss
    Is something I can miss
    Save me from me,
    Save me from me

    — “Now” ficaria legal, depois disso. Aí repetiria a primeira estrofe. Faria ela de refrão… é, funciona. Heh, assim é maneiro.

    Ele conseguia imaginar uns power chords correndo com o vocal, enquanto a bateria socava os ouvidos. Se conseguisse executar como estava pensando, seria uma música do tipo que passa despercebida, no meio das outras — mas, quando vista uma vez, não se esquece.

    Ele achava idiota. Claro que achava. Era tão direto que soava imbecil. No entanto, tudo ali escrito era verdade. Mesmo curta, a letra falava sobre a coisa que ele mais sentia nos últimos meses, especialmente na semana que findou.

    Poderia escrever em português, mas não queria que certas pessoas ouvissem e viessem tirar satisfação. Odiava essa gente pró-vida. Gente que não sabe nada sobre você, e ainda quer que você viva. Pedir algo assim, principalmente dele, era quase uma ofensa.

    Havia desistido de qualquer salvação. Tudo era vazio. Tão vazio que parecia cheio, repleto de algo que ele não sabia nomear. Essa devia ser uma das piores coisas na existẽncia humana: sentir algo e não saber o que é.

    Ele encarava aquelas palavras, aqueles versos em uma língua que não era sua. Por que aquilo continha mais verdade, do que qualquer uma das coisas que fez antes? Ele queria saber. Lógico que queria. Mas ninguém poderia dizer. Ninguém além dele mesmo.

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