Uma semana havia se passado desde que Primal levou os dois novos goblins para evoluir, a mando de Glartak.

    Nesse período, a caverna deixou de ser apenas um abrigo bruto. Agora estava limpa, os restos e sujeiras haviam sido removidos, e algumas tochas estavam penduradas nas paredes, iluminando o interior com uma luz instável. No fundo, uma área havia sido organizada de forma mais confortável, com peles e materiais improvisados formando um espaço de descanso.

    Naquele momento, Glartak estava deitado no fundo da caverna. Shivana dormia com a cabeça escorada em seu peito, respirando de forma lenta e constante.

    Ele permanecia acordado.

    Seus olhos estavam abertos, fixos no teto irregular da caverna, enquanto seus pensamentos se moviam sem descanso. Repassava tudo o que havia acontecido até agora… cada decisão, cada confronto, cada evolução.

    E, principalmente, em como irá realizar a abordagem aos orcs.

    Durante aquela semana, ele não ficou ocioso de nenhuma maneira.

    Treinou continuamente.

    A magia se tornou seu foco principal. E entre todas as habilidades que possuía, o campo gravitacional era o que mais exigia pontos de magia e o que mais rapidamente os drenava. Por isso, passou a utilizá-lo repetidamente, levando seus pontos de magia até o limite, esgotando completamente sua reserva.

    Então esperava. Esperava até que a energia se recuperasse por completo… e fazia tudo novamente.

    Foi esse o método que encontrou para evoluir seus pontos, é o que vinha fazendo desde quando se tornou Monarca. E os resultados vieram.

    Ao longo daquela semana, seus pontos de magia aumentaram para trinta, e o tempo de regeneração, que antes levava vinte minutos, foi reduzido para apenas quinze.

    Uma melhora significativa.

    Além disso, Glartak também conversou com Shivana e tentou entender melhor a sua evolução.

    Mas tudo o que ela explicou… ele já sabia. As informações não eram diferentes daquilo que o sistema já mostrava: inteligência mais elevada, capacidade de gerar goblins mais evoluídos desde o nascimento e lealdade absoluta.

    Nada além disso.

    Glartak não demonstrou, mas aquilo o incomodava. Ele esperava mais, ou talvez ele estivesse ansioso demais querendo resultados mais rápidos. Quem sabe, em uma próxima evolução, ela pudesse trazer alguma surpresa… se é que isso aconteceria.

    Após alguns instantes, ele desviou o olhar do teto e, com cuidado, deixou Shivana acomodada no chão, sem despertá-la.

    Levantou-se em silêncio e saiu da caverna.

    O ar do lado de fora estava mais frio, mas limpo, melhor para pensar… e, como seus pontos de magia já estavam recuperados, aquilo também era o suficiente para voltar ao treino.

    Glartak ativou o Passo no Vácuo, sentindo o corpo ficar leve quase instantaneamente. Dessa vez, porém, controlou o impulso, evitando saltar alto demais. Sabia que, se perdesse o controle na queda, o impacto poderia machucá-lo ou até quebrar algum osso.

    Deu um salto moderado. O vento roçou seu rosto enquanto subia, mas a lembrança da luta contra os lobos veio imediata. Se exagerasse na altura, acabaria no mesmo estado de antes: preso no ar, sem qualquer forma de reagir.

    A leveza que antes parecia uma vantagem começava a revelar seu outro lado, transformando o salto em um risco.

    Ao tocar o chão, desativou a habilidade e franziu o cenho.

    — Não faz sentido…

    Se conseguia manipular a gravidade ao redor do próprio corpo, aquilo não deveria se encerrar no momento em que seus pés deixavam o chão. O problema não era força, nem velocidade.

    Era simples… Faltava onde se apoiar.

    Ele permaneceu alguns segundos em silêncio, encarando o vazio à frente. Não precisava de algo complexo. Precisava de um único ponto. Um instante bastava. Qualquer coisa que eliminasse aquele momento em que ficava completamente exposto.

    Ativou o Passo no Vácuo novamente e saltou. Dessa vez, não buscou altura. Nem velocidade.

    Apenas esperou.

    Quando atingiu o ponto mais alto, seu corpo reagiu antes mesmo de organizar completamente a ideia. Ele tentou imaginar um apoio abaixo do próprio pé, como se pudesse concentrar ali uma força, um pequeno acúmulo de gravidade capaz de sustentá-lo por um instante.

    E, por um breve momento… algo respondeu. Uma pressão súbita surgiu sob seu pé — rápida e instável, mas real.

    Sem hesitar, seu corpo reagiu. Ele se lançou novamente no ar. A mudança foi brusca o suficiente para alterar completamente sua trajetória, deslocando-o para o lado em pleno salto. Seus olhos se arregalaram levemente, não pelo movimento, mas pelo que aquilo significava.

    Ao cair, rolou no chão para dissipar o impacto e permaneceu agachado por um instante, sentindo a respiração mais pesada.

    Não era perfeito. Estava longe disso.

    O impulso foi curto, desajeitado, e exigiu mais controle do que ele possuía naquele momento.

    Mas funcionou. Um leve sorriso surgiu, contido, quase involuntário.

    Glartak ergueu a cabeça, e seus olhos refletiam algo diferente — uma centelha de satisfação. Ele havia conseguido. Não era perfeito, mas já era o suficiente para reduzir aquela fraqueza, mesmo que apenas um pouco.

    Sem perder tempo, ativou o Passo no Vácuo novamente.

    E continuou.

    Repetiu o processo diversas vezes, ajustando o controle, tentando estabilizar aquele breve ponto de apoio que surgia no ar. Cada tentativa consumia mais energia, exigia mais foco, mais precisão.

    Ele persistiu.

    Treinou até que seus pontos de magia se esgotassem completamente. Seu corpo perdeu a leveza de uma vez, e ele caiu no chão, permanecendo deitado por alguns instantes, sentindo o cansaço se espalhar.

    Ainda assim, havia satisfação. Ele sentia que estava no caminh certo

    Seus olhos se estreitaram levemente. Algo estava errado.

    O sistema não o notificou. Nenhuma mensagem. Nenhuma nova habilidade. O silêncio permaneceu.

    Glartak encarou o vazio por alguns segundos, organizando o pensamento. Então ainda não estava completo.

    A conclusão veio simples. Ainda não era uma habilidade finalizada, mas um início. Algo bruto, incompleto, que ainda precisava ser refinado.

    Ele expirou lentamente. Precisava treinar mais.

    Sem se levantar, permaneceu ali. Esperaria seus pontos de magia se recuperarem… e então voltaria ao treino.

    Até aperfeiçoar, até que o sistema reconhecesse como uma nova habilidade.

    Ou até que ele mesmo tornasse aquele movimento algo natural o suficiente para ser usado em batalha.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota