Glartak estava de pé diante da entrada de uma caverna. Seus olhos percorriam o ambiente ao redor com atenção, analisando cada detalhe daquele novo local.

    A abertura da caverna era irregular, formada por rochas escuras e úmidas, cobertas por musgo espesso que exalava um cheiro forte de terra molhada. Pequenas raízes se espalhavam pelas paredes como veias expostas, enquanto a escuridão no interior parecia engolir qualquer vestígio de luz. Do lado de fora, a floresta permanecia inquieta, com o som constante de folhas sendo agitadas pelo vento e galhos estalando ao longe. A luz do dia mal atravessava a copa densa das árvores, mantendo tudo envolto em uma penumbra sufocante.

    Aquele seria o novo esconderijo. Sua nova casa.

    Eles haviam encontrado a caverna não muito longe da última clareira onde estavam. A decisão de mudar partira de Glartak, seguindo o conselho de Primal, temendo que os humanos pudessem atacar novamente. Da próxima vez, poderiam vir em maior número — ou com guerreiros ainda mais fortes.

    Glartak havia entendido algo importante.

    “Definitivamente, existem humanos muito mais poderosos. Eu ainda não compreendo como funciona a organização de poder entre eles, mas aquele que Primal enfrentou estava longe do topo, e mesmo assim quase morreu durante a luta, ainda somos fracos. Agora posso usar magia e tenho um controle melhor sobre ela. Primal também passou por uma nova evolução e ganhou um aprimoramento corporal e ficou mais forte. Mas mesmo com tudo isso precisamos ficar ainda mais fortes. Devem existir guardas reais, capitães… talvez algo acima disso. Fora o rei que deve ser absurdamente forte… ou até mesmo divisões por títulos, como barões e marqueses. Preciso de mais informações… eu ainda sei muito pouco.”

    Ele permaneceu em silêncio por alguns instantes, absorvendo aquele pensamento enquanto o vento frio atravessava a entrada da caverna.

    Já havia observado os goblins recém-nascidos. Eram dois. Diferente dos primeiros goblins que conhecera — criaturas puramente instintivas e sem inteligência — aqueles já demonstravam sinais claros de evolução. Em poucos dias, haviam crescido, apresentavam um nível básico de consciência e executavam ordens simples.

    Mas não estavam ali.

    “Eu mandei Primal levá-los para evoluir. Deixá-los aqui só aumentaria os riscos. Eles ainda são fracos… e, neste momento, eu preciso de mão de obra. Também preciso entender quais evoluções irão surgir desta vez… e espero que sejam fortes.”

    Seu olhar se desviou brevemente para o interior escuro da caverna, como se tentasse enxergar além do vazio.

    Shivanna também surgiu em seus pensamentos.

    “Ela está bem… completamente recuperada. A regeneração dela é alta. Mas… mesmo tendo matado alguns humanos, ela não evoluiu. Aqueles humanos deviam ser fracos… ou, pelo menos, muito inferiores ao que Primal enfrentou. Mesmo que ela tenha matado alguns deles, não foi o suficiente para alcançar o necessário para uma outra evolução.”

    Ele franziu levemente o cenho, incomodado.

    “Talvez ela esteja perto de evoluir… ou talvez não. E se esse for o limite dela? Eu não sei.”

    Seus pensamentos se acumulavam, mas nenhuma resposta surgia.

    “Droga de sistema… eu não entendo como ele funciona para eles. Eu posso escolher, tenho opções claras de evolução… mas eles não. Por quê?”

    Seu olhar permaneceu fixo na entrada da caverna enquanto sua mente continuava trabalhando, acompanhando o movimento sutil das sombras ao redor.

    “No ritmo em que estamos… não é o suficiente. Somos poucos. E, diante do que pode existir nesse mundo… não somos nada. Esperar não é uma opção, mas também não podemos nos expor. Não sei o que irão fazer com a informação que receberam do homem que fugiu.”

    A imagem de Shivanna retornou à sua mente, trazendo consigo uma nova preocupação.

    “Se eu depender dela para aumentar nossos números, vai levar tempo demais. Na minha vida anterior, era escrito em livros de fantasia que goblins geravam vários de uma vez… mas só nasceram dois. A evolução deve ter alterado algo na fisiologia dela.”

    Seu olhar se tornou mais firme, mais decidido.

    “Eu preciso de números. Preciso de força.”

    E então, o pensamento se consolidou e ele se lembrou de quando estava caçando coelhos selvagens.

    “Orcs. Eles já são fortes por natureza. Já possuem estrutura. Não preciso começar do zero. Eu vou atrás deles… e vou fazer com que se submetam. Se eles se submeterem e se tornarem meus subordinados podem evoluir também?”

    A decisão estava tomada.

    Glartak já havia definido o que faria a seguir. Ainda assim, precisava pensar em como executaria aquele plano. Precisava de uma estratégia.

    “Eu não posso agir sem pensar. Eu não vou sozinho. Primal vai comigo.”

    O som distante de algo se movendo entre as árvores fez suas orelhas se contraírem levemente, mas ele não se virou.

    “No entanto, tudo depende de como os dois novos goblins vão retornar. Se voltarem mais fortes, posso deixar Shivanna e eles aqui, agora que já mudamos de esconderijo. Isso me dá liberdade para agir. Mas, se não voltarem mais fortes, eu vou ter que esperar… esperar mais um pouco antes de agir contra os orcs.”

    O vento soprou novamente, trazendo um cheiro mais intenso da floresta.

    “Eu também não sei o que esperar deles. Orcs são grandes, fortes… mas são inteligentes? Ou apenas monstros guiados por instinto?”

    Ele permaneceu imóvel, como uma estátua diante da caverna, enquanto seus pensamentos finalmente se organizavam.

    “Não há outra opção agora. Eu preciso esperar… esperar o retorno de Primal.”

    O som voltou a se repetir entre as árvores — mais próximo desta vez, mais pesado. Galhos secos se partiam sob um peso considerável, folhas eram empurradas sem qualquer cuidado.

    As orelhas de Glartak se contraíram novamente, mas ele permaneceu imóvel. Não havia necessidade de reagir. Ele já conhecia aquele ritmo, aquela presença que não fazia questão alguma de se esconder.

    Poucos instantes depois, a silhueta surgiu entre a vegetação densa, rompendo a penumbra da floresta. Freddie. O enorme Lobo do Terror avançava com tranquilidade, seus passos firmes afundando levemente no solo úmido enquanto seus olhos percorriam o ambiente ao redor com atenção.

    Ao se aproximar, ele caminhou diretamente até Glartak, sem hesitação, parando ao seu lado diante da entrada da caverna.

    Então, com naturalidade, abaixou o corpo e se deitou sobre o chão úmido, mantendo a cabeça erguida e os sentidos atentos. Ele apenas ficou ali, ao lado de Glartak, como se aquele fosse exatamente o seu lugar.

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