Capítulo 42 - Chamado de Pai
Glartak continuou seu treino e sua rotina normalmente. Ocasionalmente saía para caçar, mas sempre permanecia nas proximidades da caverna onde estavam, evitando se afastar demais. Freddie permanecia na entrada, atento, vigiando o exterior e garantindo a segurança do local, além de proteger Shivana.
Assim, mais três dias se passaram dentro desse mesmo ciclo constante de treino, recuperação, caça e vigilância. Nada realmente mudava, e talvez fosse justamente isso que fortalecia Glartak. A repetição moldava seu corpo e refinava seu controle, tornando cada movimento mais preciso do que o anterior.
Em um desses dias, enquanto estava imerso em seu treinamento, Freddie percebeu algo. Seu corpo se tensionou de imediato, os olhos se fixando na direção da floresta. Ele não avançou, não fez qualquer movimento brusco, mas sua postura mudou o suficiente para deixar claro que algo se aproximava.
Glartak percebeu.
Interrompeu o treino e voltou sua atenção para o mesmo ponto. Ao focar o olhar entre as árvores, não demorou para reconhecer as figuras que se aproximavam.
Era Primal.
E com ele, os dois goblins mais novos.
À primeira vista, estavam bem. Não havia sinais de ferimentos graves, nem qualquer indício de falha no que foram fazer.
Os dois já não pareciam iguais como antes.
Um deles havia crescido mais em altura, ficando visivelmente mais alto que os demais, mas seu corpo era mais seco, sem muita musculatura aparente, com membros longos e uma estrutura mais esguia. O outro, por sua vez, não havia crescido tanto, mantendo uma altura menor — por volta de um metro e sessenta —, mas seu corpo era mais largo, mais pesado, com músculos bem mais definidos.
Glartak analisou os dois em silêncio por um instante, absorvendo aquelas diferenças sem dizer nada, antes de deixar completamente o treinamento de lado e caminhar até a entrada da caverna.
Os três se aproximaram até parar diante dele. Primal foi o primeiro a se posicionar corretamente, inclinando o corpo em respeito.
— Meu rei.
Logo em seguida, os outros dois repetiram o gesto, mas foram além. Ambos se ajoelharam diante de Glartak, curvando a cabeça em submissão.
— Meu pai.
A palavra ecoou de forma diferente dentro dele.
Por um instante, Glartak permaneceu em silêncio, sem qualquer reação imediata. Aquilo não era algo que esperava ouvir. Nunca havia sido chamado assim. Nem mesmo na outra vida.
E foi justamente isso que fez sua mente vacilar por um breve momento.
[flashback]
Um cômodo pequeno, iluminado por uma luz amarelada. Ele estava sentado no sofá, inclinado para frente, as mãos entrelaçadas, enquanto olhava para a mulher à sua frente — alguém que um dia chamou de esposa.
Ele havia hesitado antes de falar, mas ainda assim disse:
— A gente podia tentar… ter um filho.
O silêncio que veio em seguida foi curto.
Então ela riu.
Não foi uma risada leve ou surpresa. Foi seca. Desdenhosa.
— Um filho? — ela repetiu, como se a ideia fosse absurda. — Você mal consegue cuidar da própria vida.
Glartak — ou melhor, quem ele foi — não respondeu.
Ela continuou, sem qualquer cuidado nas palavras:
— Eu não vou estragar minha vida tendo filho agora. Ainda mais com você.
Aquilo foi dito com naturalidade, como se não tivesse peso algum.
Mas teve.
E ficou.
[fim do flashback]
O som da floresta voltou. O vento passando pelas folhas, o ambiente ao redor, a presença diante dele.
Glartak piscou uma vez, retornando completamente ao presente. Seus olhos pousaram novamente sobre os dois goblins ajoelhados à sua frente. Por um breve instante, ele apenas os observou, como se avaliasse algo além da aparência.
Então falou:
— Levantem.
A voz saiu firme, direta, sem hesitação.
Por fora, nada havia mudado. Mas, internamente, algo havia sido tocado.
Ding.
Uma notificação do sistema surgiu diante de Glartak. Dois novos subordinados haviam sido reconhecidos. E, como de costume, o sistema aguardava.
Ele deveria nomeá-los.
Glartak manteve o olhar sobre os dois goblins à sua frente por alguns instantes, analisando com calma. Primeiro, observou o mais alto, de corpo mais alongado e seco, com membros mais longos e postura diferente dos demais.
— Você… será Varok.
Em seguida, voltou sua atenção para o outro. Mais baixo, mais largo, com o corpo mais pesado e firme.
— E você… Drog.
Assim que os nomes foram definidos, o sistema respondeu imediatamente.
As informações surgiram diante de seus olhos.
Glartak focou primeiro em Varok.
< Goblin Mago Iniciante >
Descrição: Um goblin que despertou afinidade com a mana. Possui maior sensibilidade ao fluxo mágico ao seu redor, sendo capaz de manipulá-lo de forma básica. Sua evolução ainda é instável, exigindo treino e controle para desenvolver seu potencial.
Seus olhos permaneceram ali por um breve momento, absorvendo cada detalhe, antes de se moverem para o outro.
< Goblin Artesão >
Descrição: Um goblin com habilidade natural para manipulação de materiais. Possui maior precisão motora e compreensão básica de estruturas simples, sendo capaz de criar e aprimorar ferramentas rudimentares utilizando recursos disponíveis no ambiente.
Glartak não disse nada de imediato. Apenas observou os dois novamente, agora com um entendimento mais claro do que tinha diante de si.
Dois caminhos diferentes estavam começando a tomar forma diante dele… e, para Glartak, aquilo foi uma surpresa agradável.
Sem perceber, um leve sorriso surgiu em seu rosto. Era algo sutil, quase imperceptível. Mas estava ali.
Pela primeira vez, ele começava a enxergar além. Não se tratava apenas de força, de combate, de sobrevivência. Até então, tudo girava em torno de lutar, crescer, dominar.
Mas agora… Havia mais.
Aquelas duas evoluções deixavam algo claro. Ele não teria apenas guerreiros.
Se aqueles dois haviam seguido caminhos diferentes, então era possível que os próximos também seguissem. Talvez, no futuro, surgissem outros tipos de goblins. Ferreiros. Artesãos mais avançados. Quem sabe até curandeiros… ou algo próximo disso.
Ele não sabia ao certo. Mas a possibilidade existia.
E isso mudava tudo.
Para construir o que ele queria — algo maior, algo que realmente se sustentasse — ele precisaria mais do que força bruta. Precisaria de estrutura. De funções. De diferentes tipos de habilidades.
Precisaria de uma base. De uma sociedade.
E, pela primeira vez, aquilo deixou de parecer distante.
Sem ele perceber, Primal observava.
Shivana, que havia acabado de se aproximar em silêncio, também.
Ambos notaram.
E, quase ao mesmo tempo, chegaram ao mesmo pensamento.
Era a primeira vez…
que viam Glartak sorrir.

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