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Capítulo 15. A Luz que Desperta 6
O rapaz concentrou a atenção nos sons, buscando qualquer sinal, por menor que fosse, da aproximação dos animais que os cercavam. O cascalho escorregadio denunciava os passos, mas as folhas úmidas limitavam sua propagação.
— Filho — chamou Bart, impaciente.
— Pegue a corda. Vamos avançar — decidiu o homem.
Rubro, que estava ao lado de Cavam, abriu um saco de couro ancorado nas costas do animal, puxou o cordame, amarrou com firmeza uma das pontas na própria cintura e arremessou o resto em direção ao lenhador, que fez o mesmo.
— Chamamos por ela? — perguntou Wood, descendo a inclinação da trilha rumo à floresta enevoada.
— Ela disse para não gritarmos. — A preocupação recobria o semblante do homem, mas, por algum motivo, desejava cumprir as orientações de Roset.
Com cautela, passo a passo, avançavam em descida. Cavam ficou em espera na trilha acima. Caminharam por alguns minutos na mata, sondando a atmosfera de tempos em tempos; a inclinação aos poucos cedeu lugar a um terreno plano.
— Pai. — Wood parou, abaixou-se e fitou a folhagem sobre o solo, tocando-a com os dedos. — Sangue — anunciou o rapaz. Bart gelou, mas nada fez a não ser cerrar os dentes.
— Roset — chamou Wood. — Onde você está? — A voz do jovem ecoou levemente apreensiva entre as árvores. O pai, por sua vez, investigou o perímetro em busca de pistas, tateando as raízes expostas, as pedras e os arbustos.
— Filho — disse Bart, com a voz firme e controlada. — Temos um problema.
Wood estava um pouco distante, mas, ao ouvir o grunhido familiar, entendeu imediatamente. Ao girar a cabeça, distinguiu a silhueta do pai empunhando o machado em completa concentração, e, a pouca distância do lenhador, a massiva estrutura ergueu-se em duas patas, bufando pesadamente enquanto exalava o vapor do bafo quente.
— Ótimo, que maravilha — resmungou Rubro, e saltou com vontade em direção ao pai; mas mal conseguiu avançar dois passos, a corda amarrada em seu dorso prendeu-se em uma raiz exposta, fazendo-o sentir um tranco. Com um golpe certeiro, cortou a corda com o machado. No entanto, o segundo perdido foi o suficiente para que a besta marrom avançasse contra Bart.
O lenhador conseguiu aparar a patada feroz com o cabo do machado, mas como consequência, a ferramenta voou das mãos do homem, deixando-o desarmado. Sem trégua, o animal inclinou o corpo em sua direção e investiu, tentando subjugá-lo. Bart foi arremessado para trás enquanto a criatura manteve a pressão, atingindo-o na barriga com a grande cabeça peluda.
Rubro correu em direção ao pai, mas a voz de Roset reivindicou sua atenção. — Wood — chamou a mulher, paralisando mais uma vez o avanço do rapaz.
Medelin surgiu da névoa cinzenta, os cabelos castanhos cobrindo parte do rosto, as pernas e os pés envoltos em lama.
Com a mão esquerda coberta de sangue, ela tocou a árvore ao seu lado. — O machado — disse. — Me empreste o machado.
O pedido inusitado foi ouvido, mas o absurdo da solicitação fez com que ignorasse completamente a demanda. — Agora — suplicou ela, com a voz embargada. — confie em mim.
Em completa confusão, intensificada pelo rosnar dos lobos que surgiram ao seu redor por entre as árvores, Wood fitou o pai, que agora encontrava-se com as costas no chão, pressionado pelo enorme urso-pardo, enquanto socava o pescoço da fera.
Os canídeos avançaram com agilidade, saltando sobre o urso e mordendo suas patas. Eram seis, cercando o lenhador e o animal agressor. O grande urso tentou desvencilhar-se das presas que penetravam a carne, balançando os membros com intensidade. Bart recuou, chutando o solo até atingir com as costas o tronco de uma árvore.
Em saltos, os lobos dançavam ao redor do grande animal, forçando-o a recuar.
— Wood — chamou mais uma vez a jovem. O rapaz, decidindo confiar na moça, arremessou o pesado machado em direção à silhueta dela.
A mulher aparou o cabo do instrumento, firmou os pés e, mirando com precisão, cravou a lâmina sobre o grosso tronco da árvore. Com um único golpe, Wood ouviu o estalo da maciça madeira.
— Tá de brincadeira! — disse o rapaz, reconhecendo o timbre e o significado daquele som.
A estrutura vegetal partiu com um enorme estrondo, revelando o interior do caule e o cheiro peculiar da queda.
Os rosnados e grunhidos que ecoavam pela floresta foram abafados pelo colapso da madeira, atingindo em cheio os animais em plena escaramuça. Bart levantou-se, tão surpreso quanto o filho com o que presenciaram naquele instante.
O grande urso-pardo se contorcia sob os galhos e tronco que o restringiam. Os lobos, por sua vez — dois mancavam, enquanto outros quatro tentavam se desvencilhar da conífera que despencara sobre eles.
— Roset — gritou o lenhador. — Você está bem? — Com a preocupação explodindo nas vísceras, o homem correu em direção à moça.
Wood fez o mesmo, chegando primeiro até a mulher. E, ao aproximar-se o suficiente para vencer a espessa névoa, percebeu que ela estava muito pálida!
— Eu estou bem — afirmou Medelin em resposta, devolvendo o machado ao Rubro.
Bart alcançou os dois. — Sua mão! — exclamou, ainda mais apreensivo do que antes.
Roset olhou para o pai e o filho com gratidão pelo sentimento que lhe dedicavam, mas ignorou a preocupação de ambos e, resoluta, começou a caminhar em direção aos animais.
— O que está fazendo? Temos que sair daqui! — alertou Bart. — Sua mão! O que aconteceu? — perguntou, com a voz carregada de culpa.
Wood tentou impedi-la, puxando-a pelo braço direito. Medelin não se virou, mas respondeu irritada: — As fêmeas são mais complicadas. Me solte, Wood. — A voz dela continuava calma e, sem conseguir contrariá-la, ele a soltou.
Bart seguiu Roset, enquanto o filho preparava-se para atacar os animais à frente.
— Não! — disse ela, sentindo a intenção do rapaz. — Não os ataque.
Andaram um pouco. Bart encontrou, debaixo dos galhos, o machado que perdera. Roset diminuiu a velocidade, andando bem devagar, respirando lentamente e aproximando-se do urso que lutava para se desvencilhar dos galhos. O animal grunhiu alto e ameaçadoramente. Os lobos também debatiam-se; alguns prestes a libertar-se, mas não pareciam particularmente irritados.
A presença da mulher adensou-se, enquanto a neblina que a circundava ondulou delicadamente. Cada passo era calculado; ela flexionou os joelhos e abaixou-se, enquanto esticava a mão em direção ao animal poderoso.
— Roset — chamou o rapaz, aflito, mas ela apenas indicou com uma das mãos que esperasse, sem perder a concentração ou o contato visual com o grande mamífero.
Ela chegava cada vez mais perto, ampliando ainda mais a concentração. Medelin deixou o animal sentir seu cheiro; os urros deram lugar a uma respiração rápida e, gradualmente, o urso focou no rosto da mulher, acalmando-se. Roset tocou o focinho negro do animal, deslizou com gentileza os dedos por sua cabeça e estendeu um acalentador abraço em torno do massivo pescoço do predador.
…
Bart carregava Roset nos braços, subindo a encosta em direção à trilha.
— Não os machuque — suplicou a jovem, quase perdendo a consciência.
Wood estava cercado pelos lobos restantes da alcateia, que se aproximaram enquanto a mulher se comunicava com o urso-pardo, ainda preso entre os galhos. Rubro indicou ao pai que a tirasse dali.
O lenhador sabia que aquilo não era uma ameaça real ao filho, mas a fala de Roset o surpreendeu:
— Você sabe sobre Wood? — perguntou o homem, forçando as pernas colina acima.
Ela ergueu a mão em direção ao rosto barbado do marido, acariciando-o com os dedos.
— Eu sei — respondeu, deixando-se levar pelo balanço acolhedor de Bart.

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