Notas de Aviso

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    — Sabe, Wood… — disse Roset, chamando-lhe a atenção.

    — Vejo que é um garoto peculiar.

    Enquanto falava com o rapaz, Roset ergueu as mangas do vestido e mergulhou a mão na pia do balcão de pedra.

    — Aqui — ela indicou o local, batendo com os dedos bem ao centro do próprio peito.

    — Tome cuidado, tá! — aconselhou.

    Wood ouviu, imitando o gesto de Roset e refletindo sobre o que falar.

    — E você, querido — continuou a mulher, agora se dirigindo a Bart.

    — Esse joelho vai ser um problema. — Fez uma pausa e, com um sorriso doce no rosto, Roset sussurrou: — Precisamos perder um pouco de peso, viu!

    O homem, incomodado, franziu a testa, mas qualquer contrariedade se dissolveu de seu rosto ao se deparar com o olhar mais encantador que já presenciara em toda a sua vida.

    — Não vou dizer que discordo — respondeu por fim, sorrindo como alguém que descobriu um propósito ao qual se devotaria por toda a vida.

    Agraciado pela imagem do casal lavando juntos a louça, Wood aproximou-se.

    — O que achou do balcão de pedra? — perguntou. — Aqui embaixo você coloca a lenha; ela aquece a parte superior e, mudando esse conector, pode escolher para onde a água flui — explicou, apresentando o mecanismo.

    — De onde vem a água? — perguntou Roset, que investigou a estrutura, mas não desvendou o mistério do mecanismo.

    Bart moveu a manivela cilíndrica e, como um inventor, orgulhoso de sua própria engenhoca, explicou:

    — Do lado de fora há uma cisterna. Toda vez que giramos aqui, ela bombeia a água armazenada do outro lado.

    A mulher testou o mecanismo, colocou a mão sobre a manivela e, ao girar — como se estivesse abrindo um registro —, a água era puxada pela estrutura modular de madeira até o bocal entalhado por onde se despejava na pia à sua frente.

    — Lá em casa é diferente — confessou, ainda intrigada.

    — Na cidade utilizam cristais de fluxo, sei bem como é — disse o homem e completou: — O moinho empurra a água do rio vila adentro; o cristal controla a vazão constante, e o encanamento faz todo o resto. Muito prático — atestou —, mas estamos a mais de uma hora de viagem da cidade e, montanha acima, então temos que dar um jeito.

    Roset acariciava Cavam ao lado do estábulo. Um cavalo cinzento com manchas brancas. Ele tinha quase o dobro da altura da mulher, que não era necessariamente baixa. Animado, Cavam trotou com as patas sobre o chão de terra, balançando a crina e movendo a cauda, para depois — com um pedido sutil — abaixar a cabeça e oferecer o massivo pescoço para ser abraçado. Ela, assim como o vestido dourado que usava, reluzia ao sol da tarde como uma flor.

    A moça caminhou pela propriedade acompanhada do equino, enquanto Wood e o pai observavam da varanda, surpresos com o animal — normalmente arredio — apresentar tamanha docilidade perante a mulher.

    — Quem é essa? — divagou Wood em voz alta.

    Bart reclinou-se na cadeira de balanço feita por suas próprias mãos: — Espero que minha esposa — confessou.

    — Quer que eu prepare o banho, Roset? — chamou Bart. — Se quiser, já acendo o fogo para esquentar a água — informou.

    Aproximando-se da varanda, a pretendente — ainda acompanhada do grande equino — recostou-se sobre o parapeito e respirou lentamente, deixando o sol aquecer-lhe as costas.

    — Adoraria, meu bom senhor. — Roset girou o corpo. As montanhas ao longe amparavam o astro que descia das nuvens; o laranja da luz adentrava as árvores da montanha escarpada, acalentando a despedida de mais um dia.

    — Não vai encher a casa de fumaça? — questionou ela, lembrando-se subitamente da estrutura do balcão.

    O rapaz levantou-se da cadeira, adentrou o quintal e acariciou o animal que acompanhava Roset.

    — É só fechar o fogareiro. Tem um bloco que encaixamos ali, mas é um pouco pesado — relatou, guiando Cavam. Ele retirou-se brevemente do local.

    O homem continuou observando as costas da moça, apreciando a inédita experiência do brilho dourado e dos fios avermelhados que dançavam, ofuscando completamente o pôr do sol que, como um vassalo diligente, retirava-se do palco.

    O fogo crepitava abaixo da estrutura da pia. Wood acoplou o cano de madeira que conduzia a água, por debaixo do assoalho, até a banheira no canto oposto do cômodo. Ao fundo da pia escavada de pedra, um orifício estava selado.

    — Quando perceber que a água já está bem quente, Roset, é só puxar esta corda que a tampa libera a água. Para encher completamente a banheira, precisa repetir isso ao menos seis vezes — explicou o Rubro. — Pai, quantos litros tem mesmo a pia? Quarenta ou cinquenta, certo?

    Bart, que descascava legumes com uma faca, confirmou, balançando a cabeça.

    — Não tem como esquentar toda a água necessária de uma única vez? — perguntou a mulher.

    — Bem… — começou o rapaz, mas foi interrompido pelo homem.

    — Sim, tenho que construir um tanque d’água com isolamento — relatou Bart. — Mas não temos a madeira certa para isso — completou Wood.

    Roset imergiu a mão na água morna e constatou que esquentava bem rápido.

    — Tem que ser de madeira? — perguntou com um tom inocente. E nesse momento recordou-se do dia anterior, quando se banhava com o fluxo constante de água, aquecida dentro do tonel metálico externo à casa.

    O homem endireitou o corpo, encarou a pretendente com um olhar penetrante e, pela primeira vez desde que foram apresentados, ela sentiu o receio acelerar pelos nervos. Todos os pelos do corpo se eriçaram perante a autoridade intensa do lenhador, enquanto, secretamente, o útero dela recebia a mensagem.

    — Sim — respondeu Bart, sem qualquer fibra de dúvida contaminando a voz.

    Wood, por sua vez, virou o rosto, tentando conter a risada. Coitada.

    Mal sabia Bart o preço que sua resoluta fidelidade ao recurso vegetal sagrado cobraria.

    — Precisamos mesmo de um tanque — confessou Rubro, apaziguando a tensão.

    Seguindo a deixa do rapaz, a senhorita Medelin, sondando um vasilhame de cerâmica próximo, abordou a tampa que selava o conteúdo.

    — Carne em conserva? Certo? — Dentro encontrava-se, imerso em farinha, nacos volumosos de músculos.

    — De cervo! — afirmou Bart, destensionando os ombros. — O mesmo que preparei para o almoço.

    — E sabão, vocês têm? — perguntou a mulher. Coletou uma raiz do balcão e requisitou a faca do lenhador.

    Wood caminhou até um baú próximo à cama e abriu-o.

    — Tem aqui — informou —, mas não sei se é o que normalmente usa.

    Com o canto dos olhos, ela fitou a barra que o jovem segurava. — Qualquer coisa, compramos depois — disse, enquanto concentrava-se em descascar o tubérculo.

    — Melhor acender a lareira, pai, está escurecendo.

    Bart assentiu, levantou-se e seguiu até a estrutura ao fundo da cabana, pegou as pedras e ajeitou o capim seco para iniciar a chama, mas, antes de efetivar a ação, perguntou:

    — Roset, consegue ver a luz? — perguntou o homem, curioso.

    — Que luz? — questionou ela, em retorno.

    — Essa aqui — indicou Wood. — Consegue ver?

    Ela deixou os olhos vagarem pelo cômodo do chão ao teto; a penumbra tardia adentrava a residência, mas para além da fraca luminosidade que as janelas permitiam, nada mais encontrou.

    — Não — respondeu. — Não sei a que luz estão se referindo — confessou.

    Bart levantou-se. — Eu também não consegui ver de primeira. Foque o olhar ali — apontou.

    Wood fez o mesmo. Ambos indicaram para que ela concentrasse a atenção no espaço entre o teto e o batente da porta de entrada. Roset comprimiu os olhos, ainda sem compreender o que estavam dizendo para enxergar. — Concentre-se — disse o rapaz.

    No espaço, como se o ar despisse o véu do desconhecido, uma tênue e lânguida luz se apresentou. Um ponto discreto que mal iluminava a si mesma.

    — Ah — espantou-se a moça. — O que é isso? — Medelin levantou e aproximou-se do pequeno ponto brilhante. — Não é um inseto? Que luz é essa? — Os olhos dela lampejaram por um instante. Um calor vibrante cobriu-lhe o estômago e subiu pela sua garganta. — Magia. — Foi a palavra que seus lábios vermelhos sussurraram.

    Wood e Bart, que não compreendiam exatamente o que era aquela luz, nada disseram.

    — Ela sempre esteve aqui? — perguntou Roset.

    O Rubro balançou a cabeça em negativa. — Acho que sim, mas não me lembro desde quando. Talvez desde sempre.

    — A luz acompanha meu filho — afirmou o homem, retornando à tarefa pendente.

    — Ela te segue, Wood?

    — Está sempre comigo — confirmou.

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