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Capítulo 16. A Luz que Desperta 7
Nove canídeos cercavam Rubro; a visibilidade era mínima, mas por sorte, com a ajuda de dois dos Canis lupus com os quais Roset se conectou, uma abertura surgiu para que Bart a retirasse do local. Segurando o machado curto em uma das mãos, o rapaz respirava compassadamente, calibrando os sentidos e distendendo os músculos que precisavam trabalhar.
O cascalho farfalhou às costas, igualmente de seu lado esquerdo, direito, múltiplos passos. Um impacto mais forte precedeu um salto mirando seu pescoço. Com precisão calculada, Wood abaixou o tronco, recebendo o impacto do peito do animal contra a nuca. No mesmo instante, dois outros ágeis predadores surgiram à sua esquerda, abocanhando-lhe a panturrilha e o antebraço, enquanto um quarto o encarou de frente, saltando sobre sua face.
Enquanto a mão direita do rapaz subiu em arco, acertando um soco sobre a mandíbula que se aproximava, Wood, impulsionando as pernas em um salto, usou o próprio corpo para arremessar o lobo que se encontrava acima da cabeça; gesto seguido de um giro corporal no ar, que ergueu do chão o agressor que cravara as presas em seu braço esquerdo, arrastando-o em um arco preciso que levou a um sonoro impacto contra o cinzento que ele acabara de arremessar pelos ares.
Um ganido vibrou dos animais, enquanto ambos voavam contra uma árvore a alguns metros de distância, chocando-se contra a madeira inerte. O quarto animal continuava fixo em sua perna, e sacudiu a cabeça com ferocidade, na tentativa violenta de amputar-lhe a carne, mas a vontade era vã. Os músculos de Wood estavam firmes como aço, e não cederam ao intento do agressor.
Com o lombo da lâmina do machado, a mão direita dançou em direção à nuca do animal; o impacto foi seco, resultando no borbulhar espumoso de uma mandíbula à deriva.
Novamente, cortando a gélida cortina de névoa, mais duas formas cinzentas desferiram mordidas contra o estômago do Rubro. Desequilibrado e com as presas cravadas no corpo, ele caiu sentado no chão. Mais um canídeo assomou mirando o calcanhar, e outro subjugando-lhe o ombro. Todos, em sincronia, puxaram o corpo da vítima, arrastando o rapaz pelas folhas úmidas da floresta.
Respirando fundo, o jovem agarrou com a mão esquerda o couro de um dos lobos que atacava sua barriga, erguendo-o com um tranco violento e, com força calculada, colidiu a cabeça do animal contra uma árvore próxima. Nesse mesmo instante, um dentre os Canis lupus com o qual Roset havia se conectado saltou em direção ao companheiro de espécie que prendia o ombro do rapaz, subjugando a pele da garganta lupina.
Outros dois surgiram, rosnando para os antigos companheiros, em represália, forçando-os a um impasse. Os rosnados ameaçadores já cercavam o rapaz, que não conseguia distinguir quais representavam ameaça.
Os lobos que pressionavam as presas contra sua carne reforçaram a mordida, ainda mais enfurecidos. Com o braço direito, Wood tentou atingir o lobo com um golpe de cabo de machado, mas o animal esquivou-se agilmente. E quando, com o braço esquerdo, o rapaz tentou agarrar a pelagem, uma nova investida, de outro agressor, em fúria, contornou o antebraço com os dentes, detendo-o.
Mais uma vez, um dos lupinos aliados surgiu impetuosamente, agredindo o companheiro que mordia o calcanhar de Wood, arremessando o lobo em escaramuça. Mas o alívio de um membro foi substituído por outra ameaça: sem trégua, dessa vez foi o braço direito o alvo da mordida.
Com toda a força que possuía, o rapaz forçou o corpo e as pernas erguendo-se do chão, fechou o punho e, aproveitando o movimento do ombro, girou sobre o calcanhar e o corpo, socando o lobo que mordia-lhe o antebraço esquerdo, acertando o corpo do segundo, preso ao braço direito, contra um tronco próximo e, por fim, agarrou o couro do lobo que evitara seu golpe anterior, rendendo-o e arremessando-o para longe.
Wood soltou o ar dos pulmões. Puxou-o novamente e, em uma explosão sonora, soltou-o em um brado destemido que congelou o instinto dos agressores e os fez recuar em posição defensiva.
O silêncio posterior tomou conta do local. Rubro relaxou os músculos e preparou-se para a próxima investida. Rapidamente averiguou a dor e os ferimentos sofridos, constatou com alívio que, como sempre, a resistência ímpar do corpo não o havia abandonado.
Sentiu a brisa ao redor, carregada pelo cheiro estagnado da umidade e pelo gosto ferroso da adrenalina, ouviu os rosnados e ganidos do confronto entre irmãos, seguidos de passos pesados demais para pertencerem a um lobo.
— Ah, de novo não — disse, amaldiçoando a própria sorte.
O urro do massivo urso-pardo concentrou a atenção de toda a alcateia sobre ele. O trote fez o chão tremer como se um vulcão despertasse cuspindo seu magma. Wood preparou-se cruzando os braços frente ao corpo e, instantes depois, a criatura surgiu em sua visão, erguendo, com uma cabeçada, um canídeo ao ar. As pesadas patas impulsionaram-se, afastando os lobos próximos.
Um uivo cortou o ar e, gradualmente, as patas retrocederam, obedecendo ao chamado maior.
A besta marrom balançou a cabeça, expelindo saliva; alguns lobos surgiram dentre a cortina nebulosa que, aos poucos, se dissipava. Ainda mantendo uma postura defensiva, Wood estava cercado por criaturas da natureza, mas dessa vez, elas não pareciam representar qualquer ameaça.
…
Bart limpou a ferida de Roset. Não era particularmente habilidoso em aplicar curativos, mas se esforçou ao máximo para estancar o sangramento e enrolar o braço da moça em bandagens. O resultado foi satisfatório, apesar da gravidade da lesão.
A mulher estava enfraquecida, havia perdido muito sangue e, em estado de semiconsciência, orientava o homem em relação às medidas adequadas para lidar com a situação.
Somando os conhecimentos de ambos, ao menos por enquanto, tudo parecia estar sob controle.
Não muito tempo depois, Wood retornou à cabana. Correu ininterruptamente por todo o caminho florestal e, agora, encontrava-se encharcado de suor e orvalho. Adentrou a casa sem fôlego, abaixando o corpo e amparando as mãos nos joelhos.
O pai o recebeu com um grande alívio no olhar. — Tudo bem, filho? Não se machucou? — perguntou, mas imediatamente percebeu o sangue nas vestes do Rubro. Aproximou-se. — Está bem? Tem algum ferimento grave? — Por mais preocupado que estivesse, Bart confiava na peculiaridade do filho.
— Estou bem… as presas apenas perfuraram a pele — disse ele, respirando e tentando acalmar a mente. — E Roset? Como ela está? — Wood sentiu o cheiro de cinzas e emplasto que permeava o ar.
— Sente-se aqui, filho, vamos tratar dessas feridas! — indicou o homem e completou: — Ela está descansando. Fiz o que pude. — Bart relatou a verdade, mas a culpa transbordava no tom das palavras.
— Vou preparar a carroça e procurar um curandeiro na cidade. Também tenho que informar o que aconteceu ao senhor Cross — disse o lenhador.
Roset tentou recostar-se sobre a cabeceira do móvel. — Não — disse a mulher com a voz baixa. E, como se seguisse a sua voz, à porta da cabana, o arranhar de garras reverberou. Bart sentiu os pelos se eriçarem. Mas antes que pudesse colocar em palavras a surpresa que acelerou o coração, ele apenas ouviu o comando de Medelin:
— Abram a porta — disse ela. O olhar demonstrava completa consciência, apesar das pálpebras estarem pesadas.
— É um lobo, não é? — perguntou Wood, já sabendo a resposta.
O rapaz levantou-se e colocou a mão no ombro do pai.
— Eles me seguiram até aqui; imaginei que estivessem por perto.
Caminhou e abriu a porta de madeira, revelando a figura de um grande lobo cinzento ali sentado, pacientemente. O canídeo abaixou a cabeça, como se pedisse permissão, e caminhou residência adentro até aproximar-se de Roset.
— Você fez um belo estrago — sussurrou a moça, permitindo ao animal que aproximasse o focinho do braço ferido, cheirando-o.
Um pequeno ganido de desculpas foi proferido pela garota cinzenta.
— Tenho que te dar um banho, viu. Está imunda — brincou Medelin, mas com seriedade.
— Ela está com fome. Wood, dê um pedaço de carne pra ela, por favor — pediu a mulher.
Roset olhou com intensidade para os olhos da loba e acariciou sua cabeça com afeto.
Ela fitou o rapaz à espera da promessa. Ele arremessou um naco generoso de carne de cervo em conserva para a inusitada visita, que o aceitou com abocanhadas sinceras.
— O que fez com ela? — perguntou o homem à sua esposa. — Como domesticou um lobo selvagem? — Era a questão, e a apresentou com toda a clareza que incomodava a mente.
Roset comprimiu os lábios; a energia escapava-lhe do corpo e a dor latejava pelo braço. Os profundos olhos castanhos dela sondaram os gentis olhos negros de Bart, depois se voltaram para o compassivo semblante de Wood.
— Na verdade, não sei bem como explicar — confessou a mulher. — É algo que eu sou, algo com o que nasci. Eu sinto e me comunico com eles. Crio uma conexão. Sei o que eles são. E o que posso fazer. — As palavras finais soaram pesadas, involuntariamente carregadas de lamento. Medelin deixou-se deslizar entre as peles buscando o calor que o próprio corpo falhava em produzir.
— Bart — chamou Roset, com a voz baixa, em súplica.
O lenhador aproximou-se da esposa.
— Deite comigo — pediu, encolhendo o corpo vulnerável.
O homem hesitou.
— Tenho que buscar ajuda para tratar o seu braço — disse, receoso, desejando não transparecer qualquer insensibilidade.
A mulher fechou os olhos, respirou devagar e pronunciou-se pausadamente:
— Não se preocupe… ela vai buscar ajuda.
Antes mesmo de Roset terminar a fala — de um salto — a loba cinzenta cruzou a porta para descer a colina que levava à estrada. Um caminho bem conhecido por todos, que conectava a montanha à cidade.
— Me abrace — disse a mulher com intensidade, e dessa vez fez-se entender que não estava mais pedindo.
Wood saiu da cabana do pai, fechando a porta atrás de si e deixando-os à vontade. Levou consigo ataduras para cobrir os ferimentos.
Bart não teve outra escolha senão obedecer, e o fez sem contrariedade, aceitando a demanda de Medelin.

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