Capítulo 55 - Um homem simples.
Eduardo molhou os lábios no cantil, quase cheio. Bebendo a água até que ficasse quase vazio. Suspirou de alívio ao terminar.
— Bebeste demais. Não te sobrará água ao final do dia — observou sir Alóis com desaprovação, enquanto balançava ao movimento do garanhão castrado.
Eduardo encarou-o com uma expressão esmorecida, antes de se voltar novamente para o chão em movimento abaixo dos cascos de seu cavalo.
Por recomendação do cavaleiro, ele adotara uma disciplina com relação a água, que consistia em beber apenas nos momentos permitidos, com o intuito de aumentar a resistência para momentos de necessidade. Deveria consumir apenas a água que levava consigo em seu cantil, dado a ele pelo cavaleiro, o que o fazia beber apenas pequenos goles por vês. Uma vez que sir Alóis não lhe daria mais até o cair da noite.
Os primeiros três dias dessa prática se passaram com razoável dificuldade. Com Eduardo conseguindo resistir à sede pelos períodos determinados pelo cavaleiro. Os ventos constantes, e as densas nuvens brancas de chuva, ajudavam-no a suportar o desafio proposto.
O quarto dia, no entanto, fora completamente diferente.
Não vira uma única nuvem no céu desde o momento em que se levantaram, os ventos não sopravam, e a terra expelia nuvens de poeira seca a cada passo dos homens que seguiam a comitiva. E mesmo em tal situação, sir Alóis insistia em manter a disciplina da água à risca, não importando o quanto Eduardo dissesse estar com sede.
Poderia simplesmente beber, sem se importar mais com o desafio. Porém algo dentro de si, se recusava a ceder, o fazendo resistir a tentação. Assim, mesmo sem motivos reais, suportava.
Ao menos tinha o privilégio de estar viajando a cavalo. Não conseguia imaginar a dificuldade dos homens que seguiam a pé. O que o fazia sempre lembrar de Caio, caminhando junto à coluna que seguia após os cavaleiros.
Coluna essa que se tornara maior desde que deixaram Sepulcro Rubro para trás.
O Conde Fréive partira com duzentos homens seus da fortaleza. Entre cavaleiros, soldados de infantaria e serviçais. Juntando-se aos outros cem que já acompanhavam sir Alóis, e mais outra centena. Os quais acompanhavam outros nobres que se uniram a eles no caminho que levava a Repouso das Garças.
Eduardo se perguntava a razão de haver tão poucos soldados junto ao conde em comparação com a quantidade levada pelo cavaleiro. Porém, quando perguntou a sir Alóis, e foi respondido por uma pequena risada, seguida das palavras:
— Somos todos homens dos Fréive, Edwardo.
Recebera aquilo com resignação. Nunca concordou em ser homem de ninguém. Mesmo assim continuava ali, seguindo um caminho que o levava a um lugar, por ele, desconhecido.
Quando chegara em tal situação? Não conseguia lembrar bem.
Libertem-me, e eu os devolverei ao seu mundo, lembrava aquela voz dizer toda vez que pensava a esse respeito. Então apertava os lábios.
Sim ou não. Voltar ou permanecer.
Não sabia o que estava fazendo, ou as consequências, e ainda sim escolhera. Escolhera seguir o caminho desconhecido que agora trilhava. E precisava permanecer firme nele, por seu bem e pelos outros.
Ele, Caio, Theo, Carmen, Leticia…
Julia.
A noite os encontrou em meio a estrada.
Tendas foram armadas, madeira cortada, e fogueiras ardiam, com músicas cantadas e tocadas diante delas. Isso, fora dos pavilhões. Dentro deles, homens se reuniam ante uma mesa côncava polida, de um verde claro quase amarelo, com quase seis metros de comprimento.
No centro dela, sentava um homem de cabelos loiros e olhos verdes, usando um gibão cor de vinho, tão escuro que se passava por negro a meia luz. Estava cercado por meia dúzia de outros, elegantemente trajados. E franzia o cenho, enquanto os homens que o cercavam contavam-lhe o que desejava saber. Notícias ruins.
Eduardo estava em pé, um passo atrás da cadeira em que sir Alóis sentava, próxima a ponta esquerda da mesa. No ponto mais distante do senhor de Fréive.
Outros escudeiros e copeiros dos homens ali sentados também estavam presentes, acompanhando seus senhores. Lohan entre eles, próximo ao pai. Trajava uma camisa cinza escura, com imensos cordões entrelaçados nas mangas longas e no peito, além de calças de montaria.
Não sorrira uma única vez naquela noite. Quase ninguém naquela tenda sorriu.
— Aparentemente, o barão Torboun morreu dormindo em seu quarto dias atrás — comentou Viera, um dos homens que estavam reunidos no salão do trono de Wallys Fréive, na primeira vez que Eduardo viu o conde.
— Veneno — disse outro homem de aparência nobre e nome complicado, o qual também possuía o título de barão. Era o mais novo sentado à mesa, parecendo ter pouco mais de vinte anos.
Os outros homens que ocupavam os assentos remexeram-se de forma desconfortável, com olhares preocupados no rosto. O conde parecia encarar a madeira da mesa, enquanto ouvia.
— Um simples barão de uma casa qualquer. Não vejo razão para darmos qualquer atenção a isso — afirmou firmemente sir Beaufy, virando-se para Viera e pondo um dos seus braços sobre a mesa. A expressão e seu rosto parecia ser sempre a mesma carranca em toda ocasião que Eduardo o via.
— Um “simples barão” que era nosso principal apoiador entre os vassalos de duque Archambault que não apoiam a causa da princesa — retrucou Viera, num tom calmo, porém cortante.
— Era um homem útil, sem nenhuma dúvida — pontuou outro homem sentado à mesa. Um velho de careca lisa, repleta de marcas marrons.
Viera assentiu.
— Havíamos feito, através dele, uma formidável facção rebelde entre os homens abaixo dos Archambault. Que nos seriam importantes quando o momento chegasse.
Eduardo sentiu um estranho calafrio em suas pernas ao ouvir aquelas palavras. O que pensou ser devido ao frio noturno.
— Embora tal perda seja lamentável, não há outros bons homens entre os vassalos de Archambault que podem desempenhar o mesmo papel, uma vez que vários outros dissidentes haviam se mostrado? — questionou o Conde, tomando a palavra.
— Infelizmente não pode ser feito, meu senhor. Nos dias que decorreram a morte do senhor de Torboun, outros nobres que compactuam conosco tiveram infortúnios semelhantes — respondeu Viera, tomando ar antes de prosseguir. — O herdeiro do conde Rosbeper foi atacado por bandidos a caminho de sua fortaleza. Morrendo na emboscada. O visconde Brecher envolveu-se em contendas com os cunhados, sendo ferido por um deles e ficando acamado.
— Seus cunhados são os Troimont, da cidadela de Irsdan, estou correto? — perguntou o nobre careca.
Viera assentiu.
— E segundo ouvi de nossos informantes, o conde Lyarsi recebeu préstimos dos Archambault, assim como favores da princesa Desiré, como cartas de comércio e tecidos finos para suas filhas — respondeu ele com uma expressão séria no rosto.
— E tem, a princesa, permissão para dar cartas de comércio? — confundiu-se o nobre de nome difícil.
— Não, porém o ministro que gere as finanças do reino tem. E ele tem certos… interesses, todos sabem, até meu filho — respondeu o próprio conde, como se o explicasse para, fazendo o jovem Barão se encolher em sua cadeira.
— Os Troimont não tinham tomado parte nas disputas até então, pelo que sabemos. Mas não demonstraram nenhuma objeção ao primeiro príncipe — observou o nobre careca, erguendo a taça para que seu copeiro a enchesse.
— Aparentemente, o terceiro príncipe mantém muito contato com o conde Lyarsi. Ele foi escudeiro do filho Troimont mais velho, nos tempos em que este caçava grupos de bandidos que escondiam-se nas covas das montanhas próximas às terras de sua casa — explicou Viera.
— E o que tal coisa tem de importante para nós? — questionou Beaufy com um revirar de olhos impaciente.
— Ocorre que o terceiro príncipe é um apoiador convicto do irmão. E tal ligação, pode ser-nos importante para trazer os Troimont a causa — Explicou de forma contundente o conde Fréive.
Beaufy cruzou os braços e recostou na sua cadeira.
— E o segundo príncipe? — questionou o nobre jovem.
Um silêncio se abateu sobre a mesa. Eduardo olhou para Lohan, que continuava com uma expressão desconfortável. Assim como todos os outros copeiros e escudeiros ao redor de seus senhores.
O conde tomou a palavra novamente.
— O segundo príncipe, D’ermand, não é preocupação nossa, no momento.
O jovem franziu o cenho. Viera apressou-se em explicar.
— O segundo príncipe se ocupa explicitamente com os assuntos administrativos do reino. Quase não sai da capital, pelo que sabemos.
— Embora, creiamos que não seja de interesse seu que a princesa prevaleça. Uma vez que deve saber o que isso significa ao reino — concluiu o conde.
Os outros acenaram com a cabeça. Mesmo o mais jovem deles pareceu intuir o que aquelas palavras significavam. Infelizmente, Eduardo não.
Suspirou em cansaço, com uma dor de cabeça crescente nas têmporas. Aquilo não parecia ter fim. Não conseguia entender metade do que era falado, e o que conseguia era maçante demais para lhe despertar qualquer interesse.
Se perguntou por quê estava ali, acompanhando sir Alóis, uma vez que ele sequer falava.
— Embora as últimas novas sejam preocupantes. Temos a oportunidade de encerrar essa disputa antes de seu derradeiro começo — comentou Viera, e o conde de Fréive olhou em direção a sir Alóis.
— De fato — declarou. — não concorda, sir Belanger?
O cavaleiro pareceu despertar. Ficara muito tempo calado, ouvindo. Tal como os rapazes copeiros ao lado dos senhores.
— Tudo já foi arranjado, meu senhor — respondeu, num tom de voz régio.
Eduardo ouviu um bufar de sir Beaufy, que cruzou os braços, se recostando para trás na cadeira acolchoada.
— E quanto a essa trama misteriosa? Como ela se dará? — o nobre careca perguntou.
— Sobre isso eu também não faço ideia — O jovem barão pareceu se interessar pelo assunto.
— Sobre isso, não devem se preocupar, visconde Chevoul, barão Millye’feiul. Basta apenas agirem como se espera em um baile — disse o conde, encerrando a questão. — Agora, respondam-me algo que necessito saber em caso de extrema urgência: quantos homens cada senhor aqui sentado pode fornecer para sua alteza, o príncipe?
A reunião encerrou-se e Eduardo acompanhou sir Alóis de volta para a tenda.
Soldados se amontoavam em volta das poucas fogueiras que ainda restavam. Alguns já dormiam, deitados sobre as estrelas. Outros em carroças, sobre o feno e entre os mantimentos.
Talvez Caio estivesse no primeiro grupo. E Carmen, no terceiro. Eduardo não faria parte de nenhum dos três. Acompanhou sir Alóis até sua tenda, servindo-o com vinho, guardando suas botas, aquecendo a água do banho e preparando a muda de roupas limpa, com a qual o sir iria dormir.
Pensava que ser um escudeiro se limitava a preparar a armadura, aprender a lutar e proteger seu senhor numa batalha. Porém se viu apenas como um mordomo pessoal. Não podia reclamar, uma vez que já havia concordado com tal coisa.
Um sentimento que se tornara bem comum a ele.
Já se prepara para sair, no intuito de dar de beber aos cavalos, porém a voz de sir Alóis atraiu sua atenção, o freando.
— Tedioso, não?
Eduardo virou o rosto para o cavaleiro, deitado na banheira escaldante. Ficou em silêncio até que o sir virou o rosto em sua direção como se em busca de respostas.
— Podes responder que sim. Todos acham — virou a cabeça para cima, com os olhos fechados e sorriu. — Sentamos naquela mesa e falamos por horas — grunhiu em desgosto. — Eu prefiro estar em uma batalha do que falar por tanto tempo.
— O senhor não falou muito — observou Eduardo, sustentando o olhar perante o do cavaleiro.
Sir Alóis soltou um sorriso fraco.
— Verdade. Eu não falo muito. Não me dou tanto direito, nem meus… “companheiros” também.
— Eles não parecem gostar muito do senhor — Eduardo arriscou em dizer, aguardando a reação do sir.
— Eles me toleram, ao menos. Pois o conde me deseja ao seu serviço. Não posso dizer que seja a melhor posição para se estar. Mas é melhor ser tolerado, do que odiado.
Eduardo lembrou das expressões de desprezo que via sir Beaufy fazer cada vez que sir Alóis abria a boca para falar. O careca Chevoul e sir Viera moldavam seus rostos em expressões indiferentes. Apenas o jovem barão não mostrava o mínimo sinal de mudança ou aversão à presença do cavaleiro. Contrastou em sua mente isso com a forma como eram recebidos pelas pessoas dos vilarejos por onde passaram antes, e franziu o cenho, confuso.
— O senhor tem feito um bom trabalho, pelo que pude perceber. Então qual o motivo disso? — perguntou, sem conseguir segurar a língua.
O cavaleiro sorriu, fechando os olhos e voltando a se reclinar sobre a banheira de madeira.
— Se deseja saber, o motivo disso é bem simples. “Belanger” não é meu nome de nascimento. Foi escolhido a mim pelo conde, quando este me tomou em seu serviço, alçando-me a um título de nobreza — explicou.
— Então o senhor era plebeu?
Sir Alóis negou com a cabeça.
— De certo modo sim, mas o motivo pelo qual recebo tal atendimento não é esse, e sim algo… pior. Algo que era, sou e sempre serei enquanto viver — Abriu os olhos, encarando os de Eduardo com uma intensidade imensa. — Alguém que não deveria ter nascido. O bastardo de um grande senhor.

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