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    Capital de Raptra, Rigel, 03/05/029, às 13:29.

    Verion seguia pela cidade com Elemenope e Jean. Compravam algumas coisas novas conforme seguiam pelas ruas. Como Verion havia dado a maleta do dinheiro de sua mãe para Jon sem pegar nenhuma parte para si, oferecia curar os problemas de saúde dos vendedores em troca das mercadorias. Isso chamou um pouco de atenção.

    Aquela era uma área com uma feira bem ativa e movimentada. Era um tanto contraditório pensar em um lugar como aquele, para venda de coisas baratas a preço popular, em uma cidade que aparentava ser tão elitizada.

    “Espero que a Lyria fique bem de verdade…”

    “Monet não pareceu estar mentindo quando disse que iria mantê-la segura, mas não tenho como deixar de me preocupar. Ainda não resolvemos a questão com a Circe… Não sei se Monet seria capaz de pará-la caso retomasse o controle.”

    “Por enquanto, vou pensar no que posso resolver.”

    — Verion, você está precisando de uma bolsa nova, não é? — Jean apontou para uma das barracas.

    — Sim… — Teve atenção atraída e seguiu a passos rápidos até o lugar.

    Explicou sua situação sobre falta de dinheiro e ofereceu a cura de qualquer problema que o vendedor tivesse. O homem duvidou um pouco, mas aceitou o acordo. No fim, seus problemas respiratórios acabaram como se nunca tivessem existido. O ar parecia mais fácil de se respirar, era agradável. Verion ganhou uma nova bolsa em troca e logo a pendurou no ombro.

    Voltaram a caminhar e procurar alguma nova coisa interessante para fazerem enquanto não seguiam ao parque para encontrar Jon. Quando chegaram em uma rua específica, ouviram um burburinho e foram checar por curiosidade. Um grande grupo de pessoas reuniu-se ao redor de um único indivíduo. Um homem de longos cabelos negros, trajado com um hanfu azul e preto, discursava energicamente, apaixonado pelas próprias palavras.

    — Maldições, maldições! Elas sempre são tão mal vistas em nosso mundo, mas há beleza no sofrimento em que elas podem incutir a nós! — Gesticulava como um maestro conduzindo uma orquestra. — Conhecido como Taigong Xingjun, sou o fundador da Comissão do Desserviço.

    Prosseguiu: — Ohh, hahaha! Normalmente, as pessoas pagam parte de seu dinheiro tão precioso para solicitarem serviços e benefícios de outrem! Entretanto, vim alterar essa lógica em nome da expansão do conhecimento e bem comum… Os estudiosos de Zhemo, minha segunda e bela casa, possuem um interesse insaciável por obter mais dados e estatísticas sobre as maldições. Muitos simplesmente, e cruelmente, lançam maldições nos outros como se não houvesse nada de errado nisso… Mas há, há algo de terrivelmente errado nessa vertente de obtenção de conhecimento da parte mais vil da magia!

    Concluiu orgulhosamente: — Por conta dessa discordância, ser contra essa metodologia má, indiscreta e injusta, formei a Comissão do Desserviço anos atrás! Também quero estudar sobre as maldições e aprender ainda mais sobre elas… é um dos meus deveres como seguidor de meu falecido deus Zhemo! Porém, não aceito que façam isso contra a vontade dos outros. Sofrimento não deve ser uma imposição de alguém ou do destino, é assim que vejo. Então, mudei as regras desse jogo e pretendo espalhar minha ideologia ao redor do mundo! Normalmente pagam por benefícios, mas inverti essa lógica. A Comissão do Desserviço pagará um valor respeitável àqueles que aceitarem de bom grado perderem algo, receberem desvantagens! Em resumo: dou a opção de receberem dinheiro por maldições que ficarão com vocês por alguns dias! É essa a minha forma de estudo, como expando meu arcabouço de conhecimentos malditos!

    — Que conversa doida… — Jean disse baixinho.

    — É um pouco estranho, mas pelo menos é melhor do que se ele amaldiçoasse as pessoas sem consentimento delas.

    — Ohh! Você, você! Simpático rapaz com alguns cabelos brancos. — Taigong apontou para Verion, animado como algum pesquisador da natureza que encontrou um animal exótico. — É amaldiçoado, não é?

    — É… Tecnicamente, acho que sim. — Verion se aproximou e as pessoas abriram espaço para sua passagem, queriam ver o que aconteceria dali em diante.

    — Aceitaria uma maldição misteriosa por três dias em troca de 50 mil Zaykkas?! — Uniu as mãos, sorridente.

    “Eu devo conseguir curar isso, então… Dinheiro grátis!”

    — Aceito! — respondeu bem entusiasmado.

    — Ei, calma aí Verion, não se mete numa doideira dessas! — Jean puxou ele pela manga da roupa.

    — Vou ficar tudo bem, nem se preocupa.

    Em instantes, pessoas começaram a repetir o nome de Verion pelo lugar. Sabiam de quem se tratava, era o filho do falecido anjo. Isso tornou a situação ainda mais interessante para os habitantes do segundo nível. Em um piscar de olhos, mais pessoas se aglomeraram ao redor.

    — Certo, se aproxime! — Taigong ergueu a mão, confiante.

    Verion, sem grandes preocupações, foi adiante e parou na frente do homem misterioso.

    — Zhemo — proferiu o nome do falecido Deus do Tormento, tendo seu corpo tomado por uma intensa aura cor de vinho. — Será rápido.

    A densa energia recaiu sobre Verion, tornando em brancas mais partes de seu cabelo. Um peso tomou seus ombros e ele quase foi ao chão. Porém, logo usou Roha para lidar com a diferença e manter-se em pé.

    — Seu corpo estará sofrendo com gravidade aumentada pelos próximos dias. — Ele bateu palmas, animado como uma criança. — Maldições gravitacionais, essas são as minhas especialidades!

    “Não é tão ruim assim.”

    Verion perguntou sobre o dinheiro, e uma maleta veio flutuando em sua direção. Ele ficou surpreso, mas segurou ao ver o objeto parado diante de seus olhos. Taigong perguntou se mais alguém aceitaria participar dessa troca com ele, mas ninguém teve coragem. O homem acenou para todos e olhou diretamente para o rosto de Verion uma última vez.

    — Verion Velgo… Velgo… — Sorriu com um ar de interesse e desapareceu na multidão como um vulto.

    Todos olharam ao redor, mas não existia um único vestígio dele.

    — Que pessoa estranha… — Elemenope murmurou.

    — Até você consegue achar alguém mais estranho que você? — Jean perguntou sem pensar muito antes.

    — O que você quer dizer com isso? — Ela colocou a mão no cabo da espada que estava na bainha.

    — … — Ele andou lentamente para trás e se escondeu na virada de uma rua, espiando como um gato à espreita.

    “Que besta…”

    “…Acho que vou encontrar esse tal Taigong de novo muito em breve.”

    “Que impressão estranha…”

    Verion não teve tempo de cair em seus devaneios, começou a ser chamado sem parar de todos os lados. Ele ergueu o olhar, um pouco confuso, e logo entendeu o que estava acontecendo.

    — Verion Velgo, poderia curar um probleminha nas minhas costas?

    — Verion, por favor me ajude com meus olhos… Eu fui fazer solda sem máscara e caiu faísca aqui… Socorro!

    — Um dente meu quebrou, consegue consertar? — disse uma mulher carregando uma guitarra rosa.

    — S-Sim… podem ficar calmos, consigo resolver tudo que quiserem. — Verion balançou as mãos no ar, pedindo calma. — Vamos manter um pouquinho de organização!

    — Euzinha primeiro. — Ela cutucou a barriga de Verion com a guitarra e deu um sorrisinho quando o viu se assustar.

    — Quem é você?

    — Sou só uma guitarrista, não tem nadinha de muito interessante a se dizer sobre mim. Meu nome é Eve! Tô indo até o teatro e tive a sorte de achar você aqui.

    A mulher de cabelo cor de rosa se vestia com uma camisa branca, que deixava sua barriga à mostra, e jaqueta jeans aberta, juntamente com uma saia branca curta presa por um cinto de couro. Nos braços ficavam pesados braceletes de prata, nas orelhas dois brincos grandes em formato de estrela de quatro pontas.

    “Como ela quebrou o dente?”

    — Vegarten — proferiu o nome da Deusa da Vitalidade e tocou levemente na bochecha dela. A energia dourada se concentrou e realizou a recuperação em instantes. — Pronto.

    — Hmhmhmhm. — Ela passava a língua contra os dentes para sentir. — Epa, tá aqui mesmo, obrigada! Nossa, achei que ia ficar com isso faltando depois do problema que eu tive.

    — Se não se incomodar em dizer, como que isso aconteceu?

    — Ah, é que umas semanas atrás uma moça lá do teatro, a Nainna, me deu um soco no rosto por eu ter falado mal de uma pessoa… — Ela deu de ombros. — Não sei qual que é a dela… Só tô voltando lá agora, depois de um tempo afastada, por causa da Beare, uma amiga minha!

    “Nainna? Não vi essa enquanto estávamos lá. Deve ser alguma outra pessoa que não estava na área do palco naquela hora.”

    — Entendi…

    — Tchaaauzinho! — Ela foi caminhando e o deixou para trás.

    Quando Verion notou mais pessoas se aproximando e falando de seu nome, teve certeza de que passaria um bom tempo lá. Ficou horas junto de Elemenope e Jean, caminhando pela cidade e curando todos que pedissem. Diferentemente da situação ocorrida em Harlon, dessa vez ele conseguia curar muitas pessoas sem precisar se preocupar tanto com o que fazia. O revivimento trouxe uma nova capacidade curativa e um gasto de energia menor para a mesma tarefa.

    Verion queria logo ir ao parque falar com Jon, mas não conseguia evitar de sorrir ao ver os outros felizes por terem seus problemas resolvidos. Jean também parecia contente em ver a felicidade dos outros, mas Elemenope estava tão entendiada e de cara feia que assustava as crianças que apareciam. Ela queria estar em qualquer outro lugar mais interessante, principalmente quando a chamavam de assustadora ou a comparavam com uma ovelha pela aparência felpuda de seu cabelo cinza.

    Capital de Raptra, Rigel, 03/05/029, às 16:12.

    — Ahh, que cansativo… — Verion disse antes dar um gole num copo de um litro de suco de melancia, sentado em uma cadeira de um pequeno estabelecimento.

    — Acho que realmente foi todo mundo que tinha pedido sua ajuda…

    — Você é bonzinho até demais… — Elemenope estava com o rosto contra a mesa e torcendo para que mais nenhuma pessoa pedisse ajuda.

    — É minha obrigação como filho de Elta Velgo… Também o que esperam de mim e o que eu amo fazer.

    Elemenope pensou: “Uma motivação muito abstrata para mim.”

    Capital de Raptra, Parque Central de Rigel, 03/05/029, às 16:33.

    — Ele tá ali. — Verion apontou para Jon, que repousava sentado no chão, as costas contra uma árvore.

    — Ah… Vocês vieram mesmo… — O guia parecia triste, como se estivesse se segurando para não parecer tão mal.

    — Aconteceu alguma coisa com você? — Elemenope questionou, aproximando-se para olhá-lo de perto.

    — É um problema só meu… Não precisam se preocupar. — Ele desviou o olhar, observando as folhas caídas no gramado baixo. A maleta e a mochila dele estavam ao lado.

    — Vamos almoçar agora, quer vir com a gente? Você não deve ter comido ainda. — Esticou a mão para ele.

    Viu a sombra de Verion cobrindo parte de seu campo de visão e se virou para ele. Segurou na mão do garoto e foi ajudado a se reerguer. Não disse nenhuma palavra, apenas recolheu seus pertences do chão e esperou que fizessem algo.

    — Ah, a Lyria ficou no teatro pra resolver alguns assuntos.

    — Entendi… — Jon estranhamente aceitou aquilo muito fácil. Verion acreditou inicialmente que ele levaria a situação de um jeito mais sério ou pesado.

    Partiram da praça para procurar um restaurante. Questionaram onde poderia estar Jeremiah, não faziam ideia de onde ele havia parado. Saiu de perto de todos sem avisar para onde estaria indo.

    “É o Jeremiah, achamos ele de algum jeito… Duvido que ele fique quietinho.”

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