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    Conforme desciam entre os assentos em direção ao palco, Monet teve alguns pensamentos desconexos que não reconheceu como seus; como um som dissonante rompendo a perfeição de uma harmonia sinfônica.

    “Acha que foi certo fazer aquilo com Verion?”

    “Você é uma decepção.”

    E, quando notou que teve tais pensamentos aparentemente sem origem, os sentiu como distantes e efêmeros, uma pequena voz abafada pelo som do suspiro involuntário que escapou de seus lábios. Sentiu uma estranha sensação na cabeça, mas evitou inconscientemente ponderar sobre isso. Precisava pensar em Lyria e apenas nela naquele instante. Era a chave para seu show ser um sucesso.

    — Você poderia me contar mais sobre quem é? — Monet segurava a mão dela com cuidado.

    — E-Eu precisaria fazer isso de qualquer jeito. — Lyria olhou para ela, insegura apesar de estar tão decidida a ficar no teatro.

    — Não precisa esconder nada de mim, quero ouvi-la e ajudá-la em troca de sua participação em meu show. Seria bom se nos entregássemos por completo uma à outra…

    — Escolha tendenciosa de palavras, Monetzinha. — Orpheus apagou o cigarro na língua e começou a andar na direção da saída. — Vou almoçar, boa sorte com suas coisas aí.

    Lyria não entendeu o que havia de errado e Monet gesticulou para ele como se quisesse espantar uma mosca irritante. Algum tempo depois, sentaram-se na primeira fileira de assentos, lado a lado para conversarem.

    — Posso fazer uma pergunta?

    — Qualquer uma que quiser, não precisa ter medo de ser sincera.

    — Não era algo muito importante, mas por que o teatro está tão vazio nesse horário? — Lyria uniu as mãos, entrelaçando os dedos. — Vai acontecer algo muito importante daqui a alguns dias, não deveriam ter pessoas treinando e se preparando aqui?

    — Oh, era essa a pergunta… O pessoal costuma chegar após 15:00, foi o nosso horário estipulado para iniciarmos os ensaios. Esse lugar fica bem mais movimentado à noite.

    — Entendi…

    “Eu poderia forçá-la a me contar tudo de uma vez em segundos…”

    “Mas…”

    — Lyria, quando chegou aqui alguns minutos atrás, ouvi algo muito curioso vindo de você. — Monet se inclinou no assento para olhar melhor o rosto dela. — Referiu-se à Lya Seshat como sua mãe. Poderia me explicar essa história?

    “Ela tem o mesmo nome da protagonista de um dos livros de Lya e deixou isso escapar… Algo muito interessante está acontecendo bem diante dos meus olhos, não está?”

    — Posso explicar, mesmo que seja estranho…

    — Prossiga — disse num tom muito direto, quase como uma ordem. Não tirou os olhos dela por um único instante.

    — Alguns dias atrás, Lya e uma semideusa se juntaram para fazer algo em uma caverna. Minha escritora decidiu dar a própria vida como moeda de troca para me trazer à realidade com auxílio dessa semideusa. — Apertou as mãos. — Ela morreu e eu habitei o corpo dela… A aparência pode ser diferente, mas esse ainda é o cadáver dela e eu estou aqui… nele…

    Com a voz tornando-se fraca, ela continuou: — Tudo isso é muito assustador de se pensar sobre. Ainda tenho algumas memórias dela, coisas muito difíceis de entender, tudo embaçado e sem muito sentido. Existo nesse mundo há pouquíssimo tempo, menos de um mês, mas muitas coisas aconteceram. Tenho medo das coisas ruins que podem acontecer daqui algum tempo, mas por causa de Verion ainda tenho alguma esperança de que viver nesse mundo poder ser bom.

    Concluiu: — Quando descobri que tudo que vivi antes, todo o sofrimento que senti, era apenas uma ficção… Isso me encheu de agonia, de um jeito que não consigo colocar em palavras. O que mais quero saber agora é sobre minha mãe, a Lya… Quero saber a razão de ela ter escrito algo desse tipo e que tipo de pessoa ela era antes disso tudo acontecer. Ela ter escrito toda essa tragédia sobre mim me faz acreditar que ela me odiava, mas ela também se sacrificou para me dar uma chance de viver e conhecer esse mundo. Monet, quero saber mais sobre ela, por favor, por favor me ajuda com isso… Eu faço qualquer coisa que você quiser para entender o que minha vida significava de verdade para ela.

    A tinta preta escorria dos olhos azuis-escuros, descendo pela face e pingando sobre as roupas. Uma expressão dolorosa marcava seu rosto, enquanto Monet pensava em tudo que ouviu dela. Considerando o que viu em sua vida, não parecia uma realidade impossível ou extraordinária.

    “Lya certamente faria algo desse tipo… Que mulher misteriosa.”

    Monet levantou e parou diante de Lyria, oferecendo a mão em silêncio. Trêmula, a jovem de tinta moveu a mão lentamente até a dela, e a segurou. De repente, Monet a puxou e envolveu em um abraço, apertando-a contra seu peito. O primeiro abraço que Lyria teve em sua existência, era uma sensação tão boa de conforto, algo totalmente novo.

    — Lyria, prometo que vou te ajudar… Pode confiar em mim. — Acariciou seus cabelos delicadamente. — Quando acabarmos o que precisa ser feito nesse teatro, te levarei para conhecer tudo o que quiser sobre Lya.

    — Obrigado… — Um pouco desajeitada, retribuiu o abraço de olhos fechados.

    Os cabelos de Lyria ganharam um tom um pouco mais rosado e a pele tornou-se ainda menos pálida. Algo mudou, uma mudança sutil, mas que mudaria muitas coisas a partir daquele momento. Lágrimas reais escorriam pelo rosto, vindas de uma nova sensação de acolhimento que ninguém lhe deu antes. Quanto mais confortável estivesse, mais humana se tornaria.

    — Vai ficar tudo bem, tá? — Aproximou-se um pouco mais.

    “Eu poderia tê-la feito falar essas coisas à força, mas consegui de uma forma normal…”

    “Não preciso desse poder nojento para conseguir essas coisas…”

    Um sensação calorosa cobriu seu rosto.

    “Vai ficar tudo bem… Esse show só precisa ser um sucesso… por meu próprio mérito.”

    “Não aceito vencer trapaceando. Ela não aceitaria isso…”

    “Não posso estragar o belo sonho que se formou em nosso jardim, quando ela segurou minha mão…”

    “Nossa promessa vai ser respeitada…”

    — Ai… você está me segurando muito forte — Lyria disse com uma voz um pouco menos sombria que de costume, alegre.

    — Desculpa. — Afrouxou o abraço, ainda fazendo cafuné nela.

    Novos pensamentos surgiram, rasgando novamente a harmonia como uma nota musical desafinada e dissonante. Uma voz cansada e morta, como se vinda das profundezas de um antigo mausoléu recém-aberto, fluía de dentro de sua cabeça.

    “Lyria é bastante indefesa, não conhece o suficiente desse mundo por estar aqui há pouco tempo. É evidente e isso me preocupa…”

    “Me preocupa por ser você quem está com ela.”

    Escória.”

    “Você está sendo sincera? Esse calor em seu rosto…”

    “Está fazendo isso por puro interesse próprio ou realmente se importa com ela?”

    “Me diga… ”

    Palavras, quase inaudíveis saíram da boca de Monet: — Cala a boca, Nainna.

    “Deveria dar ouvidos a uma pessoa tão questionável quanto você? Não tenho motivos para que eu lhe dê confiança ou consideração. Lembro muito bem de cada um de seus atos, seus pecados.”

    “Pobre atriz, pobrezinha… Acredita que se atuar como uma boa moça poderá mesmo se redimir de seus atos?”

    “Lembro muito, muito bem! Hahahaha, tão bem… tão bem…”

    “Enquanto não for digna da minha credulidade em sua bondade, nunca irei te abandonar nesse mundo. Monstro, monstro!

    “Saiba, estarei vigiando o que fizer… Não tente manipular os sentimentos de Lyria ou…”

    Como se a voz nunca tivesse existido, a mente mergulhou outra vez em calmaria. Restaram apenas os seus próprios pensamentos, amargos, mas ainda seus. Monet sentiu lágrimas escorrendo pelo rosto e continuou naquele abraço por muito tempo.

    “Eu posso sentir coisas reais pelos outros e os outros podem sentir coisas reais sobre mim… Não quero mais que me apreciem por eu estar os forçando a isso.”

    Alguns minutos depois, ambas sentaram no palco lado a lado, Lyria encostada no ombro de Monet. O ambiente estava calmo, pouco tempo antes dos outros membros chegarem.

    — Desculpa por ficar chorando assim. — Lyria estava um pouco tímida e sem saber o que fazer naquele momento.

    — Não precisa se preocupar com isso, sentir essas coisas é importante… — Monet fez cafuné nela outra vez.

    De repente, escutaram uma outra voz, alta e animada.

    — Aaahhh! Monet, cheguei! — Uma mulher de cabelos castanhos, bem escuros, passou pela entrada e saltou por todos os assentos até cair diretamente no palco.

    — Seja um pouquinho mais calma…

    — Calma nada, eu tô animada!

    Lyria pensou: “Por que ela parece uma irmã gêmea perdida do Jeremiah?”.

    — Beare Ortis se apresentando para o ensaio! — Fez uma reverência, risonha. — Ai, quem é a garota bonitinha nova?

    — É a filha da Lya Seshat.

    Beare travou e ficou muito confusa quando prestou atenção na aparência dela e lembrou da idade de Lya. Apenas balançou a cabeça e mostrou a língua, não levando a sério e pensando que era uma mentira.

    Beare se vestia com uma calça com alguns rasgos, uma camisa preta e um sobretudo branco desabotoado. Na cabeça, uma presilha de cabelo em formato de nota musical. Tinha um olho vermelho, seu, e um azul retirado de Charlotte. Ela colocou no chão um grande estojo que trazia consigo e o abriu, revelando um baixo.

    — Um instrumento? — Lyria ficou curiosa e se levantou para olhar de perto.

    — Sim, vamos tocar algumas músicas durante a apresentação.

    — Isso não parece ter relação com teatro…

    — Aí é culpa da Monet, ela que inventou a ideia. — Deu de ombros. — Nossa baterista verdinha ali é ótima, sabe de tudinho!

    — Deixe que eu explico melhor sobre essa situação… — Ela saiu da beirada do palco e foi até elas. — Minha falecida irmã mais velha gostava muito de música, tinha uma banda bem agitada… A Beare fazia parte dela.

    — Uhum! Era divertido, bastante! — respondeu enquanto afinava o baixo e tocava algumas notas. — Dá uma saudade do caramba poder reunir elas e fazer uns shows por aí. Umas integrantes antigas vão aparecer por aqui, mas a banda vai estar incompleta.

    — Foi decisão minha escolher algo escrito por Lya Seshat para fazermos nossa apresentação aqui, mas… — Ela suspirou, fechando os olhos. — Isso não chamaria tanta atenção do público geral, então optei por fazer uma adaptação e incluir música. Acredito que isso fará uma grande diferença no momento em que formos realizar isso.

    — É, é, é! A fama da antiga banda em que eu participava vai ajudar muito nisso tudo! — Beare começou a tocar uma melodia alegre, vibrante. — Vamos fazer isso ser um sucesso que Raptra nunca viu antes!

    — Às vezes esqueço que você é tão animada… — Monet sorriu sem muita vontade.

    — Você que é toda soturna aí, sombria e do mal! — Apontou para o rosto dela. — Sorria mais, vai te fazer bem!

    — Talvez…

    — Aí garota do cabelinho preto e rosa, quer umas coisinhas? — Beare colocou o baixo no chão e abriu o sobretudo por completo. — Aqui, aqui!

    Dentro do sobretudo, inúmeras seringas podiam ser vistas, de todos os tamanhos com líquidos diferentes. Beare parecia muito orgulhosa de mostrar aquilo.

    — O que é isso…? — Lyria olhou de perto com curiosidade, nunca tinha visto uma seringa antes.

    — Tem de tudo aqui: adrenalina, estimulante pra ser muito feliz na cama com quem você ama! Também tem estro…

    — Beare! Eu já disse para não trazer esse monte de coisas para dentro do teatro! As pessoas ficam assustadas quando você mostra!

    — Mostro o quê? Tem naaada aqui comigo, tá imaginando coisa, alfacinha! — Ela fechou o sobretudo e pegou de volta seu baixo.

    Quanto mais Monet tentava argumentar e dar uma bronca, mais ela tocava o baixo e fingia que não ouvia nada. Lyria sorriu, um pouco perdida com a situação excêntrica.

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