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    MENDIR ASTOR TERCEIRO

    Alguns dias atrás, Jouci usou sua habilidade de “controlar emoções” pela primeira vez em mim. Isso me fez refletir sobre meu passado como nunca fiz. Foi parecido com ter uma epifania. “Como nunca enxerguei as coisas dessa forma?”.

    Ter paz no coração permitiu ver as coisas “de fora”, como se eu fosse apenas um observador. Com a mente fria coloquei tudo no lugar.

    Meu pai, Tur Astor Segundo, solteiro desde o falecimento de minha mãe, sempre foi um pequeno comerciante de tapetes em Porto-Norte, me criou ao lado de dois irmãos mais novos: Janir e Zair. 

    Minha infância foi bastante pacífica. Não havia tantas regalias, mas pude evitar o trabalho infantil, que afeta a maior parte da população nessa época em que vivo. Com isso, pude focar grande parte de minha formação estudando. 

    Infelizmente demorei vários anos até desenvolver minhas habilidades como Mago Elemental. Esta foi a primeira rachadura em minha convivência com meu pai.

    Aos sete verões de idade, quando ainda não havia descoberto minhas habilidades, meu pai, que parecia esperar grandes coisas de mim, “murchou” ao acreditar que eu não fosse um Mago. 

    O comum entre as pessoas que têm a sorte de conseguirem controlar mana é antes dos seis anos de idade “despertarem” suas habilidades inatas. É sempre algo explícito, como a criança soltar um jato de fogo pela boca ao tossir, ou o chão rachar em um momento de estresse. Sempre algo relacionado às habilidades que ela tem e que confirma a todos que, sem dúvidas, o jovem é um mago. 

    Isso nunca aconteceu comigo.

    O que não entendia era o motivo pelo qual meu pai queria tanto isso para mim — ou para ele. Meu destino em Porto-Norte não era o exército, mas sim cuidar dos negócios da família, então por qual motivo meu pai insistia tanto que eu fosse um mago? Ele mesmo não era um, o que deixava tudo ainda mais estranho. 

    Minha mãe faleceu no parto do meu segundo irmão, Zair. Eu tinha apenas quatro verões e meu primeiro irmão, Janir, tinha dois, quando tudo aconteceu. 

    Possivelmente o choque pela perda de minha mãe fez eu bloquear a memória que poderia completar o quebra-cabeças que explicaria o motivo da insatisfação de meu pai.

    Mas, aos dez verões, cerca de dezesseis anos atrás, eu descobri o por que ele se importava tanto com minha falta de habilidades:

    Em uma noite, quando acordei de madrugada, precisando ir ao banheiro, saí do meu quarto na calada da noite. Deixei meus dois irmãos pequenos no quarto, roncando baixo, cada um em sua cama. 

    Escutei vozes vindas da sala de estar. Aos poucos me aproximei delas, sem a intenção de espionar. Já no corredor, ao lado do cômodo, ouvi duas vozes, uma delas era do meu pai e a outra eu não reconhecia. Era uma voz grave, parecia um idoso pelo tom. Fiquei em silêncio, para não atrapalhar os dois, mas não me contive e ouvi por detrás da porta o que eles falavam.

    — …o garoto, Mendir, não serve, certo? Como pensa em pagar sua dívida com a minha família? — A voz do homem falou.

    — Felizmente os negócios estão indo bem, vou ficar no vermelho por uns dois anos, mas vou conseguir liquidar a dívida que Escarlate fez com vocês… A maldita da minha falecida esposa não sabia se controlar quando o assunto era apostar…

    — Hunf… A culpa é minha por acreditar nela. Ela dizia que tinha certeza que o menino seria um mago! — A voz do desconhecido falou em tom de desdém.

    — Como ela poderia saber? Encontramos o garoto na rua. Ele é adotado! Por isso ela prometeu ele como pagamento. Ela nunca o amou! 

    Essa última frase me fez congelar no lugar. 

    Minha respiração travou e, como uma enxurrada de informações inundando minha mente, lembrei de uma interação entre meus “pais”, quando eu tinha pouco mais de três verões.

    Naquela ocasião, eu brincava na sala de estar com brinquedos de madeira, enquanto os adultos conversavam, ignorando a possibilidade do pequeno “eu”, que mal sabia falar, entender algo:

    — Quando vai se livrar desse moleque sujo? Vai saber que tipo de doenças ele tem… — A voz rouca de meu pai era inconfundível.

    — Não seja idiota, podemos usar ele ao nosso favor. É uma boca a mais para alimentar, mas pense nele como um investimento!

    A voz doce de minha “mãe” agora me era repugnante. Eu tinha “flashes” desta memória, mas nunca entendi o que ela significava. Agora, ouvindo meu pai e o homem conversando, tudo era claro como a luz do sol. Eu era um peão, uma moeda de troca que perdeu seu valor.

    Ainda plantado ali, em choque com a revelação, tudo fez sentido. A apatia de meu pai ao interagir comigo, às vezes em que ele demonstrava afeição apenas aos meus irmãos, tudo fazia sentido!

    Senti vontade de vomitar, de gritar, de correr, de abrir a porta e bater no meu “pai”, mas não fiz nada disso. Engoli em seco, respirei fundo, fui ao banheiro, voltei a minha cama e deitei novamente.

    Pensei no que seria da minha vida dali em diante. Eu era muito jovem para tentar a vida nas ruas, então fugir de casa não estava em meus planos. E, por mais que eu agora odiasse Tur, ainda queria o máximo de tempo com meus irmãos. 

    Então decidi: Assim que eu completasse quinze verões, iria sair de casa, e nunca mais interagir com Tur. Já que ele e Escarlate, minha mãe-adotiva, queriam me usar, eu o usaria enquanto pudesse. Iria usufruir das poucas regalias que esta casa poderia me dar enquanto me preparava para sair.

    Com isso, foquei em meus estudos. Passei anos respirando poeira de livros da biblioteca da cidade. Os velhos bibliotecários já sabiam meu nome e minhas preferências de livros. Diversas vezes eu ficava até apagarem os lampiões.

    Só voltava para casa para comer e dormir. Quando Tur perguntava por onde andei, eu respondia de maneira vaga. Ele nunca pareceu se importar realmente comigo, então foi muito simples esconder meus objetivos.

    Ano após ano fui me aprimorando intelectualmente. Sempre que eu conseguia, fazia pequenos serviços para lojistas pela cidade. Ajudava a mover caixas, fazer limpeza, ou até mesmo serviços administrativos. Então consegui, ao longo de cinco anos, uma bela quantia em ouro.

    Meus irmãos eu tratava o melhor que podia, cuidando deles ou brincando em horas vagas. Eram muito jovens para entender pelo que eu estava passando, então não os arrastei para meus problemas.


    Perto dos doze anos, enquanto andava na rua, percebi que pequenas partículas de terra e pedregulhos me seguiam. De forma anticlimática descobri que eu sempre fora de fato um mago. 

    Não senti orgulho. Senti raiva.

    Depois de anos esperando por aquilo, só conseguia pensar: “Agora é tarde!”.

    Preferi esconder minhas habilidades até sair de casa.

    Mesmo com dinheiro suficiente e traumatizado, sair de casa nunca foi de fato uma decisão fácil. Iria perder regalias e o convívio com meus irmãos. 

    Quase desistindo de meus planos, descobri que as Forças de Proteção estavam alistando jovens entre quinze e vinte anos, desde que fossem magos. Esse foi o empurrão que eu precisava para sair de vez de casa.


    A madrugada em que fiz quinze anos foi minha última noite na casa da família Astor. Assim que os sinos anunciaram a primeira hora do dia, acordei meus irmãos e contei toda a verdade. Os dois, com onze e treze verões, ficaram em choque. 

    Me abraçaram, mas entenderam. Acho que se estivessem no meu lugar, fariam o mesmo.

    Não nos veríamos com a mesma frequência, mas ainda éramos irmãos. Sempre que possível tentaria ver como eles estavam.

    — Não quero que guardem mágoas de seu pai. Ele pode ter feito o que fez comigo, mas ainda assim me deu um teto e irmãos maravilhosos. Cuidem dos negócios da família e terão um futuro pacífico pela frente!

    Dei um último abraço nos dois, saí do recinto e fechei a porta.

    Até aquele instante eu tinha sido forte, demonstrando uma fachada de irmão mais velho e maduro, que não se abala mesmo depois de uma decisão como aquela, mas, quando a porta fechou atrás de mim, desabei em lágrimas. As lágrimas que não derramei nem quando descobri que era órfão agora desciam por minhas bochechas..

    Mesmo com o peso do arrependimento tentando me segurar no lugar, e mesmo desejando voltar e abraçar meus irmãos mais uma vez, continuei andando pelos corredores daquela casa. Cada passo era mais difícil que o anterior.

    Perto da porta da frente, havia uma mesinha que apoiava um castiçal antigo. Ali deixei um envelope e um saco com várias moedas de ouro.

    Meu orgulho estava ferido, mas não queria dever nada a Tur, nem mesmo ouro pelo alimento que ele me deu todos esses anos. Na carta estava escrito, em caligrafia impecável:

    “Tur, 

    Eu sei de tudo. 

    Não sou seu filho. Nunca fui amado. 

    Estou saindo de casa!

    Aqui tem cerca de quinhentas moedas de ouro, por tudo o que fez por mim. 

    Use como desejar.

    Não me procure.

    Não te odeio, mas também não sinto nada por você.

    Cuide bem de meus irmãos. Eles são a única coisa real que tive na vida.

    Mendir”

    Como se um espinho cravado profundamente em meu peito tivesse sido removido, respirei aliviado.

    Limpei as lágrimas de meus olhos, abri a porta e saí atrás de uma estalagem para passar o restante da noite. 

    Na manhã daquele dia me alistei nas forças de proteção.


    Voltando ao presente, após vagar por um ciclo, cheguei até o bairro onde minha casa ficava. Tirando umas manchas “novas” nas paredes, e algumas ervas-daninhas crescendo ao redor da casa, tudo estava do mesmo jeito que eu havia deixado.

    Era próximo ao horário do almoço, então poderia ter alguém em casa.

    Me aproximei da porta da frente e engoli seco. Minhas mãos suavam e meu coração batia forte.

    — Você consegue, Mendir! — Falei para mim mesmo.

    Minha mão estava prestes a bater na porta, mas eu me retive. Não consegui bater.

    — Esquece, isso não importa!

    Respirei fundo e dei meia volta.

    Assim que me preparei para me afastar da casa, uma figura barbuda, e um pouco barriguda congelou ao me ver. Estava à minha frente, três passos de distância de mim.

    Mesmo com a aparência descuidada, bastante calvo, e com pelos faciais que nunca vi, aquele era, indiscutivelmente, o meu pai adotivo.

    — M-Mendir?

    Ele carregava sacolas em ambas as mãos, e as soltou ao mesmo tempo. Pelo barulho que os sacos fizeram no impacto com o chão, em uma delas deveria ter algum item de cerâmica, que agora estava quebrado.

    Também fui pego de surpresa. Claramente não estava preparado para vê-lo naquele momento.

    — Olá… Tur… — Não consegui sustentar seu olhar, então foquei em alguma pedra perto de seus pés.

    — Meu filho, eu… Eu… 

    Antes que eu pudesse retrucar, dizendo que eu não era seu filho, ele encurtou a distância entre nós e me deu um forte e longo abraço.

    Dava para perceber como ele agora era mais baixo do que eu.

    Eu ainda não sabia o que fazer, então ainda não havia retribuído o abraço. Na verdade, nem sabia o que estava fazendo ali. Eu queria brigar com ele? Queria perdoá-lo? Não sabia o que pensar.

    Ainda me abraçando com força, Tur começou a chorar e disse:

    — Você não faz ideia de quanto eu sofri com sua falta! Me desculpe pelo o que eu e sua mãe fizemos você passar! Tratamos você como um objeto, quando na verdade não merecíamos o filho que tínhamos!

    Eu não sabia o que responder ou o que sentir. Me fechei pelo trauma que sentia desde os dez verões de idade, como eu poderia saber o que fazer naquele instante?

    — Me perdoe, filho, por tudo! Não precisa voltar a ser meu filho, mas, por favor, me perdoe!

    Mais lágrimas escorriam de seus olhos, enquanto ele apoiava a cabeça grisalha em meu ombro esquerdo.

    — Seus irmãos nunca mais foram os mesmos comigo. Não os culpo, fui uma pessoa terrível! Mas eu sou outro homem agora. Acredite em mim!

    Dessa vez não contive minhas lágrimas e apertei o abraço.

    — É muito cedo para eu dizer que te perdoo, mas prometo tentar. Desculpe por não ter sido um bom filho!

    Nesse momento ele se afastou, me segurou pelos ombros e me olhou nos olhos:

    — Jamais repita isso! Você foi sempre astuto e humano, coisa que nunca fui! Eu quem peço desculpas!

    Limpei minhas lágrimas do rosto e ele fez o mesmo.

    — Janir e Zair, como estão?

    Tur deu uma risada forçada, coçando a parte de trás da cabeça, antes de responder:

    — Zair ainda vive comigo, trabalha como ferreiro, no distrito comercial — Tur fez uma pausa, deu um leve sorriso e continuou. — Janir casou-se com uma bela jovem e me ajuda na administração da loja. Eles acabaram de ter uma filhinha, chamada Samir. Agora posso dizer que sou um vovô!

    Como se tivesse levado um soco, senti uma onda de felicidade preencher meu peito com essas informações. Todos estavam bem, seguindo suas vidas. Talvez apenas eu tivesse vivido em amargura. Sempre com raiva, sempre irritado…

    — Isso é maravilhoso! — Falei, sorrindo pela primeira vez em dias.

    — Já almoçou, meu filho? Quer entrar e comer com seu velho? Colocar a conversa em dia? — Disse meu pai, com olhar esperançoso em minha direção.

    Não havia motivos para negar seu pedido. Tínhamos anos de conversa para atualizar. Eu ainda não o havia desculpado completamente, mas essa era a deixa para começar a tentar.

    — Ainda não comi. Aceito sua hospitalidade!


    “Está na cara que o que Mendir passou não foi algo simples. Espero, de coração, que ele fique bem!”

    Jouci Não-nomeada

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