Capítulo 66 - Escolhida da vez
TALAMARIS AFIADA
A calmaria em minha cidade acabou uma semana depois que Thermon, Regi e Jouci partiram.
Dezenas de ataques ocorreram em Lires no decorrer das semanas: casas incendiadas no meio da noite, pessoas espancadas sem motivo aparente, furtos frequentes… Estava claro que nada daquilo era coincidência.
Sempre que eu me aproximava de alguma dessas atrocidades, não havia sinal dos culpados. Me movia entre um crime e outro, sem tempo para pensar ou reagir.
Isso causou uma onda de medo na população. Estabelecimentos fechando suas portas, pessoas se mudando da cidade e até mesmo o grande Mercado, na baía da cidade, símbolo da prosperidade de Lires, estava cada vez menos movimentado. Quase deserta.
Foi caro, mas precisei tomar uma atitude drástica: reforçar a guarda local. Contratei algumas dezenas de vigias, que agora pareciam um pequeno batalhão. Homens e mulheres, de todas as espécies, formavam a nova guarda da cidade. Eles rondavam constantemente, preparados para evitar novos delitos.
Uma semana após essas contratações, os crimes cessaram.
Mas, infelizmente, a paz vinha com um preço. Os poucos tributos que a prefeitura recebia das estalagens, comércios e moradores não seriam suficientes para manter o novo esquema de segurança de Lires. Não duraríamos dois meses nesse ritmo.
Na primeira noite que pude dormir em paz depois de três semanas agitadas por ataques terroristas, tive um sonho. Depois que acordei sabia que era um pesadelo:
No sonho não sentia nada além de paz e uma grande sensação de completude.
Me sentia tocando centenas de copas de árvores, pastos e marés, como se eu fizesse parte da brisa que acaricia tudo com seu toque.
“O que é essa sensação?”, essa pergunta preencheu meus pensamentos. Nada fazia sentido, mas eu não me importava. Me senti muito bem. Podia morrer naquele momento que não reclamaria. Esta paz lembrava um pouco a sensação de estar alcoolizada, mas centenas de vezes mais intensa.
As lufadas de ar se dobravam à minha vontade. Mas não é como se eu controlasse o ar com mana ou com minha espada. Eu era o vento! Um vento com consciência própria, capaz de todo tipo de destruição, mas que estava calmo no momento.
Passei muitas horas nesse estado inerte e contemplativo antes de ser acordada com batidas na porta de meu escritório. Havia dormido no sofá, no canto oposto à entrada.
— Quem é? — Perguntei, com voz rouca e irritada.
— Sou eu, Tala. Aquela correspondência que estávamos esperando chegou agora mesmo! — A voz de Ouna, inconfundível atrás da porta, falou depressa.
Levantei do sofá, ainda um pouco zonza, mas corri até a porta. Destranquei e abri de imediato.
Ouna segurava um rolo de pergaminho, amarrado no meio com uma tira de pano preto. Ao lado do papel eu consegui ler uma inicial: “A”.
— Ótimo. An’u foi o primeiro a nos enviar uma mensagem. Vou decifrar e logo te chamo, Ouna. Muito obrigada!
— Às ordens, Tala.
Fechei a porta e corri para minha escrivaninha. Não percebi que estava ofegante antes mesmo de levantar do sofá.
Empurrei um calhamaço de papéis que caíram e se espalharam no chão. Abri o rolo de pergaminho sobre a mesa e me sentei.
Procurei um pedaço de papel em branco e um lápis. Então comecei a ler a carta:
“Para a prefeita de Lires:
Vamos direto ao assunto: venho por meio desta carta lhe informar sobre meus produtos agrícolas. Rios de grãos, de vários tipos, perfeitos para todo tipo de cultivo. Os fazendeiros dessa região me conhecem muito bem.
Aliás, dizem as boas línguas, que sou o melhor fornecedor de sementes do continente. Li em algum lugar que necessitam de ajuda para iniciar novas plantações, então espero que uma futura parceria traga frutos para ambos. A contar pela data do envio desta mensagem, esperarei um pombo com sua resposta em até duas semanas. Dos mais de dez tipos de grãos que disponho, o que recomendo para sua região é o trigo-seco-sem-espinhos.
Voltados para climas mais estáveis e quentes, mesmo com pouca irrigação, garanto grandes colheitas. Todo ano os lucros com este tipo de plantação crescem vertiginosamente.
Em todo caso, posso ajudar com todo tipo de cultivo, não apenas os de grãos secos.
Um grande abraço.
Arudo Norin.”
O texto em si não estava muito bem escrito. Os parágrafos ficavam dispostos de maneira estranha para permitir o entendimento da mensagem oculta. Felizmente os olhos não treinados de quem interceptasse este pergaminho não perceberiam a breve mensagem encriptada: “Vários aliados. Volto em um ano”.
— Até que enfim! Espero que os outros rapazes estejam tendo progresso também.
Dei um grito, chamando Ouna até meu escritório. Informei a ela sobre a mensagem de An’u. Minha secretária Pelt-Beast ficou nitidamente mais animada com a notícia, balançando sua longa cauda atrás de si.
— Precisávamos de boas notícias — disse ela.
Pouco depois Ouna se retirou e fiquei novamente sozinha.
Ainda recostada em minha mesa, respirei fundo e fechei os olhos. Antes que pudesse reagir, um jato de vômito forçou a passagem pela minha garganta. Mal tive tempo de alcançar a lixeira ao meu lado.
O líquido, asqueroso e aquoso, era transparente. Transparente demais, se me permite a observação. Não tinha como ser água ou minha última refeição.
— Ah, não… — Falei para mim mesma. — Isso é um péssimo sinal!
Mais uma vez um deus havia marcado alguém. E eu era a escolhida da vez.
“Precisamos reagir. Somos peões nas mãos dele. Seremos sacrificados por capricho de um maluco. Acham mesmo que alguém, além dos arautos de Vanir, terão regalias depois que tudo isso acabar? Reajam!”
Elear, base ao sul do “Grande Deserto”.

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