Cap 2 - Notícia ruim
Quando a porta se abriu, o desânimo consumiu Miguel… não era ninguém diferente, ou alguém para vir a seu socorro. Era um homem de idade avançada, seus cabelos já grisalhos.
Ignorando o garoto que estava ao lado da criança, o velho disse com a voz cheia de mágoa.
— Sr. Pedro, srta. Emma, eu sinto muito pela situação. Sei que é difícil… Mas peço que tenham paciência. O estado de Miguel não é tão grave. Tivemos casos mais complicados e mesmo assim a maioria acorda.
Ainda tentando se acostumar com o fato de que todos o ignoravam, ele não podia fazer muita coisa.
“Pelo menos podiam ter um pouco mais de respeito com meu corpo.”
Seus lábios se curvaram em um sorriso que logo se desfez. Enquanto observava sua irmã, ela perguntou com a voz trêmula.
— O maninho vai ficar bem, não vai, médico?
A mãe não aguentou e abraçou a filha, que dava metade de seu tamanho. Ela tinha apenas 7 anos, afinal.
Emma respondeu no lugar do médico, em uma tentativa de consolo — Vai ficar tudo bem, querida. Seu irmão é forte.
Miguel estava começando a ficar realmente desconfortável. Não que já não estivesse, afinal não é comum ficar fora do próprio corpo. Pelo menos não para ele.
“Pior que gente falando mal de você pelas costas é ouvir alguém falar de você e não poder fazer nada.”
Ele bufou frustrado. Desde que assumiu essa forma, ele decidiu chamá-la de etérea, era meio genérico, mas ele não tinha muitas escolhas.
Constantemente Miguel sentia que estava ficando cada vez mais fraco. Ele não sabia explicar. Era como se uma parte dele fosse embora a cada minuto. Talvez, quando ele se fosse, morreria de vez e iria para o céu ou inferno.
Um frio percorreu sua barriga, a ideia era assustadora… O medo mais antigo e perigoso era do desconhecido afinal. Ele havia lido aquela frase em um livro.
Mas Miguel, é claro, não tinha nenhum interesse em morrer agora, até porque seu corpo estava ali, respirando.
— Senhor Gray, eu irei levar minha esposa e filha para casa. Peço que, por favor, ligue para nós caso alguma coisa aconteça.
O médico acenou — Claro, Pedro. Eu avisarei.
Assim, todos haviam saído da sala. Apenas ele estava em pé observando, sem dizer nada.
“Tá, agora posso jurar que tinha ouvido alguém cantando lá fora… Ninguém faria isso.”
Quando Miguel saiu pela porta do quarto do hospital, sua espinha gelou…
Onde deveria haver apenas enfermeiras e médicos, havia gente por todos os lados… O fedor fez Miguel tampar o nariz involuntariamente, era um cheiro doce mas ao mesmo tempo podre… Parecia que haviam deixado um freezer desligado cheio de carne por uma semana ali.
Pessoas ocupavam os corredores. Alguns andavam sem rumo. Outras, mais esquisitas ainda, observavam os vivos através das janelas das portas. Outras permaneciam sentadas no chão, encarando o vazio. Alguns batiam a própria cabeça na parede, como se tivessem enlouquecido.
Todos tinham algo em comum, seus olhos eram vazios… Assim como o do senhor que ele havia visto pela janela.
Enquanto tentava entender o que acontecia ali, ao seu lado uma voz alegre quebrou o silêncio — Olá, pequeno garoto. Você parece mais confuso que todos aqui. Que bicho te mordeu?
Ele gargalhou como se estivesse rindo da própria piada.
Miguel encarou o homem como se tivesse visto um fantasma — Santo Deus, de onde você veio, maldito? De onde eu vim, não é educado ficar assustando os outros de graça.
Era um jovem moreno com um black power, usando óculos escuros.
— Oh, perdão, garoto. É que não é todo dia que aparece alguém novo por aqui.
Miguel achou estranho, como ele tinha tanta energia naquele lugar sombrio?
“Tem louco pra tudo mesmo”
Dando-lhe um olhar de suspeita Miguel retrucou — Você me chama de garoto, mas parece mais novo que eu, maldição.
O jovem inclinou levemente a cabeça, como se analisasse Miguel com curiosidade. Não que Miguel conseguisse ver através dos óculos escuros.
— Pode não parecer, mas provavelmente eu tenho idade para ser seu avô.
Os lábios de Miguel se curvaram em nervosismo… Ele não se importou muito na verdade. Claramente era uma piada. Não era?
“Esse cara parece ser dos piadistas.”
Isso não era muito comum em Curitiba. O humor das pessoas por aqui não era dos mais receptivos… E nesta situação então. Miguel o encarou com deboche e fez uma pequena reverência.
— Sim, sim, eu entendo, senhor Óculos. Como eu deveria me referir à vossa senhoria?
O jovem de óculos pareceu genuinamente surpreso. Ele não esperava aquela reação.
Com um olhar estranho, respondeu enquanto sorria — Oh, vejo que gosta de piadas. Permita-me apresentar. Sou Antônio. A quem devo o prazer?
Ele falou isso com toda seriedade, fazendo Miguel se esforçar para não rir.
Quem, em sã consciência, dá um nome desses para alguém hoje em dia?
“Não tenho nada contra nomes, é claro. Mas Antônio é nome de velho.”
Dando de ombros ele se apresentou — Sou Miguel, eu estou meio perdido por aqui.
Miguel ainda não sabia por que estava ali. Talvez Antônio pudesse ajudar.
Antônio olhou para cima, pensativo… Depois de alguns segundos em silêncio, deu-lhe um sorriso.
— Assim, assim, já entendi tudo.
Miguel arqueou uma sobrancelha enquanto ouvia.
— Você está confuso porque morreu e não foi para o céu ou para o inferno, não é? Na mosca.
Miguel encarou o rapaz por alguns segundos… Ele estava claramente vivo. Seu corpo ainda respirava e seu coração batia.
Mais ou menos.
“Será que estou fedendo? Devia ter passado desodorante.”
Miguel olhou com desdém para Antônio, que parecia feliz com sua conclusão.
— Calma aí, não é bem assim sr. Gênio.
Miguel apontou o indicador para si mesmo.
— Eu estou claramente vivo, não está vendo? Desgraçado, Isso é uma ofensa!
Antônio olhou boquiaberto.
O rapaz estava quase transparente. Como poderia afirmar estar vivo?
Antônio começou a andar em círculos enquanto apontava para Miguel.
— Olha, Miguel. Eu até gosto de piadas, mas brincar com a vida é complicado — parando por um instante — A vida é coisa séria!
Miguel olhou para o rapaz como se estivesse assistindo a uma aula.
“Por que ele falou isso como se fosse um filósofo?”
Enquanto observava Antônio, percebeu algo que não havia notado antes…
Conseguia ver através dele.
Seu coração pesou.
Ele também não era normal.
Ele falou nervosamente — Tá, tá, já entendi. Agora eu poderia receber ajuda de sua grande sabedoria?
Antônio olhou para Miguel com curiosidade.
Miguel apontou para si mesmo e para o quarto de onde saiu.
— Ontem à noite eu fui dormir. Então acordei aqui neste hospital sinistro, fora do meu corpo, com minha família chorando. Parecia até um velório.
Enquanto Antônio ouvia, seu olhar seguia o dedo de Miguel. olhando para dentro do quarto, seu olhar vacilou.
Lá estava um corpo exatamente igual ao do garoto à sua frente, sobrevivendo graças às máquinas.
Pela primeira vez desde que se encontraram, o sorriso de Antônio pareceu vacilar.
Antônio olhou para Miguel aflito, como se sentisse pena do garoto…
— Olha, pequeno. Não sei se preciso te explicar isso, mas acho que você está em coma.
Miguel ficou em silêncio por alguns segundos, processando a afirmação do homem.
“Eu já imaginava… Mas ouvir isso…”
Um sorriso nervoso finalmente apareceu no rosto de Miguel — Sério? Você é realmente um gênio!
Antônio encarou Miguel por alguns segundos…
Ele não riu.
— Essa não é a notícia ruim — sua voz soava melancólica.

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