Cap 3 - Videogames
“Sempre pode piorar.”
Esse era um lema de Miguel. Poderia ser só estoicismo, Miguel não sabia direito.
Miguel o encarou com uma expressão cômica, se alguém o visse, daria risadas — O que pode ser pior que estar fora do meu corpo?
Antônio deu-lhe um olhar de desaprovação. Dando de ombros, ele observou os outros que estavam em volta, apenas existindo, sem reações ou conversas. Depois voltou seu olhar para Miguel.
— Olha pequeno, em menos de um mês você estará igual a eles — falou apontando para os seres com olhar vazio.
Seus lábios se curvaram em um sorriso quando ele continuou — Mas para sua sorte, eu estou aqui, seu salvador.
Miguel permaneceu imóvel, encarando-o em choque. Não sabia o que processar primeiro; a ideia de que se tornaria um daqueles seres ou o fato de que o homem diante dele seria o responsável por salvá-lo.
“Por que meu salvador precisa ser Antônio? Que nome fora de moda.”
Dando-lhe um olhar desconfiado Miguel perguntou — E como você pretende me salvar, maldito? — apontando para si, ele zombou — Já vou avisando que gosto de mulheres.
Antônio olhou para Miguel com diversão — Eu também gosto de mulheres — Olhando para cima, ele acrescentou — Pelo menos na minha época, mas isso não vem ao caso.
— O que importa aqui é o seguinte, aqueles ali são os Rasos. É um apelido carinhoso até — disse Antônio apontando para as pessoas em volta.
Limpando a testa com as costas da mão enquanto pensava, ele acrescentou — Quando você está aqui no mundo espiritual, a cada segundo você perde essência da sua alma. Se você se esvaziar, você enlouquece e fica daquele jeito ali.
Balançando a cabeça, ele olhou para Miguel.
Miguel estava pensativo. Desde que havia acordado, ele sentia estar ficando mais fraco, então um terror entrou na cabeça dele.
“Eu vou sumir? Simples assim?” Sua testa franziu.
Percebendo a reação de Miguel, Antônio complementou — Mas tudo bem, jovem. Eu vou te ajudar a não ficar dodói da cabeça.
Gesticulando com os olhos e dando um polegar para Miguel, ele continuou — Não que você já não seja, é claro.
Miguel se acalmou. É claro, qualquer coisa que pudesse ajudá-lo o acalmaria, portanto logo um sorriso forçado apareceu em seu rosto.
Miguel juntou suas mãos em prece, como se fizesse uma oração— O poderoso santo Antônio, me ajude a não ficar maluco.
O rosto de Antônio pareceu vacilar por um momento…Dando-lhe um sorriso, ele falou.
— É bem simples, na verdade. Você só precisa comer outros espíritos.
Quando Antônio percebeu o rosto de horror de Miguel, ele tossiu e acrescentou — Não literalmente, é claro.
Miguel olhou com confusão. Como ele poderia se sentir confortável com a ideia de comer pessoas? Só o pensamento fez seu estômago embrulhar.
“Pelo menos ele disse que não é literalmente.”
Fechando os punhos, Miguel falou com tensão em sua voz — Como isso funciona? Eu não preciso matar ninguém, não é?
Desde que criou consciência própria, Miguel sempre repulsou a ideia de brigar, então matar alguém seria a gota d’água. Não porque ele era algum pacifista ou coisa parecida.
E sim porque ele era fraco.
Em toda a sua vida ele tinha brigado algumas vezes, ele nunca ganhou no entanto… Outra ideia passou por sua cabeça. Seus lábios se curvaram em um sorriso fraco.
“Maldição, talvez eu ganhe uma briga antes de morrer”
Antônio o encarou por alguns segundos e balançou as mãos. Então disse com a voz ainda mais alegre.
— Matar não, obviamente, até porque a maioria aqui já está morta. Então pense nisso como se você fosse a salvação deles, afinal quem iria querer ficar vagando por aí, não é?
Apontando o dedo para cima, ele continuou — Quando éramos vivos, foi prometido que quando morrêssemos iríamos para o nosso descanso — um olhar de nostalgia apareceu em seu rosto — Ah, o paraíso… Ou o tão temível inferno.
Miguel olhou para ele com desdém. Quem ele estava pensando que era? Algum tipo de Deus? Que direito ele tinha para salvar alguém?
“Esse maldito lunático.”
Com a voz trêmula, ele disse — Então, se morremos aqui, vamos para o céu ou inferno?
Na cabeça de Miguel, essa era uma opção bem melhor do que ficar por aí lutando contra fantasmas. Porém a ideia de morrer ainda o assustava. Como ele deixaria a família dele? Então ele tinha entrado em um dilema.
Observando Miguel, Antônio disse balançando a cabeça — Eu não sei, ninguém nunca voltou para me contar.
Miguel estremeceu. Seu sorriso até falhou por um segundo. Aquilo acabava com seu dilema. Ele não tinha escolha… Ou acordava ou acordava.
“Por que ninguém nunca teve a ideia de fazer um filme sobre isso? Seria de grande ajuda agora.”
Afinal, Miguel era um grande apreciador da ficção.
Não ligando para o devaneio do garoto, Antônio continuou — Enfim, tem inúmeras formas de roubar essas essências aí. Você pode lutar fisicamente ou até mesmo derrotar alguém mentalmente.
Pensando por alguns segundos, ele finalmente traiu o silêncio — É meio difícil de explicar. Vou te falar o básico, o resto você precisa aprender sozinho.
Aquilo finalmente começou a parecer um desenho de lutinha. Miguel não era tão desconhecido dessas coisas.
“Isso quer dizer que eu preciso lutar, ficar fortinho e voltar pro meu corpo.”
Falar era fácil. Miguel não acreditava que acordaria tão cedo.
Piscando algumas vezes, ele perguntou com curiosidade — Então isso é tipo um vídeo game?
Quando Antônio ouviu isso, ele pareceu travar por um momento. Olhando com curiosidade, disse — Vou fingir que sei o que é isso, mas tudo bem.
Batendo as mãos, ele continuou — Tem alguma coisa que você gostava muito ou fazia enquanto vivia sua vida…
Antes de poder terminar sua frase, no entanto, algo estranho aconteceu.
Um dos Rasos virou a cabeça e olhou para os dois.
Miguel sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
Uma expressão sinistra apareceu no rosto de Antônio.
Fazendo uma careta, ele tentou manter a pose e disse — Olha querido Miguel, acho que é melhor sairmos daqui…
Apontando o dedo para o Raso que encarava os dois, ele falou com a voz trêmula — Mesmo que esses caras aí não tenham mais nada dentro deles…
Finalmente a máscara de Antônio caiu, fazendo Miguel sentir calafrios — Eles começaram a perceber a gente.
Miguel olhou para Antônio com uma expressão sombria.
“Que legal, nem terminei o tutorial e já tô jogando.” Miguel bufou amaldiçoando.
Antônio já havia começado a andar em direção à saída. Miguel o seguiu.
Enquanto passavam pelos corredores e pela sala principal do hospital, as pessoas viviam suas vidas normalmente. Sons de macas sendo arrastadas pelos cantos.
O cheiro forte de sopa e a luz branca enjoativa.
Miguel se perguntou como seria se eles soubessem que tinha um monte de fantasmas por aí.
“Bendito seja Deus, o que eles diziam.”
Miguel nunca foi tão apegado à religião, porém ele não podia negar que no fundo de seu coração sempre teve um pouco de crença, afinal ele ainda era um brasileiro comum.
Enquanto andavam em direção à saída, Miguel perguntou com uma expressão tensa — Antônio, por que estamos fugindo daqui?
Antônio, no entanto, já havia se acalmado, então falou enquanto dava-lhe um sorriso — Não é óbvio? Aqui é muito chato.
Miguel sentiu uma sensação de falsidade em sua voz, porém ele não questionou. Apenas concordando com a cabeça.
“Tem coisas que é melhor não saber” Ele tinha lido aquela frase em um livro.
Então finalmente eles haviam chegado na porta principal.

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