Cap 9 - Professora Aisha
O vento soprava entre as velas de um navio antigo, um jovem de cabelos escuros estava apoiado na amurada, seus olhos perdidos no horizonte, esfregando a têmpora de seu olho direito… Por algum motivo aquele olho começou a coçar nessa manhã.
“maldição, Dália diz que vai entrar em meu olho e desaparece”
Quando Dália lhe fez a proposta, ele imaginou algo mais vívido…
Algo como, eu vou te dar poderes super legais. Infelizmente, o olho esmeralda que ele havia reparado no espelho não servia para nada.
Um suspiro frustrado saiu de seus lábios, ele realmente queria ter superpoderes, seria tão épico… Pelo menos em sua cabeça.
Porém, hoje Miguel não estava tão triste, por um motivo bastante específico… Aisha havia prometido que hoje, finalmente… O ensinaria algumas coisas sobre a tal vontade.
Seus lábios se curvaram em um sorriso, eles já estavam viajando há alguns dias, por incrível que pareça, Aisha era muito preguiçosa!
A garota raramente fazia alguma coisa além de ler alguns livros, e encarar o horizonte com uma expressão apática.
O calor finalmente começava a diminuir, levando Miguel a acreditar que já haviam deixado o deserto para trás… Ele não conseguia ver o chão há algum tempo, desde que adentraram uma nuvem em específico, a nuvem cobria tudo acima e abaixo, apenas o sol atravessava a névoa espessa, talvez Aisha conseguisse ver através dela, ao contrário dele, ela estava pilotando o navio afinal.
Miguel estava tão distraído em seus pensamentos que nem percebeu Aisha se aproximando, uma sombra esguia caía sobre ele.
Levantando o olhar, uma bela garota estava o encarando indiferente, seu visual havia mudado neste meio tempo, o corta-vento foi substituído por uma túnica branca leve, coberta apenas por um manto cinzento.
Seus olhos estavam calmos como sempre, curvando seus lábios em um sorriso ela finalmente disse algo.
— Você parece bem distraído, tem certeza que quer ter suas aulas hoje? — perguntando com falsa seriedade.
— Já está dando desculpas? Você me prometeu, então não adianta.
Aisha bufou frustrada, talvez ela realmente só quisesse desfrutar de mais um dia fazendo nada.
— Tudo bem, tudo bem se alongando rapidamente ela acrescentou.
— Mas olha, eu não vou me responsabilizar se você ficar entediado.
Miguel a encarou sem reação, o que seria mais entediante que ficar olhando para o nada? Ele não gostava de estudar é claro, mas talvez até estudar fosse melhor do que fazer nada.
— Não precisa se preocupar, eu não fico entediado facilmente.
Aisha sorriu com malícia — veremos
*****
Miguel estava sentado em uma poltrona com um quadro à sua frente, Aisha estava de pé a sua frente pensativa, uns óculos pairavam sobre seus olhos… O que a deixava estranhamente atraente.
Ali é claro, era o convés do navio, agora estava diferente no entanto… Onde antes havia sofás com alguns livros, agora tinha apenas uma poltrona virada em direção ao quadro negro que estava em uma parede, sim era literalmente um quadro negro… Aqueles que se viam em escolas… Talvez Miguel estivesse enganado com a ideia de que aquilo seria divertido.
Segurando um giz branco, Aisha finalmente quebrou o silêncio com sua voz doce.
— Bem, primeiramente, tudo o que você faz com sua vontade consome essência espiritual… Ou An se preferir
Fazendo uma pausa para tomar um pouco do café que segurava com a outra mão, ela continuou.
— Cada pessoa tem uma quantidade de An em sua alma, se ela zerar… Você se torna um raso
Uma luz de entendimento apareceu na cabeça de Miguel, ele já suspeitava sobre aquilo… Mas agora tinha certeza, Antônio havia roubado essência de todos em Curitiba, por isso lá só haviam rasos.
Não se importando com a reação esquisita do garoto, ela continuou.
— Como saber quanto An tem na alma de uma pessoa?
A pergunta foi para Miguel, seus olhos se estreitaram, até que ele respondeu.
— Com algum medidor? Murmurando baixinho ele acrescentou — você deveria saber, você é a professora!
Ignorando as reclamações de seu aluno, ela lhe deu um sorriso caloroso.
— Certa a resposta! Quando a gente mede… Os resultados vêm em cor, do mais escuro ao mais claro!
Miguel balançou a cabeça em entendimento, dando o aval para Aisha continuar.
— Está pronto para saber a cor da sua alma garotinho!? O entusiasmo em sua voz era contagiante.
“finalmente, ação” os olhos de Miguel brilharam, ele estava esperando por este momento desde o começo da aula… E ele finalmente havia chegado.
Aisha tirou um papel de seu bolso, não era um papel comum no entanto. Vários padrões intrincados estavam sobre ele.
— Então mexe essa bunda da poltrona, Aisha disse, jogando o giz para o alto e pegando-o de volta com agilidade.
— Para sua vontade se manifestar, você precisa querer algo…
Lançando o papel em sua direção ela acrescentou — Você só precisa querer que este papel revele sua alma
“Querer?” o que isso queria dizer exatamente? Ele estava confuso, pois querer ele sempre queria alguma coisa.
Percebeu a reação de Miguel, Aisha tentou ajudá-lo.
— Melhor dizendo, se concentre em algo que você quer enquanto tenta conduzir sua essência para esse papel
— Tá legal… Acho que entendi o conceito — Miguel respondeu balançando a cabeça.
Aisha lhe deu um polegar tirando os óculos e se dirigindo à porta.
— Não tenha pressa, eu fiz isso quando tinha 5 anos… Enquanto isso eu vou tomar um ar
A expressão de Miguel foi de entendimento para surpresa em um segundo, “gênios malditos” antes de poder questionar, a garota já tinha saído do convés.
E novamente ele estava sozinho ali, sozinho não era bem a palavra, estava a sós com seu olho é claro.
Segurando o papel, ele fechou os olhos e tentou imaginar algo correndo de sua mente para seus braços, uma coisa parecida de quando ele conseguiu ligar o chuveiro.
Ele não havia revelado para Aisha que já tinha conseguido manifestar sua vontade uma vez…
Porém aquela situação era totalmente diferente… Ele estava tentando imaginar algo que não existia… O chuveiro, água caindo… Ele simplesmente já conhecia aquilo, então não foi difícil.
Porém ele precisava fazer seu An passar por suas veias, ele não tinha controle nem mesmo do próprio sangue… Ele não sabia como deveria imaginar aquilo.
“maldição” Miguel bufou após algumas tentativas, sem resultado.
Já havia se passado algum tempo desde a última visita de Aisha… A desgraçada o tinha abandonado às cegas ali, apenas verificando de vez em quando.
Então ele teve uma ideia, talvez sua abordagem estivesse errada… Até agora ele só estava tentando fazer a essência obedecer sua vontade… Lembrando do aviso de Aisha sobre tudo que envolvesse vontade gastaria An…
Naquele momento ele tentou mais uma vez, porém, ao invés de tentar apenas movimentar sua essência para seus dedos… Ele imaginou a essência saindo do seu corpo e indo em direção ao papel…
Sentindo um formigamento passar pelo seu corpo, ele fez uma careta.
Quase no mesmo instante a folha se incendiou, sua chama cinza queimou até que não sobrasse nada além de uma pequena cortina de fumaça.
Seus olhos brilharam em expectativa, Miguel estava atônito. Queria comemorar, queria saltar e gritar pelo convés… Porém estava cansado demais. Então ele apenas se recostou na poltrona, fechando os olhos enquanto soltava um suspiro cansado.
Sua cabeça estava em um turbilhão de pensamentos… “cinza, cinza”
Ele não sabia o que aquilo queria dizer… Aisha só havia explicado que as almas eram definidas da mais escura para a mais clara…
Cinza estava próximo do preto, mas também do branco…
Ele não sabia dizer, e estava cansado demais para procurar… Jogando seus pensamentos para fora, ele se deixou tirar uma soneca, ele merecia afinal…
“só 5 minutos, ela nem vai perceber”
*****
Aisha cantarolava enquanto olhava para baixo do navio…
A paisagem antes desértica havia dado lugar para um verde abundante cheio de vida, Aisha podia ver várias casas abaixo…
Crianças brincavam enquanto os adultos faziam coisas mundanas. Algumas carregavam caixas, e fardos de feno.
Outras usavam armaduras dignas de filme, com espadas em suas cinturas.
As pessoas em si não eram todas iguais a Aisha e Miguel, alguns com orelhas mais pontudas, outros com rabos esquisitos…
Outros andavam em cavalos, touros, animais que aparentavam ser lagartos gigantes… Uns até tinham asas, e voavam por cima das estradas… Porém ali não era seu destino, eles estavam a caminho da capital é claro.
Cansada de observar a cidade monótona, ela decidiu dar uma olhada em Miguel, ela não acreditava que ele já teria conseguido… Ela já tinha verificado Miguel algumas vezes, apenas para encontrá-lo resmungando para o papel…
Afinal, de onde ela vem as crianças eram ensinadas aos poucos desde o momento que nasciam.
“Ah, eu odeio ter que ensinar, é tão demorado” ela soltou um suspiro cansado…
Quando se aproximou da porta do convés, um som estranho percorreu seus ouvidos… Lá dentro, alguém estava roncando.
Os olhos de Aisha se encheram de raiva enquanto ela murmurava baixinho.
— Inacreditável, aquele maldito… Dormindo durante minhas aulas
Entrando de fininho para não acordar seu aluno indisciplinado, seus olhos se arregalaram… O cheiro de fumaça entrou em seu nariz, e aquilo só poderia significar uma coisa.
“o desgraçado realmente conseguiu”
Batendo palmas enquanto gritava para acordar Miguel, ela o surpreendeu.
— Parabéns, querido aluno… Eu nunca duvidei de você!
Miguel acordou assustado, se levantando rapidamente, ele quase tropeçou neste meio tempo.
Quando percebeu quem era ele suspirou em alívio, os lábios de Aisha se curvaram em um sorriso.
— Calma, parece que viu um fantasma… Credo, eu nem sou tão feia assim.
Miguel não respondeu, sua cara estava confusa.
— Pfft — Aisha caiu em gargalhadas.
— Meu Deus, você precisava ver sua cara.
Miguel corou momentaneamente.
— Maldição, que susto… Deixou o respeito em casa?
Balançando a cabeça ele acrescentou indiferente, confiança emanava de seu olhar.
— Eu consegui fazer o negócio do papel ali — falou enquanto apontava para as cinzas no chão.
Os olhos de Aisha brilharam em orgulho, seu aluno tinha conseguido… Claro, só conseguiu porque ela era sua professora.
— Bem, bem… Eu percebi, então… que cor?
Miguel sorriu zombando — Cinza, surpresa? Pelo visto você está diante de um dos maiores gênios da história.
Aisha não pôde evitar, ela caiu em risos mais uma vez, limpando uma lágrima do canto do olho ela falou divertida.
— Se você é um gênio por ter uma cor tão comum pfft.
Ainda rindo ela acrescentou.
— Eu sou laranja, então sou uma Deusa.
Miguel a encarou incrédulo, ele realmente tinha acreditado que era forte por sua cor ser próxima de branco… Bufando em desaprovação ele retrucou.
— Isso é culpa sua… Se você fosse uma professora melhor, teria me explicado pelo menos!
Aisha parou de rir, seu aluno estava a contrariando, isso era uma ofensa.
Com uma voz zombeteira ela o retrucou também.
— Como tem coragem de me culpar? Se pelo menos seu planeta fizesse o mínimo, você já saberia tudo isso.
Miguel respondeu melancólico — maldição
O planeta dele era definitivamente chato! Ele tinha perdido aquela discussão, mas ele sabia… Que tinha perdido apenas uma batalha, não a guerra.
Ignorando a reação melancólica do pobre jovem, ela explicou de uma vez por todas.
— Tá, tá… Tira esse beiço da cara, vou te explicar direitinho. São 7 cores… Preto, cinza, laranja, amarelo, dourado, branco e cristal…
Apontando para cima ela acrescentou — as últimas em específico são Deuses, então não é todo dia que você encontra um por aí
Miguel estava atônito, mas ele enfim tinha entendido… Ele era um dos mais fracos, aquilo o deixou mais frustrado ainda, ele tinha um ser em seu olho afinal!
“Me ajuda a te ajudar, Dália maldita”
— Enfim, não precisa se preocupar… A maioria das pessoas começam no cinza, você pode evoluir com o tempo!
Batendo uma palma ignorando a reação do garoto ela continuou.
— Agora, você ainda é só um bebê… Você acabou de aprender a engatinhar, agora para dar seu primeiro passo, você precisa aprender a manifestar seu An em coisas úteis
Dando um saltinho para trás de Miguel, uma luz avermelhada se formou em sua mão, e quase no mesmo segundo, se manifestou em um guarda chuva Wagasa, o clássico japonês… Seu cabo era preto feito inteiramente de bambu. Sua marquise avermelhada, parecia ser feito inteiramente de seda. Era belo, sua ponteira era negra como obsidiana.
Dando-lhe um sorriso ela falou orgulhosamente.
— Tipo assim!

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