Cap 4 - Piratas
Miguel fez uma careta, tampando o nariz com a mão.
Os sons de passos rápidos de pessoas ocupadas, misturados com o barulho dos carros e caminhões, fizeram Miguel quase acreditar que tudo havia voltado ao normal…
Mas era diferente, onde antes não tinha nada…
Agora havia pessoas quase translúcidas vagando junto dos vivos. Uma coisa que Miguel percebeu era que não tinha crianças, muito menos animais por aqui.
“eu com certeza preciso de um pet”
Percebendo a reação de Miguel, Antônio acenou com a mão e perguntou com curiosidade — Algum problema, Miguel?
Miguel olhou para ele com diversão. Apontando com o dedo indicador para o hospital, ele disse.
— Além do fato de que meu corpo tá ali dentro enquanto eu tô aqui? — Suspirando, ele continuou — O cheiro aqui é forte, parece até que algum animal morreu.
Antônio olhou para ele com um sorriso.
Fazendo um sinal com a cabeça para frente, ele respondeu a Miguel com toda a naturalidade do mundo
— É óbvio que alguém morreu, bobinho, estamos todos mortos — após pensar por alguns segundos, ele continuou — Além disso, a maioria dos espíritos fede, mas logo você se acostuma.
Miguel não respondeu, apenas concordando com a cabeça.
“maldição, tem alguma vantagem de ficar aqui?”
Antônio o encarou por alguns segundos, então falou com a voz alegre.
— Vamos, vamos, Miguel, a gente continua aquele assunto no caminho.
Então os dois partiram para a direita. Havia alguns prédios à distância.
Olhando em volta com nostalgia, lembrando dos momentos em que passou por ali com sua irmã para chegar ao parque, ele perguntou sem emoção em sua voz — Para onde vamos?
Antônio o encarou com o mesmo sorriso de sempre, então falou
— Vamos ali no meu cafofo pegar umas coisas — percebendo o olhar de desdém de Miguel, ele complementou — Mas isso a gente deixa pra depois.
Olhando para cima enquanto assobiava uma melodia, ele continuou.
— Onde eu tinha parado mesmo? Ah, lembrei.
Olhando para Miguel com um sorriso cínico ele perguntou.
— Lembra daquele papo de você gostar de fazer alguma coisa quando era vivo?
Ficando momentaneamente distraído, Antônio continuou
— Bem, vou ser direto e reto, é bem simples na verdade… as coisas com que você tinha afinidade quando vivo, aqui, serão suas armas — sua voz soou sombria.
Um calafrio percorreu a nuca de Miguel.
“isso realmente tá começando a parecer algum tipo de jogo”
Uma expressão pensativa apareceu em seu rosto, Miguel não falou nada, porém. Seus pensamentos logo foram interrompidos.
Lá em cima, no meio do nada, havia alguma coisa voando. Os olhos de Miguel se estreitaram para tentar ver melhor.
E quando o fez…
Seus olhos brilharam.
Lá em cima havia um navio voando, não um barco ou um iate.
Um navio veleiro, semelhante aos de piratas que Miguel só tinha visto em filmes.
Aquele assunto sempre o fascinou. A ideia de viajar pelos mares era incrível na mente de uma criança.
Porém ali, eles não estavam no mar.
O vento soprava, empurrando o navio voador, que era feito de madeira clara, suas velas avermelhadas brilhando contra o sol que quase se punha.
Era lindo.
Em suas velas havia um símbolo. Parecia ser um avião em cima de alguma coisa, ele não conseguia ver muito bem por causa da distância… Ele também reparou, que o navio era translúcido, parecendo uma miragem.
“só pode ser brincadeira”
Aquilo devia ser um sistema de aeronáutica, de navios.
Um sorriso de malícia apareceu em seu rosto.
A breve ideia de que poderia voar pela primeira vez em sua vida, não sua vida, claro, estava mais perto de um pós-vida.
“esses espíritos estão mais avançados que os vivos”
Miguel foi arrancado de seus pensamentos quando Antônio estalou os dedos e disse com diversão.
— Terra para Miguel, terra para Miguel, câmbio, câmbio.
Miguel quase se assustou. Ele respondeu ainda meio distraído.
— Ah, acho que vi um passarinho.
Antônio o encarou atônito.
— Um passarinho?
Percebendo o que tinha falado, Miguel corou. Por que ele falou aquilo, afinal?
— Deixa pra lá.
Dando de ombros, Antônio continuou o caminho.
“coisas com que eu tinha afinidade?”
Antes de entrar em coma, Miguel gostava de muitas coisas, como jogos, escrita, futebol… Miguel gostava de muitas coisas, era impossível listar tudo.
Ignorando a distração do garoto Antônio explicou.
— Bem, é isso, eu não posso ser um tipo de professor, até porque o único que vai conseguir descobrir suas habilidades é você mesmo.
Olhando para o horizonte, ele completou com a voz nostálgica.
— Como? Você vai precisar descobrir.
Miguel olhou para ele com descrença. Por que ele estava seguindo um estranho para sua casa sendo que ele não ia ensinar para ele?
“maldição, pq esse maldito é assim?”
Enquanto olhava em volta, Miguel havia percebido outra coisa também… Todos à sua volta tinham olhos brancos, sem vida…
Se questionando se seus olhos estavam daquele jeito. Franzindo a testa ele perguntou com a voz séria.
— Senhor… Por que todos aqui parecem ser rasos? — perguntou enquanto apontava para sua volta.
Miguel havia percebido que não havia encontrado ninguém com olhos normais até agora… Até porque ele não conseguia ver os olhos de Antônio.
Miguel não entendia o motivo, até porque ele não sentiu fome desde o momento que acordou ali.
Antônio não olhou para ele para responder, porém Miguel sentiu certa melancolia em sua voz… — É porque a maioria aqui já se corrompeu, Curitiba é chamada de capital do desespero por isso.
Miguel ficou em silêncio por alguns segundos…
— E você? O que faz aqui então? — sua voz cheia de dúvida.
Ele sentia que alguma coisa estava errada, mas não tinha como provar… Por enquanto.
A resposta de Antônio demorou um pouco… Mas veio em uma voz cheia de diversão.
— Porque eu gosto do clima — dando de ombros ele riu — Não era óbvio?
“Esquisito” Miguel não respondeu, ficando em silêncio o resto do caminho.
*****
Então finalmente eles haviam chegado à casa de Antônio. Já estava entardecendo, o sol estava quase se pondo, fazendo assim o céu antes nublado se tornar avermelhado…
Antônio olhou para Miguel e apontou para a casa à sua frente.
Miguel olhou surpreso. Não era uma casa normal ou um prédio comum, era uma árvore com um tronco avermelhado. Suas folhas vermelhas como sangue brilhavam com a luz do pôr do sol.
No centro do tronco havia uma porta de quase 3 metros de altura. A árvore era gigante, tinha quase 10 metros. Miguel nunca tinha visto aquela árvore ali. Na verdade, pensando bem, ele nunca tinha visto uma árvore daquelas.
Nem mesmo na internet.
“o que está acontecendo, eu podia jurar que tinha uma loja de roupas aqui”
Percebendo o olhar de Miguel, Antônio disse com um sorriso orgulhoso.
— Lindo, não é?
Apontando para si mesmo, ele exclamou.
— Eu mesmo a construí.
Ao invés de isso acalmar Miguel, o deixou mais confuso. Como ele havia construído uma árvore? Se Antônio tivesse falado que a plantou faria mais sentido.
“Bem, isso é o de menos, não tem porque eu questionar isso quando consigo atravessar pessoas”
Miguel deu de ombros e respondeu com indiferença.
— Sim, sim, muito legal — Olhando para ele, continuou — Mas por que caralhos você mora em uma árvore?
Antônio ficou sem reação, incrédulo com a pergunta.
— Não é óbvio?
Olhando para o horizonte, ele disse.
— Porque é muito legal, nunca teve o sonho de ter uma casa na árvore quando criança? — sua voz cheia de nostalgia.
Miguel o encarou sem demonstrar muita reação, então perguntou com um tom irônico.
— Bem, não, talvez sim, não sei… — Apontando para a porta com um sorriso, ele disse — Onde está sua educação? Você não vai me convidar para entrar?
Antônio apenas concordou com a cabeça e deu um passo à frente. Miguel o seguiu.
Quando ele abriu a porta, uma sensação gelada passou pelo coração de Miguel. Era uma pressão sinistra. Ele até prendeu a respiração por alguns segundos.
“maldição, isso é assustador”
Quando entraram, porém, a pressão se foi, acompanhada da chegada de um calor reconfortante.
Isso o lembrava o ar-condicionado de sua escola, nos dias gelados de inverno…
Quando ele lembrou disso, uma pergunta pairou na sua mente. Como ele ia encontrar roupas ali? Ele estremeceu. Só a ideia de ficar com as roupas sujas pela eternidade…
“por que esse maldito não explica tudo de uma vez, seria tão fácil”
Assim, os dois entraram.
Dentro da árvore era muito maior do que deveria ser. Parecia errado.
Era simplesmente impossível tudo aquilo caber ali, era bizarro.
As paredes eram de madeira de bétula requintada, o chão de pinheiro puro. O contraste claro das paredes se realçava com o chão escuro.
Por incrível que pareça, era tudo mobiliado. Estantes de livros.
Sofás e até mesmo uma poltrona de couro legítimo. Havia uma escada caracol de vidro na direita, deveria levar ao segundo andar…
Na esquerda havia uma pia de porcelana. Miguel encarou aquilo surpreso. Como poderia haver uma pia de porcelana? Era surreal.
“lunático”
No centro do lugar, onde parecia ser uma cozinha, havia um fogão a lenha. Antônio já estava a caminho de acender o fogo, então ele disse.
— Suba as escadas e vá para a direita, lá tem um banheiro — apontando para as escadas, ele continuou — Vou preparar alguma comida enquanto isso, deve ter toalhas lá.
Uma expressão de felicidade genuína apareceu no rosto de Miguel, pela primeira vez desde que acordou ali.
Ele acenou com a cabeça enquanto dizia.
— Finalmente, pensei que você estava esperando eu morrer de fome!
Miguel não tinha comido nada o dia todo, seu estômago roncava.
Antônio lançou-lhe um olhar de desaprovação, então disse.
— Se você estava com tanta fome era só falar, não tenho bola de cristal!
Acendendo um fósforo e jogando-o na lenha dentro do fogão, ele continuou.
— Tome o banho e venha, aliás… É melhor não ir xeretar por aí.
Miguel sentiu um olhar ameaçador… Mas não ligou. Acenando com a mão, não dando muita bola para o lunático de óculos, ele subiu as escadas e foi para o banho.
Quando voltasse, ele iria finalmente fazer perguntas.

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