Cap 6 - Mentiras
Um arrepio subiu pela espinha de Miguel.
— O que você quer dizer com isso? — Ele disse com a voz trêmula, sentindo o ar gelado — O que de tão perigoso poderia acontecer?
A expressão de Antônio não mudou. Ele o encarou impassível.
— Bem, não há só os espíritos e rasos pelas redondezas — soltando um suspiro ele olhou para cima — Lá fora, na escuridão… existem seres que desafiam a lógica mundana.
— Seres que podem até mesmo sentir seu olhar e lhe devolver.
Um arrepio percorreu pelo corpo de Miguel, a ideia de que seres assustadores poderiam puxar seu pé à noite o fez estremecer.
— Eu vou tomar cuidado, eu acho.
Miguel se perguntava o que poderia assustar até mesmo Antônio.
Mas isso precisaria esperar, suas pálpebras já estavam ficando pesadas. Soltando um bocejo curto ele perguntou.
— Bem, eu preciso descansar… Onde posso dormir?
Antônio ficou ligeiramente perplexo. O que fazia o garoto ser tão confiante? Talvez essa fosse sua dúvida, porém ele decidiu não retrucar.
Apontando para uma porta esbranquiçada, ele disse com a voz suave.
— Bem, é só você seguir à direita.
Olhando confuso para a porta que claramente não estava ali antes, ele lançou um olhar de suspeita para Antônio.
— Tudo bem… Então, eu vou indo, boa noite.
Não fazendo questão de olhar para trás, ele se dirigiu ao quarto. Entrando lá, finalmente conseguiu fugir da sensação fria que sentia.
O quarto era nada menos que belo, Iluminado por vagalumes que pairavam no ar.
Havia uma cama com uma bancada ao lado. Lá tinha um pequeno espelho arredondado.
Miguel não se deu ao trabalho de pensar muito. Ele estava muito cansado.
O breve momento que ficou naquela pressão fria tinha acabado com o resto de sua energia.
Então ele deitou e apagou.
Nada poderia perturbá-lo no Reino dos Sonhos.
*****
No meio da noite, a temperatura havia caído. Acordando rapidamente com uma sensação de estranheza, ele podia sentir que estava sendo observado.
Um suor frio desceu sua testa quando ele olhou para o pequeno espelho.
Lá, ele pôde ver… um homem estava agachado na porta, seu cabelo alto como um Black Power se destacando na luz dos vagalumes.
Porém, dessa vez… Ele estava sem os óculos.
Miguel sentiu uma sensação medonha de medo… Era quase como o vale da estranheza.
Ele sentiu que poderia ser morto se encarasse seus olhos, Lá onde deveriam haver dois globos cheios de vida.
Tinha apenas escuridão, um vazio mais profundo que o da própria lixeira.
Antônio não tinha olhos.
Percebendo isso, Miguel fechou os olhos e tentou esquecer daquilo. Ele ainda lembrava de quando o desgraçado tinha o dito sobre seres que sentiam olhares.
“Eu sabia que esse desgraçado não cheirava a coisa boa.”
Naquele momento, ele percebeu que não estava mais tão seguro.
E pensar que a primeira pessoa que ele quase confiou fosse tão bizarra.
Tentando ignorar o ser que estava agachado na porta, ele se forçou a ir para o abraço dos sonhos, mais uma vez.
*****
Quando acordou, ele não se sentia bem.
Antes eram mil maravilhas, mas agora… Sua garganta estava seca.
Sua cabeça queimava em febre descomunal enquanto seus olhos ardiam como brasa.
“Mas que merda é essa?”
Era uma sensação que se assemelhava à fome, sede, sono… Tudo misturado.
Será que aquilo era sobre ele estar enlouquecendo?
Sua essência estava finalmente se esgotando? Ou era apenas alguma coisa que Antônio tinha feito para ele durante a noite?
Ele não sabia nem mesmo se o que Antônio tinha falado sobre essência era verdade…
“Nesse angu tem caroço.”
Aquilo o fez entrar em alerta. Será que o desgraçado de óculos tinha feito algo durante a noite?
Alguma coisa dizia que ele não deveria perguntar. Afinal, revelar que sabia sobre aquela situação da madrugada poderia resultar em seu fim.
Quando tentou se levantar, ele quase caiu. Sua cabeça girou e suas pernas bambearam. Ele se segurou na cabeceira da cama.
Ficando cara a cara com a porta pálida, ele estava receoso.
“Será que eu devo?”
Soltando um gemido, ele caminhou até a porta.
O aroma doce de café permeava o ar.
Mas aquilo não o fez esquecer do olhar vazio do ser que deveria estar na cozinha, pela primeira vez desde que acordou naquele hospital.
A sensação de que, se olhasse o rosto de Antônio novamente, não iria conseguir se segurar.
Encarando a porta por alguns minutos, ele finalmente criou coragem. Ignorando as dores em seu corpo, ele foi cambaleando em direção à cozinha.
E lá estava ele, tomando café como se nada tivesse acontecido.
O que o fez se perguntar se tudo não passara de sua imaginação.
No entanto, aquela dúvida logo sumiu. Ele não duvidaria de si mesmo.
Percebendo o olhar de Miguel, Antônio disse calmamente.
— Parece que alguém não dormiu tão bem. Você está com uma cara péssima.
Escondendo seu ódio atrás de uma máscara, ele respondeu forçando um sorriso. Uma gota de suor gélido percorreu sua testa.
— Acho que tive pesadelos — Sua voz não continha nenhum tom de brincadeira ou piada.
Miguel não conseguia mais olhar para o sorriso do velho da mesma forma. Era angustiante.
Ignorando o clima pesado, Antônio ofereceu-lhe uma xícara de café e apontou para alguns pães torrados na mesa.
Recusando a oferta de Antônio, Miguel falou com desânimo.
— Acho melhor eu tomar um banho antes.
Antônio não se importou, engolindo um pedaço de torrada com manteiga — Ah, tudo bem. Estou aqui qualquer coisa.
“Maldito vil.”
Suas pernas estavam cada vez mais rígidas enquanto subia as escadas. Ele nunca desviou o olhar da figura de Antônio.
E lá estava ele, mais uma vez, frente a frente com as portas.
Ele precisava encontrar alguma coisa para ajudá-lo a fugir.
Ele sabia que estava chegando a hora de restaurar um pouco de sua essência. Ele já não estava mais aguentando, era uma tortura.
Cada minuto que se passava, ele sentia que menos existia. Era indescritível.
Ignorando a dor, ele observou as portas.
A lembrança do aviso de Antônio passou por sua cabeça… Mas ele tinha escolha?
Então seus olhos se arregalaram. A cerca de 50 metros dali, no corredor.
Uma das portas gigantes alcançava seus 6 metros.
Porém, tinha uma diferença. Aquela em específico tinha um símbolo.
Era um olho com algum tipo de flor brotando dela.
“Vai precisar ser essa daí.”
Miguel não estava confiante de que encontraria sua salvação ali, porém ele não tinha outra escolha.
Correndo ofegante o mais rápido que conseguia em direção à porta, ele ficou frente a frente com ela.
Tinha 3 vezes o seu tamanho, emanando uma sensação de divindade.
Miguel sabia se aquela sensação vinha de algo religioso ou de algum profano…
Por que Antônio teria alguma coisa tão religiosa por aqui? Miguel ficou inclinado a acreditar que era a outra opção.
Sua respiração ficou presa. Seus dedos tocaram a testa, desceram ao peito e passaram pelos ombros enquanto fazia o sinal da cruz.
“Bendito seja Deus Pai.”
Miguel nunca foi o mais religioso. Ainda assim, passou parte de sua vida rezando com sua família, tinha se tornado automático.
Usando o peso do próprio corpo para empurrar a porta, ele a arrastou pelo chão, produzindo um rangido agudo.
Lá dentro.
Uma melodia suave pairava no ar.
A sala era escura, com apenas seu centro iluminado com uma luz etérea.
E, envolta pela luz, repousava uma figura de beleza sobrenatural.
Com suas longas vestes verdes e amarelas que se moviam com a brisa. Miguel não sabia de onde vinha o vento, porém não ousou questionar.
Coberta por um manto azul adornado por estrelas, uma máscara ornamentada ocultava completamente seu rosto, tornando impossível distinguir suas emoções.
Ela cantarolava baixinho enquanto dedilhava as cordas da viola, uma melodia estranha e familiar ao mesmo tempo.
As notas ecoavam pelo ambiente, tornando-se quase palpáveis. Despertavam uma inquietação que Miguel não conseguia explicar.
Seu rosto permanecia oculto sob a máscara ornamentada, tornando impossível decifrar suas intenções. Ainda assim, ele tinha a sensação de estar sendo observado.
Atrás dela, dois enormes chifres dourados arqueavam-se para o alto. Flores cresciam ao longo de suas curvas como se a própria natureza os tivesse reclamado para si. Eram belos, mas havia algo profundamente antinatural naquela visão.
A figura continuou a tocar sem demonstrar notar sua presença.
Encarando-a por alguns segundos, esquecendo a regra que Antônio havia lhe ensinado, sobre não encarar.
Era magnífico, era lindo.
Enquanto Miguel parecia esquecer do mundo à sua volta, uma voz feminina quase angelical o fez estremecer.
— Olá, humano. O que procura diante da sabedoria sagrada?
A voz era tão bonita quanto o ser e sua melodia. A voz doce era aconchegante.
Porém, Miguel estava muito assustado para apreciar a beleza.
Seu rosto estava pálido. Ele precisava de respostas.
— Eu preciso… De essência… Já estou aqui há mais de um dia… E não consumi ninguém.
A entidade o encarou com desdém.
— Eu não irei satisfazer desejos egoístas de um mero humano.
O olhar de Miguel congelou.
“O-o quê?”
Ele não entendia. Onde querer viver era um desejo egoísta? Não encontrando resposta, ele decidiu perguntar.
— Eu só quero viver. Onde isso me torna egoísta?
Sua voz quase de choro.
A entidade o encarou com certa compreensão, pelo menos era o que Miguel imaginava.
— Pobre garoto, tão novo, caindo nas mentiras daquele tolo vil.
Miguel a encarou com surpresa. Ela estava falando de Antônio.
Ignorando a reação do garoto, ela continuou — Ninguém morre naturalmente por falta de essência, garoto. A única verdade é que o velho lunático está te consumindo, pouco a pouco.
Seu rosto empalideceu.
Ele sabia que Antônio não era flor que se cheire, mas não imaginaria isso.
Naquele momento, uma luz de entendimento brilhou em sua cabeça. Ele havia caído direto no abatedouro do ser vil.
Toda a história dos rasos, essência… Era tudo um teatro. Aquilo queria dizer que todos os rasos aqui foram consumidos por Antônio? Ele não sabia.
Mas Miguel não podia ficar parado. Ele precisava sair dali para ter alguma chance.
E então a entidade perguntou com a voz melodiosa — O que é você, humano? Nem morto e nem vivo.
O olhar de Miguel se estreitou enquanto encarava a entidade.
— Bem, eu entrei em coma até onde eu sei.
O clima esfriou rapidamente, fazendo a espinha de Miguel congelar.
A voz da entidade passou de melodiosa para sombria em um instante.
— Isso é raro, humano. Aconselho que não saia por aí contando para todos.
Com a máscara quase ilusória não demonstrando nada, ela acrescentou.
— Até porque uma alma entre a vida e a morte é bastante valiosa no Mercado Invisível.
Sua testa franziu. O que diabos era um mercado invisível?
“Por que alguém compraria uma alma? Isso é vendível?”
Eram muitas perguntas, poucas respostas e menos tempo ainda.
Ele precisava sair logo dali. Talvez Antônio já estivesse subindo as escadas. Ele não sabia e não conseguia evitar o pensamento.
Engolindo seco, ele tentou esconder o nervosismo, sem resultado.
— Eu não entendi o que você quer dizer com isso — Apontando o dedo para si mesmo, ele disse com a voz trêmula — Eu preciso sair daqui se quiser viver.
A figura ficou em silêncio por alguns segundos, fazendo Miguel estremecer com a ideia de que não ganharia ajuda.
E então a figura riu. Era uma risada aguda e irônica.
— Eu tenho uma proposta, mortal — Dedilhando levemente a viola, ela continuou — Deixe-me acompanhá-lo em sua jornada, dentro de seu olho.
Miguel a encarou com confusão e então perguntou com desaprovação no olhar.
— Por que? Não seria mais fácil você sair por aí e viver sua vida? Não parece que você seja fraca.
Dessa vez a entidade não riu, no entanto ela disse em desaprovação.
— Você prestou atenção no que eu disse? Você está sendo consumido por aquele ser maligno.
Encarando Miguel por alguns segundos, ela continuou.
— Se eu entrar no seu olho, provavelmente em alguns dias você já vai estar melhor, e não será mais consumido.
Olhando para a escuridão infinita, ela acrescentou com tristeza.
— Além disso, estou destinada a ficar aqui, pela eternidade.
Miguel congelou. Será que aquele maldito tinha alguma coisa a ver com isso também? Ele não duvidaria… E então Miguel ouviu passos.
Passos pesados.
E uma voz zombeteira veio do corredor.
— Miguel, Miguel… Acho que precisamos conversar, tem tanta coisa que preciso lhe ensinar.
Tirando Miguel de seu devaneio, a entidade disse.
— O que me diz, garoto?
Confiar em uma entidade sinistra e bela parecia loucura. Mas confiar em Antônio seria pior.
O tempo para pensar era curto, quando viu uma sombra se erguendo no corredor.
Ele estremeceu, porém ele já tinha se decidido — Posso perguntar seu nome?
A pergunta repentina não causou nenhuma reação na entidade.
— A última vez que tive um nome, era Dália — sua resposta era calma e nostálgica.
Miguel a encarou e então disse com um sorriso forçado.
— Muito prazer, Dália. Sou Miguel… Agora tira a gente daqui, rápido!
Quando Antônio entrou na sala, ele não viu nada além da viola no centro iluminado. A voz angelical já não podia ser ouvida.
Os óculos de Antônio se quebraram no aperto de seu punho, enquanto murmurava com ódio reprimido.
— Não adianta tentar se esconder. Eu sinto seu cheiro, criatura.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.