Cap 7 - Além da terra
Um garoto jovem estava estirado sobre o chão de areia, completamente apagado.
Seus cabelos negros brilhavam com o sol arrasador…
Agachada ao seu lado, uma garota parecia oscilar entre a preocupação e a impaciência.
Seus cabelos pretos com mechas brancas e desgrenhados contrastavam com sua pele clara e pálida…
Seus olhos lilás claros eram inumanamente lindos.
Algumas pintas cobriam suas bochechas.
Vestida com uma calça preta esfarrapada, coturnos gastos e um corta-vento negro, ela parecia mais uma guarda perdida do que alguém prestes a oferecer ajuda.
Sem muita cerimônia, começou a cutucar a bochecha dele com o dedo indicador.
— Ei… — Ela murmurou, inclinando a cabeça — Será que dá para você acordar agora?
Os olhos do garoto se abriram. Um era castanho e o outro era verde esmeralda.
O ar seco e árido entrou pelas suas narinas, quase o fazendo espirrar.
Levantando uma mão para tampar o sol escaldante, ele olhou para o lado.
A figura esguia da garota fez suas pupilas dilatarem.
Era bela.
“Que visão”
— Ei, você está vivo?
A pergunta o tirou de seu devaneio.
— Acho que sim — Um gemido baixo escapou de seus lábios
—Onde estou?
A garota o encarou com curiosidade, e então respondeu.
— Bem, agora você está no deserto sombrio, norte de Umbrália
Ele não fazia ideia do que aquilo deveria significar. Ele nunca tinha ouvido falar sobre esse lugar.
Percebendo a confusão do jovem, a moça acrescentou.
— seguinte, eu estava de passagem quando vi você jogado no chão…
“Bem, não pode piorar, não é?”
Definitivamente poderia.
Se levantando com um sorriso contagiante, ela se apresentou.
— Me chamo Aisha
Tentando raciocinar a situação, ele respondeu com um sorriso forçado.
— Prazer, sou Miguel
Estendendo a mão para ajudá-lo a se levantar, seus olhos lilás se contraíram em uma pergunta.
— Olho maneiro, você usa lentes
Miguel deu de ombros.
— Não, são naturais — mencionou esfregando as têmporas com um olhar confuso.
“O que tem de errado com meus olhos?”
Ao ser puxado por Aisha, seu corpo se desequilibrou, quase caindo.
— Você está bem?
A pergunta preocupada de Aisha veio em sua direção.
— Melhor do que nunca
Percebendo as roupas estranhas de Aisha, ele perguntou.
— Você não sente calor com essas roupas pretas?
Aisha não respondeu sua pergunta, no entanto, já se virando para ir.
— Olha, você não está em posição para falar de roupas
Olhando-o de cima a baixo enquanto soltava uma risada abafada.
— Usando calção e chinelo em um deserto moribundo, não tem medo de pegar uma insolação? — Aisha já estava andando.
Miguel correu para alcançá-la enquanto olhava ao redor.
O deserto fazia jus ao seu nome. Ele não conseguia ver nada à sua volta além de areia, porém quando olhou mais à frente, seus olhos brilharam.
Um barco do mesmo modelo daquele que ele havia visto pairava na areia sem tocá-la. Era bem menor, obviamente, e não era translúcido como o que ele havia visto em Curitiba.
— Para onde você está indo? — Miguel perguntou arqueando uma sobrancelha.
Aisha parou por um segundo, lançando-lhe um olhar provocador.
— Como assim para onde? Estou a caminho da capital do sul, Malei
Enquanto balançava a cabeça, ela apontou para o navio voador.
— Aquele ali é meu barquinho, eu mesmo o reformei… E você, vai para onde, menino esquisito?
Miguel não precisou pensar muito na resposta, afinal ele não tinha muitas escolhas.
— Com você, é claro. Para onde mais eu iria
Sua resposta indiferente fez a garota soltar uma gargalhada. Não era tão angelical como a de Dália, mas ainda era bonita.
Tampando a boca com a mão para segurar a risada, ela o respondeu.
— Sendo bem generosa, se você me pagar pela carona, talvez eu aceite.
“Eu não tenho dinheiro, nem sei onde estou… Maldição”
Franzindo os lábios, Miguel não teve escolha.
— Não tenho dinheiro, mas posso te ajudar no que puder.
A garota o encarou com uma carranca e então balançou a cabeça.
— Não sei o que você aprendeu na escola, mas aqui nós fazemos negócios com essência de alma, ou coisas de valor.
Encarando-o, ela perguntou com deboche — Você por acaso nasceu ontem? — Seus lábios se curvando em um sorriso.
— Na verdade, eu morri hoje… Então sim, basicamente
Aisha piscou algumas vezes com a resposta de Miguel. Seu sorriso desapareceu lentamente.
— Espera… Você está falando sério?
Miguel apenas acenou com a cabeça.
— Cara, mano, você é bem azarado pelo jeito… Morrer e vir logo no oeste…
Fazendo algo que parecia um sinal com os dedos, a garota disse com a voz cheia de melancolia.
— Parece que até os deuses te abandonaram — ela caiu em gargalhadas, rindo da própria piada.
“Ah, que bom, mais uma maluca”
Quando a risada dela acabou, ele finalmente achou uma brecha para falar.
— A situação é, eu não sei onde estou, por que, eu não sei nada…
Segurando a risada, a garota disse enquanto limpava uma lágrima do canto do olho — Assim, assim, está tudo bem.
Soltando um riso involuntário, ela continuou.
— Pessoas como você são bem comuns, não no oeste, é claro. Aqui é basicamente um cemitério vivo.
Aquelas palavras o fizeram estremecer… Como poderia ser tão azarado? Talvez fosse intencional de Dália o mandar para lá, ele não sabia.
“Aliás, onde aquela maldita está agora”
— De onde você veio, afinal?
A pergunta tirou Miguel de seu devaneio… Como assim? De onde mais ele viria… Da Terra, obviamente.
Sua resposta veio com hesitação. O que ela queria dizer com aquilo?
— Bem, eu vim da Terra, obviamente. De onde mais?
Aisha não demonstrou reação.
— Legal, legal… Isso seria uma cidadezinha?
A pergunta de Aisha era sincera. Ela não parecia conhecer a Terra.
O rosto de Miguel empalideceu. Ele não entendia o significado daquilo. Como alguém não saberia o que era a Terra?
— Bem, a Terra é de onde eu vim…
Interrompendo Miguel Aisha levantou a mão e disse.
— aaah, lembrei… Já ouvi histórias desse canto aí, dizem foi abandonado até mesmo pelo profano — Aisha se aproximou, estudando seu rosto com curiosidade.
Miguel sentiu as bochechas esquentarem e desviou os olhos.
“Abandonados? Eu sabia que meu planeta era chato… Mas abonados?”
Ignorando a tristeza de Miguel Aisha disse com entusiasmo.
— como você parece meio bobinho eu vou te dar uma dica de ouro! — dando de ombros ela acrescentou — O mundo é infinito…
Os olhos de Miguel se estreitaram em confusão… Esse era aquele papo sobre multiverso e tal?
“Eu deveria ter visto mais filmes sobre isso”
Lançando um olhar de curiosidade para Miguel, Aisha perguntou com hesitação.
— Olha… Não sei se é muito normal perguntar, mas… Como você morreu!?
Miguel ficou boquiaberto. Que tipo de pergunta era aquela…?
Como ele responderia? Ele nem tinha realmente morrido.
“Dália disse para mim não sair por aí falando sobre o coma… Ah, Deuses, o que eu faço”
Miguel pigarreou, desviando o olhar antes de responder…
— Bem, eu fui… Atropelado?
Com convicção, ele acrescentou.
— É, eu fui atropelado, por um… Carro, muito rápido
Assumindo uma pose confiante, até porque quem duvidaria daquela história?
— Nossa, que triste… E chato… Tipo, que sem sal
Miguel ficou visivelmente desconcertado.
Quem em sã consciência falaria que a morte de alguém foi chata? Era para ser legal?
Aisha não se importou com sua reação.
— Vejamos, eu morri…
Fazendo sinal com as mãos apontando para o céu, tentando fazer duas asas.
— Quando um dragão apareceu na minha vila, e então dizimou todos nós. Eu até tentei lutar — tristeza apareceu em seu rosto enquanto acrescentava.
— Mas não adiantou muito. Era um dragão de alma dourada de qualquer forma
“Dragão? Espera, o quê?”
Os olhos de Miguel brilharam em entendimento, pelo menos meio entendimento…
Onde ele estava não era só um pós-morte. Era o pós-morte… De todos os lugares…
Isso queria dizer que outros universos existiam, e dragões.
“Meu Deus, dragões”
— Dragões?? — Miguel perguntou, soltando um suspiro abafado.
Ignorando o surto de Miguel, Aisha apenas respondeu indiferente.
— O que tem demais? Era só um dragão.
Miguel a encarou, balançando os dedos em negação.
— Só um dragão? O que você quer dizer com isso? Dragões são seres místicos de histórias.
Um sorriso de lado apareceu no rosto de Aisha.
— De onde você vem não tem nem dragões?? Não me admira eu não conhecer.
Toda aquela história era demais para Miguel. Parecia que ele estava em uma web novel ou um mangá…
Murmurando baixinho, cabisbaixo, como poderia seu planeta ser tão, tão… Chato? Era simplesmente chato, não tinha nada de especial.
Aisha parou de rir por um momento. Será possível aquele jovem ser tão coitado assim?
Aquilo pareceu acender uma chama dentro de seu coração…
Ela sempre foi uma garota muito humilde e prestativa. Ela simplesmente não conseguiria deixar o coitado para sofrer ali…
O pobre coitado ficou impressionado com meros dragões.
Aisha não pôde evitar uma risada fraca ao imaginar a cena do garoto descobrindo sobre os seres incríveis que tinham por ali.
Miguel ainda estava atônito. A ficha não tinha caído completamente. Era muita informação.
Até uns momentos atrás, ele estava fugindo de Antônio… Pensar nele o fez estremecer.
Soltando um suspiro pesado, ele finalmente falou.
— Bem, Aisha, você poderia me dar tal carona?
Ele finalmente iria realizar o sonho de criança de ser um pirata. Não um pirata de verdade, ainda mais legal… Um pirata voador.
Quem mais teria realizado este feito?
Aisha o encarou por alguns segundos, então lhe deu um sorriso…
— É claro, pequeno Miguel, e de brinde eu lhe apresentarei Malei, a maior e mais evoluída cidade espírita
Já caminhando em direção ao barco sem esperar uma resposta de Miguel, soltando uma melodia de assobios pelo caminho.
A areia rangia sob seus pés.
“E lá vamos nós”
Assim, Miguel a seguiu até o navio.

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