Cap 8 - Presságio
O barco voador era como se tivesse saído de um filme de fantasia. Seu casco de madeira escura era intricado, enquanto duas grandes velas vermelhas capturavam a brisa quente do deserto. Em suas laterais, enormes balões de tecido reforçado mantinham o navio flutuando sem tocar a areia, balançando suavemente a cada corrente de ar.
Em suas laterais, ao lado dos balões, havia janelas fechadas. Miguel acreditava que estavam escondendo canhões ou alguma arma mágica.
Na proa, uma estrutura metálica lembrava o chifre de um unicórnio. Miguel se perguntava se aqueles cavalos místicos existiam nesse mundo. Ele estava propenso a acreditar que sim.
Cordas, mastros e ferragens entrelaçavam-se por toda a embarcação, criando a impressão de uma máquina antiga e engenhosa. Visto de longe, parecia menos um navio e mais uma criatura majestosa…
Era bem menor do que o que ele tinha visto voando pelos céus de Curitiba, possuía cerca de 10 metros de comprimento, além de não possuir o símbolo…
— Vem cá. — Aisha esticava a mão para ajudá-lo a subir.
Um grunhido escapou de seus lábios. Não estava baixo, afinal… Mesmo quando não voava, estava planando acima da sua cabeça, apenas segurado por uma âncora em forma de lua.
Miguel ficou boquiaberto. Dentro da embarcação… Era antigo, muito antigo…
Diferente da madeira intocável por fora, por dentro estava velha, rangia a cada passo, exibia muitas marcas de antigas batalhas.
— Como esse trambolho voa? — Miguel perguntou com curiosidade. Ele também queria poder pilotar algum dia.
Aisha o encarou com confusão por alguns segundos.
— mas que tipo de pergunta é essa? — coçou a cabeça enquanto acrescentava. — Voa à base de vontade e essência espiritual obviamente.
Miguel ainda não entendia muito sobre aquilo. O máximo que ele tinha feito era ligar um chuveiro.
— Ah sim… — seus lábios se franziram, Miguel explicou. — Na verdade… Eu não entendo muito sobre isso.
Aisha sorriu, e então caiu na gargalhada enquanto apontava o dedo para Miguel com a outra mão na barriga.
— Pfft! Espera, espera! — inspirando profundamente para segurar a risada. — Nem isso tinha no seu mundo? — Aisha perguntou enquanto ria entre os dentes.
Ele abaixou a cabeça, desapontado. Como existiria? Em seu mundo, a maior coisa que fizeram foi mandar o homem para o espaço…
Aqui, a ideia de voar parecia tão mundana… Miguel bufou antes de responder.
— Tá, tá, já deu. — murmurando baixinho, ele acrescentou. — Eu já entendi que seu mundo é mais legal.
Aisha o encarou incrédula.
A situação era bem pior do que ela havia imaginado. Sua ideia era dar uma carona e apresentar Malei para o menino…
Porém, ele nem mesmo parecia saber o que significava a vontade… Um pensamento passando por sua cabeça, seu olhar distante.
“Pobrezinho, como pode alguém viver uma vida sem usar a vontade…”
Percebendo o silêncio constrangedor, ela pigarreou.
— Olha, vamos parar com esses papos tristes.
Indo em direção à popa do navio, ela lhe deu um sorriso malicioso. — Você quer saber o seu futuro?
Os olhos de Miguel brilharam. Seria mesmo possível? Se fosse… Ele tinha uma pergunta que precisava responder.
“Eu acordo do meu coma no futuro?”
A pergunta vagou por sua mente, seu olhar perdendo o brilho.
— Não me diga que vai ler minha mão ou algo do tipo.
Aisha o encarou com um olhar confuso. Talvez ela nem soubesse o significado daquilo.
— Ler mãos? Nem sei o que isso significa. Agora… Ler cartas, é comigo mesmo.
Miguel ficou surpreso. Havia tanta convicção em sua voz que era difícil duvidar. Ele não entendia muito sobre esses assuntos, e estava inclinado a não acreditar… Porém, nesse mundo, ele não duvidaria de nada.
Ignorando a reação de Miguel, ela disse apontando para o convés superior. — Eu vou fazer o velho Soulwail funcionar. Me espera no convés… Deve ter alguma coisa para você comer lá, fica à vontade.
Miguel a encarou com a pergunta visível em seus olhos. Percebendo isso, Aisha o explicou. — Soulwail é o nome do navio.
Miguel pareceu sentir certa melancolia em sua voz, porém não se importou.
— Então tá, vou lá.
Quando começou a caminhar em direção ao convés, percebeu uma coisa… Por que eles se despediram? A popa para onde Aisha havia ido… Era literalmente em cima do convés. Eles fizeram todo um drama sem motivo.
Suspirando, ele abriu a porta do convés. O ar úmido entrou em suas narinas, o livrando um pouco do calor sufocante…
Ele nem se importou em pensar sobre o motivo do ar ser úmido e gelado ali, se acostumando com as bizarrices pouco a pouco.
O convés era iluminado por uma lanterna com fogo flutuante no centro do teto. Ele podia ouvir os passos de Aisha acima.
À sua esquerda, tinha armários, uma geladeira cor de marfim com algumas anotações em sua porta.
Também tinha um fogão, uma torneira… Algumas panelas estavam secando em cima da pia.
No centro da sala, tinha uma mesa com 4 cadeiras almofadadas.
À sua direita, havia dois sofás de couro vermelho… Entre eles, livros estavam abertos se banhando da luz do sol que caía da janela ao lado enquanto descansavam em cima de uma mesinha de centro.
Bufando, Miguel se dirigiu à geladeira.
“Por que tudo por aqui é tão anacrônico?”
E então, antes de chegar a seu destino, suas pernas o traíram. Ele quase caiu com o movimento repentino do barco.
O barco estava voando. Enquanto tentava se estabilizar, uma piada passou por sua mente.
“Bem… Sonho realizado?”
Ele não pôde evitar rir da própria piada.
Finalmente chegando à geladeira, abrindo-a, ele encontrou de tudo, desde ovos comuns a uma raiz que se contorcia em um vaso.
Seu rosto empalideceu. Pegando rapidamente algo que parecia ser um iogurte, ele fechou a geladeira.
— E eu impressionado com Aisha aguentar o calor.
Definitivamente, a garota tinha muitas coisas estranhas. Assim, ele se sentou em seu aguardo.
*****
Na popa do navio, uma garota de pele alabastro segurava o leme. Seus olhos lilases perdidos no horizonte, cabelos parecidos com a pelagem de um panda dançavam diante do vento quente.
“Terra… Terra… Por que este assunto me fascina tanto?”
Franzindo as sobrancelhas ela murmurou.
— Será que vale apena ajudar aquele esquisito só por curiosidade?
Dando um tapinha no leme que era feito de madeira mais clara, fazendo uma careta, ela proclamou. — Deuses do ar, me emprestem seus poderes mais uma vez. Seus olhos brilhavam.
Nada aconteceu por um momento, e então o vento ficou mais forte, e então ainda mais.
E finalmente, o navio se ergueu imponente diante dos céus azulados.
— Eu realmente preciso recuperar minha essência, não devia demorar tanto.
Assim, ela desceu em direção ao convés.
*****
Miguel esperava pacientemente a garota, e então a porta se abriu.
“Finalmente.”
Aisha entrou na sala, uma gota de suor passava por sua testa… Se sentando à sua frente, ela abriu um sorriso.
— E então? Pronto para saber o seu futuro?
Sem esperar a resposta de Miguel, Aisha enfiou a mão no bolso de sua blusa fina, puxando um maço de cartas antigas amarradas por um cordão de couro gasto.
Elas pareciam feitas de um pergaminho pesado. As bordas, um dia douradas, já estavam bem gastas pelo tempo.
— Funciona assim, presta atenção… — ela disse desfazendo o nó com agilidade, começando a embaralhar.
Miguel ficou momentaneamente surpreso. Aquilo era um baralho de tarô.
— Não vou explicar duas vezes. — o som seco das cartas batendo umas nas outras ecoava pelo interior silencioso do barco.
— Você não precisa falar nada em voz alta… Só fecha os olhos e foca intensamente na pergunta que você quer resposta.
Dando lhe um sorriso de lado, ela continuou. — Sua vontade vai guiar as cartas.
Miguel engoliu em seco…
— Você deve sentir um certo desconforto, já que nunca manifestou sua vontade antes… Mas não é nada demais.
Fechando os olhos, sua mente viajou direto para aquela sala gélida de hospital em Curitiba.
“Eu vou acordar do meu coma no futuro? Eu vou voltar para casa?”
Uma carranca surgiu em seu rosto quando um formigamento se espalhou por seu corpo enquanto a pergunta vagava por sua mente por alguns segundos.
— Pronto, abre os olhos e puxa três cartas… Uma por uma.
Disse Aisha espalhando o baralho em um leque perfeito sobre a mesa de madeira velha que rangia.
Hesitando por um momento, Miguel olhou para os versos das cartas que tinham o desenho de uma espiral cinzenta.
Estendendo a mão, ele sentiu um leve formigamento nas pontas dos dedos ao tocar na primeira carta, colocando-a na mesa.
Depois pegou a segunda mais à esquerda…
E por fim, sentiu um puxão estranho no peito ao tocar em uma bem no meio do leque.
Ele puxou as três.
Aisha deu uma batidinha de leve com os dedos na mesa com um sorriso.
— Vejamos o que o destino diz sobre o coitado…
Virando a primeira carta, a imagem mostrava um jovem caminhando distraidamente em direção a um penhasco, com uma trouxa de roupas nas costas e um cão latindo nos seus pés.
No topo estava escrito. O Tolo.
Aisha soltou uma risada fraca.
— Olha só, não mentiu… O Tolo.
Olhando para ele, ela acrescentou.
— Ele representa o começo de tudo, o número zero… O andarilho que viaja sem rumo, sem saber onde vai pisar, basicamente você…
Miguel continuou sério, olhando para a segunda carta.
Aisha manteve o sorriso no rosto e estendeu os dedos para virar a próxima.
Seu sorriso desapareceu no mesmo instante…
A carta mostrava um esqueleto usando uma armadura negra em cima de um cavalo branco, marchando sobre vários corpos de reis e camponeses.
O nome embaixo era bem claro. A Morte.
O interior do barco pareceu esfriar um grau completo…
— A Morte… — Aisha murmurou, o deboche sumindo totalmente de sua voz.
Ela pigarreou, tentando disfarçar o desconforto e recuperar a postura.
— Bem… Você disse que morreu hoje, então faz sentido mostrar isso… Mas no tarô, ela também significa destruição total, o fim de uma era… Uma força que limpa o tabuleiro.
Dando uma olhada rápida para o olho verde esmeralda de Miguel, ela engoliu em seco.
Suas mãos estavam um pouco trêmulas quando ela se aproximou da última carta, a carta do futuro.
No segundo em que ela virou o pergaminho, o barco deu um estalo violento… Como se uma lufada de vento invisível tivesse batido com força no casco.
A imagem exibia uma criatura gigante com chifres de bode e asas de morcego, empoleirada em cima de um altar.
Aos seus pés, duas pessoas estavam acorrentadas pelo pescoço.
O Diabo.
Aisha congelou completamente, seus olhos lilases se arregalaram tanto que suas pupilas quase sumiram.
Ela olhou para a sequência das três cartas na mesa.
O Tolo, a Morte e o Diabo…
O andarilho que traz a ruína e termina coroado por um pacto sombrio.
Aisha empalideceu. Em toda sua vida, ela já havia visto combinações ruins.
Guerra.
Fome.
Morte.
Mas nunca aquela, nem uma única vez.
— O que foi? — Miguel perguntou, sentindo um calafrio na espinha com a reação da garota.
— É tão ruim assim?
Aisha não respondeu de imediato… Recolhendo o baralho lentamente.
Abrindo um sorriso, um sorriso completamente falso, ela finalmente respondeu. — Claro que não.
Ela recolheu as cartas e desviou o olhar.
— Só… não era o que eu esperava.
O cordão de couro escapou de seus dedos na primeira tentativa, xingando baixinho antes de conseguir amarrar o baralho.
Miguel franziu a testa. Aquilo definitivamente parecia mais grave do que ela estava tentando fazer parecer.
Por mais que insistisse, Aisha não tocou mais no assunto enquanto seguiam para Malei.

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