Um feixe de luz amarelado batia no rosto de um jovem de cabelos ébano, ele pensava em silêncio. Então ele piscou lentamente.

    Desta vez, ele não tinha sonhado… Nada interrompeu sua noite de sono, ele estava sobre uma cama de palha, coberto por uma pele de animal. Ele encarava o teto friamente.

    — Maldição! — a voz resignada do garoto era a única coisa que quebrava o silêncio.

    Ele estava desde o momento em que acordou, organizando os acontecimentos em sua cabeça, como um mapa mental.

    Sua essência já havia se regenerado, pelo menos ele acreditava nisso.

    “Primeiro, Antônio… Ele estava roubando a essência das pessoas em coma…”

    Aquele assunto nunca saiu verdadeiramente de sua cabeça, ele ainda queria voltar para a casa afinal.

    “Então veio Dália, que está adormecida dentro de meu olho… Ou melhor, um Anjo caído, como Astrador a havia chamado”

    Miguel suspirou pensativo, era muita coisa acontecendo em sequência… E nenhuma tinha qualquer resolução por enquanto.

    “Então veio a joia, que eu invoquei… Com meu poder?”

    “Como eu devo chamá-lo afinal?”

    Os olhos de Miguel se estreitaram encarando o teto escuro, então uma luz veio à sua cabeça.

    — Mochila… Bolsa… Sorte — esfregando o cabelo ele se concentrou ainda mais.

    — Bolsa… Inglês… Bag.

    — Jackpot… Bagpot.

    Ele sorriu, se revirando nas cobertas.

    — Bagpot!! É isso, eu sou um gênio!

    Miguel pigarreou, percebendo que estava falando sozinho.

    “A Bagpot… É um poder que depende totalmente da minha sorte, e pelo que eu entendi, a quantidade de An que gasto depende do que vier…”

    Seus lábios se franziram.

    “A joia… O olho de Dália reagiu ao que quer que estivesse lá dentro, e daí eu sonho com Astrador…”

    Era tudo muito esquisito, quem era o ferreiro? E como ele sabia sobre Dália, ele precisaria descobrir… Se quisesse acordar do coma.

    Enquanto limpava a ramela do olho, ele se levantou da cama e vestiu seu chinelo. No mesmo instante sua barriga fez um barulho, era fome.

    Miguel não havia escovado os dentes desde que chegou em Umbrália… E isso despertou outra pergunta em seu subconsciente.

    “Como eu entendo todo mundo por aqui? Não faz sentido…”

    Seria possível todos falarem português? E essa era mais uma pergunta sem resposta para ele pensar durante a noite.

    Suspirando, ele abriu a porta do quarto e desceu as escadas.

    O cheiro de café recém passado entrou em suas narinas. Era cedinho, o sol tinha acabado de sair, ele não havia conseguido ver Aisha saindo, mesmo acordando cedo.

    A taverna estava vazia. Sem os clientes da noite anterior, o salão estava muito mais organizado e limpo. E silencioso.

    Apenas um homem se sentava em uma mesa, comendo uma fatia de pão com café.

    Uma de suas mãos mantinha um livro aberto.

    Era o dono da taverna, o mesmo velho que brincou com Aisha ontem. Chegando mais perto, Miguel quebrou o silêncio.

    — Bom dia, senhor… Como vai?

    O velho desviou seu único olho para a direção de Miguel, tomando um gole do café, ele disse.

    — Bom dia, sente-se jovem… Pegue um pouco de café e pão.

    Miguel obedeceu, antes de pegar qualquer coisa perguntou.

    — Você vai me cobrar? Porque eu não tenho dinheiro.

    Ele tinha, é claro, porém não estava a fim de gastar aqui.

    — Mas que pergunta, eu não cobraria do companheiro de Aisha. Fique tranquilo jovem! — sua voz era plana, como se nada o abalasse.

    Miguel não recusou, pegando uma xícara de café preto e um pão com algo que parecia uma fatia de queijo. Ele perguntou naturalmente, sem nem pensar.

    — Como deve te chamar senhor? — Miguel já engolia um pedaço do pão quando o velho respondeu.

    — Sou Bernabei… Alguns me chamam de Caolho Branco — pegando o cachimbo antigo que repousava sobre a mesa, ele acrescentou — Você deve ser Miguel eu presumo.

    Miguel acenou com a cabeça e então, perguntou repentinamente.

    — Bernabei, por que Aisha é tão conhecida por aqui?

    O velho Bernabei deu uma tragada, soltando a fumaça lentamente.

    — Você não é daqui, não é garoto?

    Miguel negou com a cabeça, esperando a explicação.

    — Bem… É uma longa história — Bernabei coçou a barba pensativo — Vou ser direto, ela faz uns trabalhos sujos garoto.

    A expressão de Miguel congelou.

    “Trabalho sujo? Maldição…”

    — Ela é uma boa garota, mas o mundo não foi gentil com ela — a voz do velho soava nostálgica.

    “Deuses…”

    — Bem… Ela é legal, pelo menos comigo — a voz de Miguel estava distante.

    Miguel ficou em silêncio depois dessa conversa. Quando acabou de comer, ele se despediu brevemente e saiu da taverna.

    Miguel não tinha nenhum plano para hoje, além de explorar e gastar dinheiro. Ele podia ser bastante consumista quando queria.

    Caminhando pela estrada, ele notou um grupo de crianças assistindo atentamente a um teatro de fantoches. Seus lábios se curvaram em um sorriso.

    “Crianças! Meu Deus”

    Era a primeira vez que ele via crianças desde que entrou em coma. No entanto, não eram humanas… Eram de outras raças, mas aquilo não mudava o fato que eram crianças.

    Ele continuou seu caminho, mais animado, agora. Foi então que, à sua direita, ele notou uma loja diferente.

    — Bugigangas de todos os mundos.

    O nome era bem auto-explicativo, o que fez a curiosidade de Miguel acordar. Era uma chance dele encontrar uma coisa de seu mundo… Talvez até mesmo um telefone, porém ele não estava muito confiante nisso.

    Era uma lojinha bem modesta, sua porta era de madeira comum. Não tinha janelas, nem nada espalhafatoso.

    Ao entrar no estabelecimento, um sino tocou. Era uma visão à qual Miguel estava acostumado. Aquilo parecia uma loja de esquina de seu mundo.

    Fileiras estavam cheias de itens de todos os tipos. Um homem galinha estava atrás do balcão de atendimento. Percebendo o cliente, ele falou animado.

    — Pó!! Olá, homenzinho, o que procura? — ele batia as asas em excitação — Có-có.

    Os lábios de Miguel se curvaram em um sorriso discreto.

    “Não é possível”

    — Eu queria dar uma olhada nas coisas que você tem, senhor — Miguel falou tentando segurar a risada.

    — Có? Tudo bem… Fique à vontade, qualquer dúvida estou aqui.

    Miguel deu um joinha. Enquanto andava pelos corredores, algo chamou sua atenção… Era um livro, sua capa era colorida com um título em destaque.

    “An e suas propriedades, para iniciantes!”

    Miguel olhou à sua volta para ver se o homem galinha não estava por perto. Para sua sorte, ele não estava. Agora ele poderia ler o livro sem pagar!

    Ele folheou o livro procurando alguma informação importante, o livro estava cheio de imagens coloridas, como se fosse feito para crianças do fundamental.

    “Os dois tipos de essência:

    Essência espiritual comum, o An clássico, que usamos diariamente.

    Essência espiritual pura, o An ligado à cor de sua alma. É usado para pagamentos, e para a ascensão.”

    — Isso! — Miguel comemorou baixinho.

    Ele tinha entendido, finalmente… A essência que ele usava para ativar a Bagpot, a que diminuía e recarregava, era diferente da de sua alma.

    A que ele provavelmente usaria para fazer trocas e mudar a cor de sua alma.

    “Então eu não fico mais fraco quando uso minha habilidade, eu apenas me canso!”

    — Jackpot!

    Fechando o livro antes que o homem galinha o percebesse, ele continuou a bisbilhotar. Enquanto olhava as prateleiras mais ao fundo, algo falou com ele.

    — Eii, garoto!

    Miguel olhou à sua volta procurando a origem da voz.

    — Aqui!! Olha pra baixo!

    Miguel seguiu as instruções da voz, seus olhos se estreitaram.

    Lá embaixo, preso em uma gaiola, havia uma pequena espada. Era um pouco maior que seu dedo.

    — Você vai ficar encarando ou me ajudar?

    Miguel se assustou momentaneamente, até perceber que a voz vinha da espada. Cutucando a gaiola ele perguntou.

    — O que é você?

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