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    Tudo aconteceu em questão de segundos.

    — Mas o que caralhos é isso!? — gritou uma pessoa na rua, antes de ter sua cabeça esmagada.

    Seu sangue espirrou no vidro da confeitaria, já quebrado pelos abalos que acabaram de acontecer. Sua vida foi ceifada de um modo brutal que já reconhecia. 

    Foi tudo muito rápido.

    Muito rápido.

    Portais se abriram por aquela cidade, e monstros saíram deles, destruindo quase toda aquela área. Um acontecimento impossível para quem desconhece o nosso universo, afinal, só de bater o olho identifiquei que eram Viajantes.

    O que vieram fazer aqui?

    Merda!

    — Cecília? Cadê você? — gritei em meio a todo o alvoroço. Aquela confeitaria já estava em ruínas, existindo a possibilidade de ainda encontrá-la com vida debaixo daqueles destroços.

    Queria eu ter encontrado uma vida pacífica nessa terra, mas agora estou tentando fugir mais uma vez daquilo que aterrorizou meu antigo lar. Se é que posso chamar aquilo de casa. 

    — Vem para cá, Daiane! — gritou Cecília, aparentando estar bem e salva no fundo da loja. — Conheço um caminho. 

    Corri sem que olhasse para trás, afinal, não queria correr o risco de ficar naquele lugar. Os Viajantes criam formas muito imprevisíveis e difíceis de serem acompanhadas para os seres humanos.

    Se não é um herói, então correr é sempre a melhor opção.

    Não existia nenhum ali.

    Uma única estrela que pudesse salvar aquela terra!

    Que droga, cara!

    Alcancei sua mão após um tempo, e logo fui arrastada para a porta dos fundos. Mas, antes de me despedir daquela confeitaria, dei uma última olhada na rua.

    Pessoas agonizavam de dor, dentre elas, algumas que reconhecia daquela faculdade. Haviam corpos despedaçados por toda a parte, criando um espetáculo baseado no horror. 

    O monstro não passava de uma besta. Uma mistura de aracnídeo com um grande felino era o causador de todo aquele caos. Suas patas eram usadas como lanças para perfurar todos os corpos ao seu redor, antes de os mesmos serem levados até sua enorme boca localizada na barriga.

    Meu corpo ficou congelado diante daquela cena, numa mistura nada agradável de êxtase e temor pela situação.

    Aquele cheiro de sangue entrava por minhas narinas, despertando um lado que nunca deveria deixar sair, mas, naquele momento, nada mais poderia ser escondido. 

    O que eu conhecia por sociedade foi destruída em instantes. 

    Naquele dia, eu conheci o caos na sua forma mais pura.

    Demos de cara com lixeiras e uma outra porta dos fundos que dava para a loja ao lado, algo que Cecília acabou evitando, me puxando para o que parecia ser uma pequena moto encostada nas ruínas de sua loja. 

    Ela abriu um painel escondido naquela moto, revelando vários fios que se entrelaçavam uns nos outros. Foi em instantes que aquela motocicleta começou a fazer barulho, afinal, Cecilia havia feito algo com aquela energia.

    Antes mesmo de questionar essa sua habilidade de roubo, ela me pôs na moto e começou a dirigir rapidamente por aquela cidade. A corrida começou por dentro dos becos, evitando o perigo que eram as ruas com aquelas criaturas à solta.

    — Caralho… — resmungou Cecília, visivelmente pálida.

    Sua rapidez ao agir era impressionante. Mesmo tão atordoada pela situação, conseguiu achar uma forma de fuga, até então, segura. 

    Mas… ainda sentia uma certa culpa por toda aquela situação. Poderia existir uma chance de a culpa recair sobre mim, afinal, eu não era daquela realidade. Aquele sentimento de felicidade era destinado a outra pessoa.

    Segurei o choro. 

    Tanto por medo, quanto por desgosto. Desgosto da minha própria pele. 

    Só eu tinha a capacidade de me defender por conta de minha benção, e mesmo assim, estava fugindo. Essas pessoas não tinham nada a ver com Hektar e com todo o caos que nele habita, mas mesmo assim foram afetadas por culpa de alguém. 

    — Precisamos encontrar Scarlett… — disse em meio a soluços. 

    — O que? Não! — rebateu Cecília, desviando de alguns destroços nos becos. — Eu confio na Scarlett o suficiente para saber que ela vai estar segura. Confio nisso tanto que poderia até apostar a minha vida. 

    Apostar a própria vida por outra pessoa… Isso é hilário. Como podem os seres humanos confiarem tanto assim nos outros a ponto de isso acontecer? 

    Quem dera pudesse sentir isso.

    — Mas… você precisa fazer as pazes com ela. — Segurei em sua camisa com força, as lágrimas caindo pouco a pouco. — Pelo menos agora, no fim de tudo. 

    O último ato da humanidade havia começado de uma péssima forma.

    De certa forma, já sabia o que deveria fazer. 

    — É necessário isso agora? Precisamos sobreviver, Daiane! — gritou Cecília, parando a moto num beco impossível de ser atravessado por aquele automóvel. — Vou fazer as pazes com ela, e disso tenho certeza! Mas vamos focar em ficar vivas primeiro. 

    Suas palavras entraram por um lado e saíram pelo outro. Meu destino já havia sido selado àquela terra. O cheiro do sangue era evidente naquele local, o suficiente para me fazer ir atrás desse líquido por debaixo dos destroços. 

    Cecília não entendeu o que estava fazendo, e logo tentou agarrar minha mão, mas evitei seu puxão.

    — Siga em frente, Cecília — disse, puxando o último pedaço de concreto para revelar um corpo esmagado de uma velha senhora. — Por favor, siga em frente e fuja daqui o mais rápido possível. Tenho uma ideia.

    — O que? Não seja idiota, Daiane! Você vai acabar morrendo. — Ela tentou pegar meu braço mais uma vez, e logo desviei. — Nem sabemos o que são aquelas coisas, porra! Não fode, Daiane!

    — Já disse que tenho uma ideia! Só vá logo embora. Darei meu jeito de te encontrar mais uma vez, viu? Só espere por mim. — Passei minha mão naquele sangue. — Encontre Scarlett, por favor.

    Deu para ver o nojo e a confusão que ela sentia ao observar essa cena, mas, relutantemente, Cecília parecia concordar com essa ideia. Era mais fácil fugir sozinha do que com um peso morto. 

    — Tudo bem… Vou encontrá-la para você. — Cecília cerrou os punhos. — Mas não morre, viu? Te encontro na estação ao anoitecer. 

    Essas foram as últimas palavras de Cecília naquela hora, antes de desaparecer dentro das construções. É, tudo aquilo era difícil.

    Faltava alguém que pudesse se sacrificar pelo bem de todos, e que lutasse na linha de frente na intenção de salvar a humanidade. Mas aquela sociedade não tinha heróis ou bençãos.

    Tudo isso não passava de uma bela fantasia para eles. 

    Uma linda e majestosa ficção. 

    Mas serei a tola da vez.

    Tornarei-me essa pequena fagulha de esperança, pelo menos uma vez.

    Uma única vez na vida. 

    Bebi o sangue daquele corpo morto.

    O líquido desceu por minha garganta, preenchendo todo o meu ser. Como se, finalmente, tivesse encontrado a outra parte de minha alma mais uma vez. Uma última vez. 

    Sentia modificações ocorrerem por todo meu corpo. 

    Os dentes, que um dia quebrei, cresceram em instantes, as asas, que um dia arranquei, renasceram das cinzas. E toda a minha força, que um dia abandonei, retomou ao meu corpo para dançar uma última música. 

    Era belo.

    Sentia-me bela.

    Bela pela primeira vez. 

    Feliz com meu corpo por apenas instantes.

    Mas não queria estragar essa felicidade. Esse êxtase que preenchia minha alma. 

    — Eu… adoro tudo isso — murmurei inconscientemente.

    Conhecia os preços a se pagar por tudo aquilo, mas de que adiantava? 

    Queria rir mais uma vez, e aqui estou, sorrindo diante do que parecia ser minha morte. Algo que… sei lá. Não deveria ser assim. 

    Não mesmo.

    Mas eu quero poder me redimir.

    Sentir o que os heróis sentiram, e pagar pelos pecados que cometi. Era uma forma boba, confesso, mas a única forma de fazer isso. 

    Andei para fora da construção, dando de cara com pequenas criaturas, que, ao perceberem minha presença, pularam para cima de mim.

    Era uma afronta. Uma grande afronta para mim. 

    Sentia como se pudesse fazer qualquer coisa, então, num levantar de mãos, todos explodiram de dentro para fora, banhando-me com seu nojento sangue. Porém, por mais estranho que parecesse, ainda sentia prazer nisso. 

    Prazer de beber aquilo.

    Carmesim. 

    Continuei a andar por aquela cidade, procurando mais oponentes para destruir. O sangue já fazia parte de mim, e finalmente poderia usar esse poder mais uma vez. 

    Criei lanças para auxiliar meu combate, jogando-as em Viajantes distantes de mim. Tentei ao máximo não me machucar.

    Não podia me machucar.

    A cada morte, mais minha sede crescia.

    Queria continuar cada vez mais,

    — Você é forte — murmurou certo alguém. — Por acaso não és dessa terra, estou certo?

    Virei-me na intenção de encontrar o dono dessa voz, dando de cara com algo humanoide escondido diante da poeira de fumaça causada pelos destroços. Seu rosto foi revelado de pouco a pouco, mas parecia ser um homem de cabelo curto vestindo um manto. 

    Não havia espaço para erros, então, levantei minha mão com a intenção de explodi-lo por dentro. 

    — Não gosto disso. 

    Assim que escutei, senti parte de meu ombro ser arrancada em instantes, quase como um projétil de rapidez extrema.

    Segurei meu braço, evitando demonstrar qualquer sinal de dor ao oponente.

    — Você é forte! — bradei, colocando o sorriso no rosto. — Muito forte, não é?

    Aquilo me deixava muito feliz! Hahahaha!

    Estava perto, então?

    Por fim, revelou-se um rosto marcado por veias roxas e pupilas coloridas. Por mais estranho que fosse, tinha a certeza de que um dia fora humano.

    Humano…

    Mas hoje não é mais. 

    Não mais humano. 

    — Um Viajante… — Acabei caindo em gargalhadas. — Eu vejo. Acho que acabei de descobrir algo muito interessante! Qual o seu nome?

    — Hazan.

    — É um belo nome.

    Meu ombro não parava de sangrar. Sentia minha benção tentar curar a parte sobrando e falhando por muito. Minha regeneração não estava suportando tudo aquilo. 

    Pelo menos…

    Ah… 

    Não ajudei em nada. 

    Ter matado alguns deles não pararia todo o avanço infinito que estava prestes a acontecer. Fui uma inútil mesmo em meus momentos de glória. 

    Ele atirou contra meu rosto, acertando um de meus olhos. 

    — Que droga. Falhei de novo.


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