Capítulo 35: O Dia Em Que O Mundo Conheceu O Caos (1)
Odiava incenso.
Aquilo tinha o propósito de acalmar a mente, mas esse efeito era o contrário comigo. Lembranças ruins voltaram à tona apenas por vislumbrar sua leve fumaça se espalhando pelo cômodo.
Suas paredes, inundadas por cores avermelhadas e estampas floridas que fugiam de cores quentes, destacavam uma peça fundamental do passado de Maria.
— Sempre esqueço que ela é uma hippie. — Cocei os olhos, ainda incomodada pelo incenso que se mantinha aceso. — Mas bem que ela poderia dar uma ajeitada nesse tapete…
Observei o estado velho em que se encontrava aquela peça. O “Bem-vindo” não se encontrava mais ali, afinal todas as suas letras já estavam apagadas pelo desgaste.
Já tinha um novo objetivo em segundos: presenteá-la com um novo tapete. Algo mais apropriado que esse velho aqui.
Ah!
Continuando o que havia ido fazer, movimentei-me até a sala, onde encontrei seus dois gatos. Felpudo e Fofucho, os felinos ranzinzas de Maria, estavam deitados no sofá como se a casa fosse deles.
Bem, tinha que respeitar. Maria tratava esses gatos como se fossem pequenos reis. Pra mim essa ideia não colava muito, pois eles estavam muito mais para tiranos do que majestades.
— Vocês por acaso viram o óculos de suas donas, gatinhos? — Fiz carinho naquele com pelagem malhada. E quase no mesmo instante fui mordida! — Cacete! — resmunguei, tirando minha mão de perto. — Essas bolas de pelo continuam do mesmo jeito. Erro meu foi ter pensado que tinham mudado.
Quase todos os apartamentos eram os mesmos, principalmente os de meu corredor, que seguiam a mesma planta. Então, toda a casa dela era quase um espelho da minha, e logo sabia onde cada cômodo se encontrava naquele espaço.
Desviando dos gatos que estavam apontados para a televisão, andei até a cozinha, onde comecei a procurar seus óculos.
Todos os seus equipamentos eram antigos, quase como um reflexo de sua idade e experiência. Poderia supor que todos eles vieram desde sua juventude pelo estado em que se encontravam.
O balcão estava cheio de fotos, incluindo a de seu falecido esposo, que residia coberta por pequenas flores bem cuidadas. Talvez isso a deixasse um pouco solitária, pois ele havia partido há mais de cinco anos e nenhum de seus filhos e netos tem o costume de visitá-la.
Às vezes o mundo é cruel. Cruel demais com suas posses.
Tantas pessoas que a consideram família e nenhuma delas aparece para lhe dar um devido apoio.
— Se existir algum deus, que ele o tenha — disse, olhando para a foto. — E que o conforto caia sobre ela.
Continuei a procurar seus óculos.
Debaixo das mesas, cadeiras, dentro da geladeira, armários… qualquer coisa que pudesse comportar essas pequenas lentes! Mas não havia nada no final de tudo. Apenas um cômodo recheado de coisas antigas e lembranças imensuráveis.
— Merda! — funguei, incomodada ainda pelo cheiro. — Deve estar em seu quarto.
Passei perto dos gatos, que se encontravam grunhindo antes mesmo de pôr meus pés na sala. É, aquele já era o território dos reis.
Fui até a porta de seu quarto, que estava entreaberta, mas a escuridão que se estendia pela fresta gelou minha espinha. Uma sensação tão ruim que alertou fortemente minha intuição.
Tinha alguma coisa de muito errado.
Muito errado.
Peguei na maçaneta, empurrando a porta, que revelou um grande breu. A sensação foi como se estivesse olhando diretamente para o vazio, e mesmo assim, sentia que ele me olhava de volta.
Era um medo comum a todos. O escuro é apenas uma forma simples de temer o desconhecido.
Coloquei apenas a minha mão para dentro, e foi o suficiente para tirá-la em segundos pela sensação que a escuridão me trazia. Era apenas uma bobeira minha, olhando de longe.
Respirei fundo.
— Vamos lá. Só preciso acender a luz. — Cerrei os punhos, pondo meu corpo para dentro daquele cômodo.
Era frio.
Muito frio.
Talvez estivesse certa desde o princípio e errada por não confiar em meus instintos.
Olhei para trás, procurando a porta de onde tinha vindo, e acabei não a encontrando. Mas por quê? Por que ela não estava lá? Que droga!
— O que está acontecendo? Mas que diabos, porra! — gritei, tentando tocar na porta que havia sumido.
…
Ah…
Eram em vão meus esforços. Não havia nada que pudesse mudar a minha realidade naquele momento, então, tentei procurar alguma outra saída.
Outra saída…
Uma escuridão que me corrompia. Não sentia que era apenas um espaço escuro, mas sim uma projeção de todo o meu ser. O fundo da minha alma era vazio, um vasto vazio.
Queria acender uma chama de esperança nele. Talvez, dessa forma, pudesse entender melhor o porquê dizem que a vida é bela.
Andei sem rumo naquele local infinito, e a cada passo, sentia como se uma parte de mim se perdesse. Minhas pernas sumiram em segundos e logo meu tronco iria desaparecer diante de tamanho breu.
Poderia ser meu fim? Não… Não!
Não queria que aquilo fosse meu final. Ser dominada pela escuridão de meu ser era uma alternativa que não estava nos meus planos, e nem deixaria se concluir.
— Foco… — murmurei para mim mesma, tentando acalmar-me. — Isso tem que ter uma saída.
Antes que pudesse adentrar no mais puro desespero, encontrei um pequeno ponto de claridade que ressurgiu a esperança em meu ser. A famosa luz na escuridão sobre a qual tanto vi escreverem.
Sentia-me aliviada! Muito aliviada, para ser sincera.
As pernas, antes consumidas pela escuridão, pareciam retomar a sua força total pouco a pouco. Corri como se não houvesse o amanhã em direção àquela luz, sem me preocupar o quanto aquilo quebrava as regras da realidade.
Sentia-me muito cansada e, ao mesmo tempo, os pensamentos se embaralhavam na mente. Tudo era, e não era, ao mesmo tempo. Só que não me importava o quanto meus valores estavam se invertendo naquele instante.
Apenas… queria alcançar aquela luz.
Ela ia aumentando em meu campo de visão pouco a pouco, revelando o que parecia ser um grande jardim no final daquele túnel. Mas como? Como isso poderia estar acontecendo?
Nada fazia sentido.
Coloquei meu pé para dentro do jardim, sentindo o sol bater na pele e cegar os meus olhos. Tampei com a mão, focando melhor no que se formava à minha frente.
Animais, selvagens ou não, conviviam em harmonia. De alguma forma, aquilo parecia ser uma história infantil. Como contos de fadas, e talvez estivesse esperando a aparição de um dragão de repente.
— Estou sonhando? — Ajoelhei-me, procurando meu celular que deveria estar no bolso da calça. — Ou talvez foi só uma brincadeira de mau gosto. Que droga! Acabei me desesperando por nada.
— Não sou de fazer truques de mágica — anunciou uma voz. — E posso afirmar que isso não é um sonho. Pelo menos dessa vez não.
Procurei a origem do som, dando de cara com o mesmo ser que invadiu meu sono. As faixas pareciam ter se movido de lugar, formando padrões diferentes em sua pele.
O rosto ainda demonstrava uma inexplicável tristeza, algo incompreensível para mim.
— Ei… Você estava lá! — apontei, parando de procurar meu aparelho telefônico. — Lembro de você.
— Seria estranho se não lembrasse, Scarlett. Pelo menos sua memória ainda não está tão defasada quanto pensei. — Ele estendeu a mão, que logo aceitei sua ajuda para levantar-me. — Meu tempo está acabando, peço perdão por lhe transportar para cá de repente.
Teletransportar?
Então, tudo aquilo que havia sofrido foi por culpa dele?
— Deve me perdoar também pelas alterações que fiz em sua mente. Foi necessário para que você não enlouquecesse em segundos só por entrar em meu domínio. — Um grande tigre passou por ele, pedindo carinho como um belo felino.
— Os gatos daquela velha deveriam aprender com ele — murmurei. — Então, é por sua causa que não acho tudo isso estranho?
— Hahaha! É mágico, não é? — Ele criou um sofá luxuoso, do qual se deitou logo após.
Tudo era tão irreal, mas quem se importava? A magia reinava nesse lugar. Porra, isso tudo é tão fantástico! Andei até ele, confuso por uma de suas falas.
— O que você quis dizer com o seu tempo estar prestes a acabar?
As listras de seu corpo mudaram conforme se ajeitava no sofá.
— Preciso me conectar com você — respondeu, colocando o dedo em minha testa. — Fale o meu nome de uma vez. Você só precisa acertá-lo.
O nome dele.
Esse papo mais uma vez? Pensei que fosse apenas uma de suas brincadeiras, mas, pelo visto, estava enganada. Para salvar sua pele, era necessário um ato tão bobo e… imprevisível.
Como iria adivinhar? Existe alguma chance?
Que droga!
Pense…
Deve ser algo envolvendo todo esse espaço que compõe tal domínio. Uma palavra tão…
Concentrei-me, ignorando tudo ao meu redor. Foquei no meu interior, esperando que uma segunda luz de esperança pudesse surgir.
E talvez esse desejo fosse o suficiente para que acontecesse.
— Fantasia.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.