Ao ver aquilo, Billy abaixou-se rapidamente. Usando o próprio casaco, começou a limpar o sapato enquanto olhava para os lados.

    Um arrepio lhe correu pela espinha, trazendo a sensação bizarra de que havia alguém observando-o, mesmo que o céu acima estivesse tapado pelo telhado e não houvesse ninguém na varanda além dele e de sua própria sombra.

    A porta de madeira se abriu.

    — Você está atrasado, garoto.

    Assim que levantou o rosto, ele viu uma mulher alta com vestes de governanta. Ela usava óculos ovais, exibia um coque firme nos cabelos negros e tinha a pele muito branca, que contrastava de forma afiada com os olhos castanhos-claros.

    — Vamos, me siga! — disse ela em tom ríspido e direto.

    Billy levantou-se num salto e a acompanhou, fechando a porta logo atrás de si.

    A casa em si era construída principalmente de madeira tratada. O hall principal dava direto para uma larga escada em espiral, repleta de decorações luxuosas: porcelanas, quadros e outros móveis caros. A mulher, que aparentava ter entre quarenta e cinco e cinquenta anos, seguiu pelo corredor à direita e abriu as portas duplas.

    Eles passaram pela sala de hóspedes, mobiliada com poltronas, sofás e uma lareira de pedra, mantendo o mesmo padrão de madeira encerada que refletia o leve brilho das velas.

    — Seu trabalho principal será como ajudante — instruiu a governanta, sem olhar para trás. — Ficará responsável pela limpeza das lareiras, pelo auxílio ao senhor Kes no estábulo e por outros afazeres supérfluos que lhe serão informados.

    Não era só a limpeza das chaminés?, pensou Billy, mas não ousou contrariar a mulher diante de sua postura imponente.

    — Você vai dormir no último quarto à direita, na ala dos empregados. Como não tem o costume de servir, se tiver dúvidas ou qualquer coisa que não saiba, pergunte ao senhor Kes. Em hipótese alguma dirija a palavra a algum membro da família ou ao próprio senhor Fiemon. Desde que siga isso, os três meses que passará aqui devem correr sem quaisquer problemas. Entendido?

    Ela parou e o encarou com um olhar julgador, carregado de preconceito.

    — Entendido, senhora governanta — respondeu Billy em um tom espalhafatoso, incomodado com a forma que ela o olhava.

    Em pensamento, resmungou: Velha bruaca de merda. Se vai me olhar assim, pelo menos fale na minha cara em vez de fingir superioridade, vadia.

    Ao notar a reação de deboche invisível na postura do jovem, a mulher reagiu imediatamente.

    Pá!

    Ela desferiu um tapa estalado que fez o rosto do garoto virar com força para o lado.

    — Garoto, não teste a minha paciência. Desde que se comporte como o bom cachorro de rua que você é, não teremos problemas. Agora mude essa postura e comece a trabalhar, vira-lata!

    Virando-se de costas, ela caminhou para fora da sala de visitas sem olhar para trás.

    — Pode começar por essa chaminé e ir subindo. Deixei os materiais de limpeza ao lado.

    A porta se fechou com um baque seco.

    Billy, com o corpo trêmulo de raiva, virou-se e viu seu reflexo no vidro da janela. Seus olhos brilhavam em um tom dourado e intenso. Ele sentia o coração pulsar descontrolado no peito, martelando contra as costelas.

    — Não… preciso me controlar!

    Ele respirou fundo, forçando-se a lembrar do afago que sua mãe fazia em seus cabelos e do bilhete que ela lhe deixara. Encarando a projeção no vidro, puxou o ar profundamente, repetidas vezes, até que os olhos finalmente voltassem ao normal.

    Ao ver as pupilas recuperarem a cor natural, sentiu um leve alívio por ter retomado o controle. Contudo, logo se pegou analisando o próprio reflexo com mais atenção.

    O casaco cobria todo o seu corpo, mas ele percebeu que sua sombra parecia ficar cada vez mais escura. E não apenas escura… ela estava crescendo.

    A escuridão começou a subir pelas calças pretas, passou pelo botão de metal, pelo cinto e pelos suspensórios que seguravam a camisa remendada com retalhos de cores neutras. O grande casaco marrom-escuro, cujas mangas cobriam suas mãos e a barra passava das coxas, parecia estar sendo engolido.

    Billy sentiu como se tudo o que fosse tocado por aquela penumbra deixasse, subitamente, de existir.

    Quando a escuridão atingiu sua garganta, o ar sumiu. Consumido. Um líquido negro e denso começou a adentrar suas vias respiratórias, invadindo a garganta, o nariz, os olhos e, por fim, os ouvidos…

    Ploc.

    De repente, o barulho de algo caindo de dentro da chaminé o trouxe de volta. Em um piscar de olhos, tudo sumiu. Como se nada tivesse acontecido.

    Ofegante, Billy desabou de joelhos no chão, tentando recuperar o oxigênio roubado de seus pulmões, enquanto o ar quente saía de sua boca em lufadas desesperadas.

    Eu preciso aprender o que é isso! Ou essa coisa vai me consumir por completo, pensou, apavorado. Não sei por quanto tempo vou conseguir voltar ao normal… Isso parece estar me devorando.

    Ele se levantou com as pernas bambas e forçou-se a focar no trabalho. Começou a estender tecidos sobre os móveis e a ajustar os tapetes, afastando qualquer objeto que pudesse quebrar. Trabalhou com cuidado, sem pressa, usando a repetição física para acalmar a mente.

    Pouco a pouco, arrastou-se para dentro da estrutura da chaminé, limpando as paredes internas, subindo raspagem por raspagem até alcançar o telhado.

    Ao emergir na superfície, deparou-se com um céu alaranjado pelo pôr do sol. Logo acima, a pálida luz da lua começava a surgir, iluminando o anoitecer iminente.

    — Billy!! — gritou Kes lá de baixo, fazendo sinais enérgicos com as mãos.

    O garoto avistou o senhor Kestel e iniciou a descida de volta pela chaminé. Quando finalmente chegou ao chão, estava completamente coberto de fuligem e sujeira, exalando um forte cheiro de suor e fumaça velha.

    Mais tarde, após um banho gelado — do tipo que acorda até os mortos —, ele vestiu as roupas de trabalho. Eram visivelmente maiores que ele. Billy prendeu a camisa por dentro das calças, ajustou os botões e apertou o cinto na cintura o máximo que pôde para ficar apresentável.

    Por fim, colocou o enorme sobretudo que cobria praticamente todo o seu corpo e conferiu o resultado no espelho do banheiro.

    — Bom, pelo menos com isso não vou sentir frio… Se bem que até meu pai tem dificuldade com esse sobretudo — resmungou, com o olhar abatido.

    O incômodo do líquido negro ainda persistia fantasmagoricamente em sua garganta.

    Aquilo sempre aparece depois de sentimentos fortes, que também ativam o brilho nos meus olhos. Isso só reforça que está ligado às minhas emoções, então…

    Ele observou o banheiro ao redor e reparou nas molduras metálicas que formavam um guarda-corpo cheio de pontas afiadas. Aproximou-se com clara relutância e estendeu a mão, cogitando perfurar a própria palma apenas para testar se a dor física espantaria o avanço da sombra.

    — Não, ainda não perdi a razão a esse ponto — disse a si mesmo, recolhendo os dedos trêmulos. — Deve haver outro jeito. Só preciso de paciência para entender todos os meus gatilhos. Minha mãe e meu pai descobriram como controlar até certo ponto… É a única memória que tenho dela nos protegendo em momentos críticos.

    Billy deu uma última olhada no espelho, ajeitou a gola, e caminhou em direção à sala de jantar principal para encontrar Kes, que já o aguardava ansioso diante da porta dupla.

    — Bom, pelo menos você está apresentável — suspirou Kes, visivelmente aliviado. — Escute bem: até sairmos da sala de jantar, não fale absolutamente nada, entendeu?

    — OK — respondeu Billy, exibindo uma careta de incômodo diante da preocupação excessiva e maternal do velho homem.

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