Capítulo 4 Lembrança
O supervisor agarrou Billy pela roupa e praticamente o levantou do chão. Os fotógrafos imediatamente voltaram a atenção para a cena, fazendo Billy arregalar os olhos. Mas então… aquela sensação atravessou sua mente novamente. Palavras que não eram dele, pensamentos que não faziam sentido, surgiram como se outra consciência sussurrasse diretamente dentro de sua cabeça:
Ali. Está errado. Corrija.
Billy olhou para a máquina. Depois, encarou o supervisor com um olhar sério e frio. — Não, senhor… Eu só estava limpando a engrenagem. Tinha um resíduo preso nela.
O homem encarou Billy profundamente por alguns segundos, como se estivesse decidindo se bateria nele ali mesmo. Mas, ao perceber os visitantes observando, apenas largou o garoto e ajeitou a roupa dele com brutalidade. — Se danificar essa máquina… vamos ter uma conversa depois.
Billy apenas abaixou a cabeça. Seu coração disparava porque ele sabia… Sabia que aquela reação não tinha vindo dele.
Voltou lentamente para o maquinário. Pegou uma chave de boca, ajustou as brocas, retirou uma peça tomada por piche endurecido e começou a reorganizar tudo. Seus movimentos pareciam estranhamente naturais, como se já tivesse feito aquilo antes, mesmo nunca tendo tocado naquela parte da máquina.
O vapor começou a subir, as engrenagens giraram e a fornalha rugiu. E então, o metal fundido foi despejado dentro da forma.
Quando o apito final soou, duas barras surgiram. O senhor Jom segurou sua peça primeiro: uma barra comum, de boa qualidade, feita de ferro forte. Os trabalhadores assentiram em silêncio. Então, Billy puxou a dele. Era uma barra completamente negra, coberta por resíduos escuros, torta e feia.
O supervisor começou a sorrir de forma debochada. Billy sentiu o estômago afundar.
Não acredito… Eu realmente dei ouvidos a esse instinto idiota, pensou, vendo seu trabalho arruinado.
Mas então, seu corpo se moveu sozinho outra vez. Sem pensar, sem entender, Billy virou-se rapidamente e derrubou a barra negra dentro de um barril de água turva ao lado da máquina.
Tsssssshhhhhh!
O vapor explodiu violentamente. Todos recuaram assustados. Billy arregalou os olhos, só então percebendo o que tinha feito. O coração acelerou, mas o instinto continuava guiando seus movimentos. Ele pegou uma pinça metálica, mergulhou-a dentro do barril e puxou a barra lentamente para fora.
O silêncio tomou conta do lugar. A barra já não era mais negra. Agora brilhava em uma prata viva, lisa e perfeita, como se tivesse sido refinada por um processo impossível. Até o vapor ao redor parecia diferente: mais leve, mais frio.
O senhor Charles arregalou os olhos. — Meu Deus…
Miller imediatamente ergueu a câmera. Click! Click! Click!
Charles começou a rir, empolgado, e apontou para o garoto: — Parece que temos uma reviravolta! Nosso pequeno Davi venceu Golias!
Billy ficou parado por alguns segundos, sem entender absolutamente nada. Os gritos, os fotógrafos, os homens batendo palmas… Tudo parecia distante, como se ele estivesse ouvindo aquilo debaixo d’água. Mas quando o supervisor, engolindo o orgulho, entregou a barra prateada premiada em suas mãos junto ao bônus, a realidade voltou pesada, fria e verdadeira.
Aquilo valia quase um mês inteiro de trabalho. Quase um mês sem seu pai precisar sair nas nevascas. Quase um mês sem sua mãe dormir com fome, fingindo que “já tinha comido antes”. Pela primeira vez em muito tempo, Billy sentiu algo próximo da esperança. Mesmo pequena, mesmo fraca, ela existia.
Guardou a barra cuidadosamente entre os panos velhos que carregava e saiu da fábrica.
O céu já começava a escurecer. A fumaça das chaminés cobria Londres como um lençol cinza. As ruas estavam molhadas, cheias de lama; carroças passavam levantando sujeira, homens bêbados gritavam perto dos becos e crianças magras corriam entre os trilhos carregando jornais. Billy andava rápido, segurando firme a barra junto ao peito, tentando ignorar aquela sensação estranha ainda viva dentro dele.
Até que virou em uma viela estreita e parou. Dois homens bloqueavam a saída: o senhor Jom e Bigode. O primeiro segurava um cigarro apagado entre os dedos, que tremiam levemente. O segundo apenas sorria, mostrando os dentes amarelados. Billy sentiu o estômago gelar. A viela era estreita demais; não havia como correr.
— Senhor Jom… — Billy falou baixo. — Por que está fazendo isso…?
O homem suspirou, cansado, como se estivesse decepcionado consigo mesmo. — Não é nada pessoal, Billy. — Ele apontou para o volume escondido entre os panos. — Mas eu preciso dessa barra.
Bigode cruzou os braços. — Você ainda não entende como a vida adulta funciona.
— Você é só uma criança com um coração ingênuo — concordou Jom, aproximando-se mais um passo. — Então entrega isso para a gente… e todo mundo vai embora feliz.
Billy apertou os dedos contra o pano. Seu coração começou a acelerar. Ele conhecia Jom e reconhecia aquele olhar de viciado. Tabaco, apostas, dívidas. Aquela barra não ajudaria a família do veterano; ia desaparecer em uma mesa de jogo antes do amanhecer.
Billy tentou esquivar-se pelo lado, mas Bigode imediatamente fechou a passagem, deixando-o encurralado.
E então, uma memória veio, forte e brutal: seu pai, William, abraçando-o quando ele era criança. As costas do pai estavam abertas pelas chicotadas da fábrica, o sangue atravessava a camisa grossa, e mesmo assim ele sussurrava baixinho: Está tudo bem, filho…
Billy congelou. O corpo inteiro travou, a respiração ficou pesada e o medo começou a subir pelo peito. Mas foi aí que aquilo voltou. O sentimento. A sombra. A presença. Como se algo respirasse junto dele.
Jom avançou para agarrá-lo e, naquele instante, Billy se moveu. Não por pensamento ou por coragem, mas por puro instinto. Seu corpo desviou no último segundo. Jom passou direto e bateu violentamente contra a parede de tijolos.
— Agh!
Bigode tentou dar o bote logo em seguida para interceptá-lo, mas Billy apenas deu um pequeno passo para trás. O movimento foi tão preciso que Bigode perdeu o equilíbrio e acabou tropeçando no próprio Jom, que tentava se levantar.
Billy arregalou os olhos. — O que…? — Seu peito subia e descia rapidamente. — O que está acontecendo comigo…?
Vendo os dois homens ainda caídos no chão da viela, Billy aproveitou a chance. Correu. Correu o mais rápido que conseguia, passando pelas ruelas, pulando poças de água suja e empurrando os pedestres sem olhar para trás, até finalmente chegar aos slums.
As pequenas casas tortas feitas de madeira velha apareciam uma atrás da outra. Havia roupas penduradas, cheiro de carvão queimado e o esgoto correndo pelas laterais da rua. E ali, como em todos os dias, estava sua mãe, Marta. Ela segurava roupas molhadas nos braços frágeis. Mesmo cansada, mesmo destruída pelo trabalho doméstico, ela ainda sorria ao vê-lo.
No entanto, o sorriso desapareceu rapidamente ao perceber que Billy estava ofegante. — Filho…? — Ela caminhou depressa até ele. — O que aconteceu? Por que veio correndo assim?
Billy tentou recuperar o ar. Então, abriu um sorriso verdadeiro — talvez o primeiro em anos. — Desculpa preocupar você, mãe…
Ele afastou os panos lentamente e mostrou a barra prateada. Marta arregalou os olhos e levou a mão à boca. — Filho… Billy… você roubou isso?!
— Não! — Ele começou a rir, exausto. — Eu ganhei. Ganhei a competição da fábrica contra o senhor Jom… — Sua voz falhou levemente. — Dessa vez… a gente vai conseguir passar o inverno melhor.
O silêncio caiu entre os dois. Marta olhou para a barra brilhante, depois para o filho, e começou a chorar. Não era um choro de tristeza, mas aquele tipo raro de pranto que aparece quando alguém já sofreu tanto que tinha até esquecido como era sentir esperança.
Ela puxou Billy para um abraço forte, beijando a testa dele várias vezes. — Filho… você não sabe o quanto isso é importante… — Sua voz tremia. — Você é o melhor filho que poderíamos ter.
Billy sentiu os olhos queimarem e chorou também. Ali, no meio daquela rua suja, abraçado à mãe, sentiu que finalmente, depois de tantos anos, tinha conseguido proteger sua família. Nem que fosse só um pouco. Nem que fosse apenas por um mês.
Para Billy, aquilo era tudo

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