Capítulo 11 Uma nova perspectiva
Os pais soltaram um suspiro pesado, entreolhando-se, consumidos pela culpa de um segredo guardado por toda a vida.
— Nos perdoe, meu menino — sussurrou a mãe. — Nós deveríamos ter tido a coragem de sentar com você e contar isso muito antes. Mas a verdade nua e crua é…
Billy, percebendo que o pai ainda não conseguia terminar a frase nem olhar em seus olhos, interveio: — E isso só por causa dessa coisa que faz os olhos brilharem? Isso se parece mais com caça a animais raros do que com algo místico de fato! E ainda não explica esses sentimentos, as memórias e as coisas que eu vi.
— Também não sabemos o que isso tem a ver com os olhos dourados, mas temos certeza de que, assim que o patriarca descobrir que estamos vivos, os homens dele virão nos matar. E o maior problema agora é que você matou uma pessoa, em uma situação que seria impossível para alguém normal. — O pai suspirou. — Por outro lado, é bom que vá passar o inverno no casarão dos Filemon. Isso vai atrasá-los um pouco até descobrirem tudo. Enquanto isso, vou tentar entrar em contato com James ou com meu antigo professor.
Já passava da uma da manhã. Todos estavam exaustos, tanto fisicamente quanto mentalmente, após revirar um passado tão doloroso, e foram deitar para o merecido descanso. Perdidos em amarguras, sonhos, desejos e arrependimentos, sentiram o sono chegar como o bater das ondas. Aos poucos, a fadiga consumiu as areias de seus pensamentos, até restarem apenas estrelas iluminando a escuridão com raios de esperança por dias melhores.
Um novo dia amanheceu. Billy ainda estava cansado e esgotado. Os ventos gélidos passavam pelas frestas das paredes, dando-lhe choques térmicos.
— Ooonh — resmungou, encarando o teto de madeira úmida enquanto se encolhia debaixo das cobertas.
Toc… toc…
— Aaah, que merda… — Ele se levantou, olhou para a porta aberta do quarto e esfregou o rosto para tirar as remelas. — Já estou indo!
O garoto ainda vestia as peças da noite anterior. Sobre a mesa, havia roupas limpas acompanhadas por um bilhete.
Bilhete: Filho, aqui estão algumas roupas antigas do seu pai! Use-as. Deixei uma muda extra para você trocar quando precisar. E tente lembrar de se controlar. Os se ativam quando você tem sentimentos intensos; você não pode deixar ninguém vê-los. Te amamos, querido.
O conjunto contava com um paletó, duas camisas de botão, suspensórios, dois pares de meias, duas calças e um casaco grande. Todas as peças eram bem maiores que o seu tamanho. Billy ajustou os trajes ao corpo até ficarem minimamente apresentáveis, pegou a roupa extra e guardou-a em uma espécie de trouxa feita com uma fronha. Com uma pequena tigela de sopa em mãos, comeu apressadamente usando uma colher de madeira, até ouvir novamente:
Toc… toc…
Dessa vez, as batidas foram bem mais altas. Logo em seguida, uma voz abafada soou do lado de fora: — Vamos, moleque, assim vamos nos atrasar!
— Já acabei aqui, vamos! — Billy respondeu, fechando a porta e saindo de casa.
Ao sair, deparou-se com um homem robusto e gordo. O sujeito usava calças de tons amarronzados e uma boina listrada, e vestia um casaco longo que cobria quase todo o seu corpo. Ao ver o jovem, o homem se apressou: — Vamos, o senhor Filemon odeia atrasos. A viagem para fora da cidade costuma durar no mínimo três ou quatro horas. Temos que nos apressar se não quisermos que ele desconte do nosso salário.
— Ok, senhor. Qual o seu nome? — perguntou Billy, descendo os degraus de entrada.
— Me chamo Kestrel, mas todos me chamam de Kes. — Ele caminhou em direção à carruagem e subiu no assento do cocheiro. Em seguida, estendeu a mão, puxando o garoto para o lugar ao seu lado.
A viagem começou pela via principal. A neve já se acumulava pelas quinas, cantos e bueiros da cidade. Conforme deixavam a área industrial, o vento gélido e as nuvens acinzentadas que tomavam o céu pareciam mudar: a fuligem que deixava a neve cinza dava lugar a um branco puro. Ao passarem pelo rio principal, grandes prédios e altas torres surgiram no horizonte, destacando-se uma imensa torre com um relógio. Inúmeras lojas compunham o cenário, repleto de pessoas bem vestidas e crianças aproveitando o inverno. Era como se estivessem em outro mundo.
— Senhor Kes, qual o nome daquela torre imponente? — perguntou Billy, olhando para cima e observando atentamente a nova paisagem.
— Ah, é o relógio principal da cidade. Em toda virada de inverno e começo de verão, as pessoas ajustam seus relógios de bolso pelo relógio da torre Bing Bang. Você sabe ver as horas, né garoto?
Billy hesitou. Ele não tinha educação escolar, tudo o que sabia havia sido ensinado pelos pais, mas compreendia os ponteiros. — Sei… agora são 9:35 da manhã — respondeu, encarando a torre.
— Boa, garoto. A gente tá atrasado, segura aí!
Kes acelerou a carruagem, firmando as rédeas. Eles ultrapassaram outros veículos ao cruzar a área comercial da cidade, virando à direita. Depois de algumas curvas, seguiram para uma estrada de terra batida e desnivelada, cercada por morros. Ali já se viam casarões de médio a grande porte. A neve se acumulava em maior quantidade sob o céu claro, cobrindo os pinheiros e compondo uma paisagem onde, ao longe, podiam ser avistados alguns cervos.
Até que, enfim, chegaram ao destino. O imenso casarão neoclássico exibia telhas de cerâmica e uma estrutura imponente cujo formato lembrava a letra “X”, alargando-se para a direita e descendo a um nível inferior na esquerda. A fachada ostentava uma varanda interna protegida pela extensão do telhado. Os três andares de pé-direito alto eram marcados por grandes janelas, culminando em um sótão iluminado por aberturas menores. Grossas pilastras de pedra se projetavam pelo exterior, conectando-se a paredes revestidas por tábuas de madeira, tudo firmemente sustentado por uma fundação elevada de tijolos aparentes. Ao lado do casarão, ficava a área do estábulo, acompanhada por uma casa anexa bem mais simples, mas que seguia a mesma estética, além de um poço artesiano próximo.
Kes puxou o relógio de bolso de dentro do casaco e checou as horas: já eram 14:40. — Merda! — Ele desceu da carruagem, caminhando rapidamente em direção ao estábulo. — Garoto, vai pra casa principal. É só pedir para a governanta te passar os seus afazeres.
— Obrigado pela carona, senhor Kestrel! — Billy agradeceu, pulando para o chão.
— Ei, qual o seu nome, garoto? — Kestrel parou e olhou para o menino, que já se aproximava das escadas da casa principal.
— Me chamo Billy Winston, senhor.
O cocheiro fez um leve cumprimento, tocando a aba da boina, e sumiu pelas portas do estábulo.
Billy subiu os degraus e caminhou pela varanda interna de madeira, observando o banco de balanço, as jarras ornamentais e as decorações de luxo. Ao notar o belo tapete da entrada, instintivamente olhou para os próprios pés. Um calafrio o atingiu ao perceber que ainda calçava os sapatos velhos; na pressa, esquecera de trocá-los pelo par limpo.
— Ah, merda… — murmurou, fitando as próprias botas, onde gotas de sangue seco ainda manchavam o couro desgastado

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