Capítulo 2: Alucaria Vlad Dracule
— Chamo-me Alucaria Vlad Dracule, ao seu dispor.
O sangue de Grety fervia. Não como ocorria quando bebia uma poção, aquelas mal misturadas por mãos pouco habilidosas; mas fervendo de raiva.
“O rei de Nocturnia, Vlad Kaspar Dracule? Um vampiro?!”
Sua mente dava voltas. Aquele lugar, Nocturnia, contorcia-lhe o estômago e entristecia a mente; contudo nunca imaginara que seu rei era um vampiro.
“Espere! Se ele é um vampiro, e ela é sua filha, então…”
Grety ergueu seu canhão de mão, pronto para o disparo com o menor toque no gatilho.
— Somos caçadores. — Hansy pôs são sobre o braço de Grety, abaixando o até a cintura. — Chamo-me Hansel Heavens Vonwyll. Esta é minha irmãzinha, Gretel.
O cocheiro, até então inexpressivo, cerrou os dentes e contraiu os músculos da testa. Seus caninos afiados prendiam à frente, prontos para perfurar carne.
— “Vonwyll”! — exclamou a plenos pulmões. — Senhorita, isto é um erro!
Lâminas gigantes surgiram de seus dedos. Grety encarou o irmão, que retribuiu com um meio sorriso.
— Acalme-se, Roderic. — A mulher ergueu a alva mão, e o homem abaixou suas garras, meio hesitante.
— A senhorita tem noção de quem são os Vonwyll?! — Sua voz só não superava os urros dos relâmpagos. — Eles… Eu…!
— Sim, Roderic, eu conheço a reputação deles — concluiu ela, num ultimato cristalino. — Planejava encontrar alguma das sedes dos Caçadores, mas não houve necessidade! Encontramos logo nossas melhores opções!
Roderic balançou a cabeça, murmurando algo. Decerto tinha algo a mais para dizer, mas engoliu as palavras.
Gretel bufou. Suas bochechas já ardiam rubras.
— Opções para o quê? Refeição?!
— Grety…
— Qual o problema, mano? — A garota o puxou pelo ombro até que os ouvidos estivessem na altura de sua boca. — Ele é um vampiro; ela também!
Apontou para Alucaria, que sorriu. Outro relâmpago estourou nos céus, e os dentes pontudos rebrilharam por entre as luzes e as gotas de chuva.
— De fato, sou. Como disse, sou a herdeira do Rei Vlad Dracule — concordou com Gretel, esboçando um rosto brilhante e contente. — Uma vampira, como o Conde Magnus, que há pouco escapou da Prata Anânica de sua espada, mestre Hansel.
Gretel puxou o irmão pela manga do casaco. Alucaria prosseguiu.
— E também estou, como a senhorita Gretel, curiosa com sua atitude. — Cutucou Roderic, que parecia ser seu criado, na mão, e suas garras desapareceram na mesma hora. — O que te fez conversar comigo, e não com o conde?
— Além da total e completa ausência de elegância daquele selvagem — acrescentou Roderic, esfregando a mão que sua mestra tocou.
— Se disser que achou ela bonita, eu te mato, ouviu? M-A-T-O. — Gretel deslizou o polegar pelo pescoço. Sorria, mas seus olhos penetrariam qualquer crânio como adagas.
Hansy revirou os olhos e beliscou a bochecha de Grety, que deixou escapar um gritinho.
— Seus olhos são melhores que os meus, maninha. Observe a situação — suspirou, apontando para a suposta princesa vampira. — O tal conde exalava a fome de uma hiena que encontrou um pedaço de carniça. A senhorita Alucaria lhe passa a mesma sensação?
A garota a encarou com os olhos semicerrados. Havia algo em volta da mulher, sem dúvidas. Uma força antiga, fruto de gerações e gerações de sangue real vampírico. Todavia, seu semblante trazia a lembrança de um Sol de verão. Qual foi a última vez que Gretel sentira o ardor de um Sol de veraneio em sua pele? E mais, como tal força vinha de um vampiro, um inimigo jurado do dia?
Por mais que não quisesse admitir, seus olhos lhe diziam a verdade.
— Qual foi a última vez que seus olhos lhe pregaram uma peça, Gretel?
“Nunca”, pensou apenas, mas seu rosto caído dizia a Hansel o suficiente.
Teria ele “sentido” o mesmo que ela “viu”?
Alucaria bateu palmas.
— Ótimo! Fico feliz que nos demos todos bem! Agora, por que não vamos a algum lugar melhor para discutirmos? Esta chuva está encharcando meu chapéu.
— Vamos! Eu lhes daria carona, mas seus cavalos estão logo atrás daquelas árvores, correto?
— …
Mal tiveram chances de conversar, pois a chuva insistia em retornar à sua gloriosa força ao longo do caminho. Trocaram, porém, alguns olhares. Gretel logo percebeu que seu irmão, embora certo de que a mulher falasse a verdade, mantinha-se precavido.
“Vamos ouvi-la. Suas intenções podem ser puras, mas desconhecemos toda a sua situação e possíveis planos de terceiros.”
Era o que seus olhos e gestos lhe diziam. De fato, Grety, ao longo de sua infância e puberdade, aprendeu a decifrar quase todos os sinais, incompreensíveis para olhares curiosos, que Hansy fazia.
Escolheram uma popular taverna que os irmãos Vonwyll frequentavam na cidade de Apple Hollow, famosa por sua sidra fermentada.
Possuíam muitas salas privadas no segundo andar, feitas para a resolução de negócios entre contratantes e contratados. Muitos alugavam-nas para contatar caçadores de forma mais discreta.
E foi o que Alucaria fez.
Sentava-se na única poltrona da sala, de costas para a janela. Roderic guardava-lhe de pé, à sua direita, com o olhar pesando sobre Hansel e Gretel. Esses, por sua vez, estavam juntos num grande sofá estofado. Seus chapéus jaziam pendurados no suporte ao lado da porta, junto de seus grandes casacos, ambos gotejando e formando poças no chão.
— Este é um lugar lindo! — A suposta princesa tomou um gole de sua xícara, e as pérolas afiadas se sua boca se mostraram outra vez. — E isto é delicioso!
“Quem bebe sidra numa xícara?”, pensou Grety, com as sobrancelhas erguidas. Uma única espiada em seu irmão foi o suficiente para notar que fizera a mesma expressão.
A luz das lamparinas a óleo enchiam a sala com um ar de conforto, junto dos assentos acolchoados e os belos pratos, cheios de carnes quentes e queijo, na mesa de centro. Todavia, os corações dos irmãos preenchiam-se com uma camada de gelo fino, e a sensação era como se estivessem do outro lado da janela, sendo alvejados pelas intempéries da noite.
Com efeito, mesmo Hansel, que concordara com este distinto encontro, tinha sua espada deitada em seus joelhos. Uma velha herança de família, feita por um mestre anão que servira ao seu avô anos atrás. Gretel, que observava seu irmão e a suposta princesa, descansava a mão esquerda no coldre de seu revólver.
— Pois bem, acredito que estejam curiosos sobre meus motivos.
Roderic, com uma careta na face, a interrompeu.
— Senhorita Alucaria, acredito que, para haver uma negociação justa e honesta, nossos “convidados” deveriam deixar o comportamento ameaçador de lado. — E fitou Hansel, que tateava de leve o cabo de sua espada.
— Roderic, eu agradeço a preocupação; mas peço que não me interrompa — disse, no mesmo tom singelo que não abandonou desde que falara pela primeira nessa noite.
Seus olhos escarlates, porém, mostravam o semblante de uma fera olhando para sua presa.
Gretel apertou seu canhão de mão. Num único movimento suspeito, sacaria-o e atiraria.
— E mais, se nossos convidados quisessem ver nossas cabeças rolando no chão, já o teriam feito. — Sorriu para os irmãos, ainda de forma terna.
Grety emburrou-se e disse:
— E como saber se você é de fato a princesa de Nocturnia?
— Bem, o nome está correto — retorquiu Hansy, retirando alguns papéis de seus bolso. — Todas as descrições sobre a princesa Alucaria Vlad Dracule, tanto físicas quanto comportamentais, batem com esta Alucaria.
Alucaria sorriu outra vez, e o rapaz prosseguiu:
— Exceto, claro, a descendência vampírica. — Deixou os documentos na mesa; relatórios, reportagens, entrevistas de nobres de Nocturnia, e o que mais que tivesse pesquisado. — Senhorita Alucaria talvez considere nos explicar?
— Certamente, mestre Hansel! — E tirou um colar de dentro de seu vestido, pondo-o sobre a mesa. — Também isto, creio eu, demonstrará que sou a única e verdadeira Alucaria Dracule.
Os olhos dos irmãos se arregalaram. Hansel foi o primeiro a pegar o objeto: um colar de ouro, no formato de um morcego, com olhos de rubi e cercado de louros feitos de plantina.
Tirou as luvas e esfregou-o nas mãos. Aproximou os olhos, quase devorando a jóia com eles.
Aquela era a jóia real da família Dracule, passada por entre as gerações de filhas do trono.
— Parece verdadeira — concluiu, pondo a peça de volta na mesa.
— Então o Rei Vlad é realmente um vampiro? Sempre ouvi que o achavam exótico e incomum; mas nada além disso.
Alucaria deu um longo suspiro.
— A grande maioria da nobreza Nocturniana é composta por vampiros, senhorita Gretel. Apenas algumas famílias menores não o são.
Suas palavras carregavam a certeza de um mestre e o conselho de um sábio; Gretel não pôde contra-argumentar. Lembrava-se das poucas vezes que fora para o Reino de Nocturnia, nas Montanhas Escuras do Noroeste, e dos pouquíssimos bailes, festas e contratos em que atuou como caçadora. Embora o país possuísse um alto índice de vampiros menores lançando-se contra vilarejos e transeuntes de becos escuros, poucos eram os casos de Vampiros Derradeiros.
Agora deveria acreditar que toda a corte real de Nocturnia era composta por essas feras cruéis, sanguinárias e psicopatas? Impossível.
— As notícias sobre meu pai do lado de fora da capital de Blutveinn são escassas e fragmentadas, não concordam? — Alucaria tomou outro gole de sidra. — A única coisa que se sabe dele por aqui em Eisenwald é que “ele é rei há quase quatro séculos” e que “é um rei excêntrico e peculiar”, “um mestre alquimista”. Nada disso é por acaso; meu pai não deixa nada “comprometedor” escapar das muralhas da capital.
— E é claro que o mestre e a senhorita reconhecem que minha terra natal não perde nem para as Terras de Falkenreach na concentração de vampiros menores. Aquelas sanguessugas são nossos gaviões-correio, os olhos e ouvidos do rei Dracule.
Hansy coçava o queixo durante todo o monólogo de Alucaria. Grety não desgrudava os olhos dela, ainda que sentisse seu corpo formigar e o crânio arder.
— Isso faz sentido — disse o irmão Vonywll —, na verdade, não seria a primeira vez que a Ordem desconfia da população vampírica de Nocturnia. Seus bandos são extremamente organizados; atacam sempre em intervalos quase que contados e não matam a maioria de suas vítimas, excluindo animais. — Encarou a irmã, que concordou com um balançar de cabeça.
— Esse comportamento é muito inteligente para esse bando de morcegos superdesenvolvidos — Grety arregalou os olhos. — Ah, “sem ofensa”?
“Desde quando decidi ser educada com uma vampira?”
Seria algum charme vampiresco? Os manuais diziam que essas habilidades existiam. Talvez Hansel estivesse afetado, por isso concordou com tal encontro em primeiro lugar.
Grety olhou para ele, que ergueu uma das sobrancelhas em resposta. “Esse lerdo? Nem pensar.”, foi sua conclusão.
— Não se preocupe, senhorita Gretel. Vampiros Derradeiros são essencialmente diferentes de nossos “parentes”, digamos assim. Não me sinto ofendida, pois eu mesma não possuo empatia por eles, e…
— Isso tudo, por mais verdadeiro que seja — interrompeu Hansel —, não explica o que faz a senhorita Alucaria requisitar nossos serviços.
— Ora, mas já deixei essa parte clara! Quero que caçem meu pai!
— A senhorita deseja tomar o trono para si?
— Não, mestre Hansel.
— Para algum de seus irmãos, como o príncipe herdeiro?
— Caspian? Ora, aquele mulherengo não serve para o trono.
— Vingança contra seu pai, então?
— Não possuo ódio genuíno contra meu pai.
Hansel deixou o ar entrar e sair de seus pulmões. Repetiu o processo três vezes, como aprendera com sua mestra, e massageou os olhos, que pareciam mais e mais caídos conforme o andar da conversa.
Essa era a primeira vez que Grety viu Hansy tão frustrado.
— Qual o motivo, então?
— Os vampiros em Nocturnia caçam com padrões ordenados, da forma que o mestre Hansel descreveu — concordou, de cabeça baixa, com o fato citado antes. — Suas incursões a vilarejos não são diferentes de caçadas organizadas por humanos a monstros ou animais.
Ergueu a face e, vendo Hansel acenar para que continuasse, o fez:
— Humanos, porém, não são animais. Eles são seres belos, inteligentes, corajosos… — Sua voz afinou-se, aproximando-se de um bule efervescente. — Vocês são completamente diferentes do gado ou das feras que alguns dos nossos utilizam para matar a fome de sangue; suas almas, elas são lindas!
As duas gemas escarlates rebrilharam, e lágrimas gotejaram por suas bochechas de porcelanato. Elevou a mão direita ao rosto para as secar, quando Roderic, até então calado e imóvel, deu-lhe um lenço. Sussurrou um “obrigada” quase inaudível em resposta
— Eu, Alucaria Vlad Dracule, não aceito a forma como meu pai vê os humanos… — As palavras saíam cada vez mais espaçadas. — Eu tentei… Tentei de todas as formas! Conversar, dialogar, debater, discutir, insistir, resmungar, chorar, gritar!
Se antes tomava-lhe como branca como leite, Grety a via vermelha como sangue. Nem um único pingo de fúria descia de seu rosto, no entanto.
— Humanos merecem viver! — Pela primeira vez, soltou a voz, que reverberou nos ossos dos outros três que a circundavam.
Hansel, ligeiro, encarou todas as paredes. Seu granito escuro e desgastado abafava bem o som de conversas feitas num silêncio combinado e calculado, embora ele não soubesse se fariam o mesmo nessa situação.
Tamanho era o eco da alma de Alucaria Vlad Dracule.
— Por isso eu os peço, Hansel e Gretel Vonwyll, que me ajudem; ambos são minha última esperança.
Grety engoliu seco. Hansy ainda coçava o queixo, meio preocupado com as salas adjacentes, meio atônito com a declaração da princesa vampira.
— Senhorita Alucaria — chamou-a, abrindo as mãos à frente como um gesto de paz —, permitiria que eu conversasse com minha irmã sobre este assunto? A sós, claro.
— Claro — respondeu, em meio aos soluços. — É claro, eu compreendo. Tomem o tempo que acharem necessário.
— Peço-lhes perdão pela minha descortesia — acrescentou, enxugando as maçãs do rosto.
Hansel acenou-lhe, depois apontou a porta para Grety com a cabeça. Saíram sem demora.
— Então, Grety?
— Você, pedindo minha opinião? — questionou. — Não me olhe assim, Hansy! — bufou ela, sem o encarar nos olhos.
Sentiu, porém, o olhar dele, e o respondeu:
— Por mais que deteste admitir, nada do que ela disse parece mentira.
— Seus olhos dizem isso?
— Sim. E você, o que “sentiu”?
— Senti as dores de uma garota assustada em ter que pedir que estranhos assassinem o próprio pai. — Ele deu de ombros. — A questão não é parecer mentira; ela é tão honesta que nem deve saber como mentir.
— Detesto quando você está certo.
— Também te amo muito, Grety. — Deu três batidinhas na cabeça da irmã, que lhe agarrou o braço e apertou.
— E mais: há séculos que a Ordem busca o rei dos vampiros. Tirá-lo da jogava viraria o jogo para a Ordem, sem dúvidas. Ah, se também puder soltar braço
Grety ponderou por alguns instantes, sem soltar Hansy. Olhou-o nos olhos e disse, por fim:
— Vamos ver no que vai dar.
— Concordo. Mas não sem antes contatarmos a mestra Grimm.
— Hah, isso é a sua cara, senhor certinho — Gretel riu. — Pronto para encarar essa furada em que vamos nos meter?
Ela o soltou e ergueu a mão aberta, na espera que ele reciprocasse. Assim Hansy o fez, e ambos sorriram.
Grety abriu a porta, que bateu contra a parede, e disse, tão alto quanto Alucaria fez pouco antes:
— Alucaria, nós aceitamos seu contrato!
E a princesa vampira, no meio daquela noite chuvosa e decaída, brilhou como o mais alto Sol, e sorriu.

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