Faíscas estalaram com o choque de uma lâmina contra as garras. Desapareceram num instante, como uma vela que é engolida pelo súbito cair da chuva.

    De fato, a água só não prejudicava a visão do espadachim por conta das abas largas de seu chapéu. No entanto, o peso do tecido umedecido e os pingos que escorriam de suas pontas  faziam com que cerrasse os dentes.

    O rugido da chuva era uma nascente infindável, que lançava tudo que caísse em sua correnteza ao chão. A lama esguichava para os lados e em suas botas, às vezes até subia na altura de sua cintura ou obstruía parte de sua visão.

    Com a mão direita, puxou as rédeas de sua égua. Ela relinchou e jogou-se para a direção ordenava. A espada interceptou outro ataque, e mais centelhas voaram no ar.

    — Verme humano! Não pense que é grande coisa! — Uma voz gritou, abafada em meio aos pingos.

    Veio de um vulto ao lado do homem que cavalgava. Ia quase na mesma velocidade da égua, pairando pelo ar. O breu absoluto e a precipitação constante o ocultavam como um véu, mas o espadachim sabia que estava ali; não o via, mas o sentia ecoar na noite.

    Os céus negros rugiram, e um clarão dividiu-o ao meio. O vulto viu-se revelado pela luz: era um humano.

    Ou parecia com um humano.

    Tronco, braços e pernas como os de um homem, e um rosto de homem. Contudo, tinha asas negras brotando de suas costas, e suas feições não eram as de um homem: seu nariz era como o de um morcego, seus dentes afiados como agulhas e os olhos ardiam em cor de sangue. 

    No breve momento em que o relâmpago cortou os céus, ergueu as mãos aos olhos. Ou melhor, suas garras; gigantes, felpudas e afiadas. 

    O espadachim aproveitou a oportunidade. Ergueu o braço, pesado pelas vestes ensopadas. Estocou então sua lâmina na direção do ventre do monstro.

    Esse, porém, aparou-a bem a tempo. 

    — Hah! Suas tentativas patéticas de me matar são…

    Ouviu-se um estalo no meio da chuva. A criatura arregalou os olhos. Suas asas de súbito pararam de bater; seus braços perderam as forças. Cristais de gelo desabrocharam na região de suas têmporas.

    Menos de um segundo depois, seu corpo caiu na estrada em movimento, rolando pela terra úmida.

    O espadachim, com um sorriso, voltou-se para trás. Pôde ver a carruagem que acompanhava desviar por um fio de cabelo dos restos mortais da criatura, e percebeu o contorno vago do cocheiro acenando-lhe com a cabeça. 

    — Bom tiro, Grety! — gritou, seguido por outro trovão. 

    Dessa vez, viu outro cavalo, à esquerda da carruagem, que carregava uma mulher. Tinha um chapéu de abas largas como o dele e empunhava um longo rifle. A luz refletiu em seus olhos de cobalto, bem como em seu sorriso perolado. Ela ergueu o polegar ao alto e endireitou o chapéu logo depois. 

    Atiçou seu próprio cavalo, e gritou em meio ao ruído da chuva:

    — Hansy… dois… atrás…

    Foi o que ele conseguiu entender; o suficiente para saber o que fazer em seguida. Sinalizou com a mão, mesmo sem a luz dos relâmpagos, para que Grety avançasse. Não podia vê-la, mas sabia que logo se encontrariam. 

    Direcionou sua montaria para o lado esquerdo da carruagem, afim de trocar palavras sobre seus próprios planos com Grety. Essa, porém, gritou-lhe outra vez:

    — À frente… Cuidado! 

    Mais um raio riscou os ares. Hansy percebeu que algo obstruía a estrada. Não estavam tão distantes do que quer que fossem aqueles vultos, mas sabia que devia agir rápido.

    — Pare a carruagem! — ordenou ao cocheiro, que assentiu e puxou as cordas dos cavalos.

    Hansy fez o mesmo, e sua égua grunhiu diante da ordem repentina. Não perdeu o equilíbrio, mas a lama e o barro explodiram com a força de suas pernas e cascos. 

    As rodas da carruagem gemeram. O tilintar das suas peças de metal ecoou como instrumentos numa orquestra. Os cavalos que a puxavam imitaram a égua do espadachim. Tropeçaram desordenados, com protestos incomparáveis com o simples grunhido da montaria do rapaz. 

    Interromperam-se há poucos metros da obstrução, que Hansy reconheceu como corpos de touros e vacas. Lembrou-se por um instante dos rumores de gado desaparecido numa fazenda próxima ao ver seus corpos murchos jogados no meio da passagem.

    Barro pulou ao seu lado quando o cavalo no fim da pequena caravana o alcançou. Grety, agora ao seu lado, estalou a língua. 

    — Aí que foram parar aquelas cabeças de gado. — Sua voz, em meio à fúria constante da chuva, parecia mais um sussurro abafado.

    — Não temos tempo para isso — disse Hansy, que moveu as rédeas de sua égua para a direção oposta. — Dois, certo?

    — Três. — A mulher endireitou o chapéu e encaixou o rifle no espaço apropriado da sela. — Outro surgiu enquanto corríamos.

    Trotaram em menos de um quarto de minuto para as costas do do veículo. Hansy disse em voz alta ao cocheiro para que entrasse e fizesse silêncio, mas não obteve resposta.

    A chuva amainou em força, e as nuvens permitiram que um pouco de luz prateada descesse sobre o ambiente noturno. Para os olhos treinados de Hansy, já era o suficiente para reconhecer seus arredores.

    Desceram de suas montarias e deram-lhes tapinhas nas coxas, sinais usados para que essas se escondessem.

    Três vultos pousaram no chão, há seis ou sete metros de distância da dupla. Usavam roupas finas e bordadas, dignas da alta sociedade. Seus rostos eram pálidos, como se estivessem mortos há dias, e seus olhos eram escarlates.

    — Ora, é um prazer. — O que se encontrava no meio deles fez uma mesura. — Chamo-me Conde Magnus, de Isenwald, mais ao Oeste. Acredito que meus subordinados foram mal educados com este cavaleiro e esta dama. Por isso, peço-os minhas sinceras desculpas.

    Curvou-se uma segunda vez, sem retirar os olhos de ambos.

    — São vampiros — Grety afirmou, com as mãos cobertas pelo seu casacão. Hansy sabia que mantinha-nas sobre seus revólveres. 

    — Ora, de fato! — Conde Magnus concordou com um sorriso. Manteve a mão direita aberta, com a palma virada ao peito. — Mas peço que não se escandalizem! Somos bons vampiros, não é rapazes?

    Os outros dois concordaram, também com largos sorrisos. 

    — Só nos alimentamos de animais! Nada mais! — disse um deles.

    — Animais de fazendeiros, trabalhadores honestos! — Grety deu um passo à frente, mas Hansy ergueu o braço para a impedir.

    — Se sua refeição é composta de animais, por que perseguiam esta carruagem? — perguntou, sem nenhuma expressão aparente. 

    O conde alargou mais seu sorriso.

    — Há uma pessoa dentro dessa carruagem que deve muito a mim e à minha família, entende? — cruzou os braços atrás das costas e pôs-se a andar de um lado ao outro. — Negócios dentro do condado de Isenwald. O indivíduo aí dentro não pagou o que nos era devido e escapou com o dinheiro.

    — E por isso vocês os caçaram nesta chuva, como animais? — Ele ergueu uma das sobrancelhas.

    — Nos precipitamos, admito! Em especial meu subordinado, Bram — argumentou, balançando a mão em círculos e apontando para Hansy —, que atacou este nobre cavaleiro sem motivo. Entendo as noções de autodefesa, é claro, pois não sou nenhum bárbaro; no entanto, acredito que matar o pobre Bram foi…

    — Uma dívida não é motivo o suficiente para quase derrubar uma carruagem e matar seu dono! — Grety grunhiu, e Hansy notou que ela apertava os punhos de seus canhões de mão. 

    — Agora não, maninha — sussurrou em seu ouvido. Grety bufou, mas o obedeceu.

    — Ah, mas onde estão meus modos! Não perguntei os nomes dos jovens mestres! — Deu-lhes a deixa para falar com a mão livre.

    — O que a pessoa nesta carruagem te deve? — Hansy indagou e, por um milésimo de segundo, viu o sorriso de Magnus contorcer-se em seu rosto.

    — Veja bem, tenho meus princípios. Meus negócios são privados. Adoraria compartilhá-los com os jovens mestres, que certamente são de boas famílias, sim! Vejam suas vestes, suas armas! 

    — Somos caçadores. — Grety pôs a língua para fora. — Caçamos monstros, sejam sobrenaturais ou não. 

    Hansy a encarou, que retribuiu o gesto.

    Magnus concordou com a cabeça e com um sorriso e fez outra mesura, desta vez mais leve.

    — Eu entendo, por isso optei por chamá-los de jovens mestres! E é por isso, como conheço o orgulho dos caçadores, que propus este diálogo civilizado.

    — E o que propõe com este diálogo? 

    — Ora, jovem mestre! Proponho uma simples troca! O orgulho e a vida de ambos, pela vida do cocheiro e de sua senhora, que agora se escondem dentro dessa charrete acabada.

    Um último raio lançou-se pelos ceus. Os dois irmãos, cobertos e encharcados, fitaram o trio vampírico com seus olhos. Esses tremeluziam diante da tempestade em tons brilhantes de azul.

    Hansy ouviu o barulho familiar de Grety retirando suas armas dos coldres. O rapaz, por sua vez, ergueu sua espada com a mão esquerda.

    Num piscar de olhos, o Conde Malric desapareceu de sua posição. Grety moveu os olhos, seguindo seu vulto quase imperceptível.

    Hansy, num salto, jogou-se no flanco direito da mulher. Com a arma em punho, impediu garras de perfurarem-na nas costelas. 

    — Sabia que faria isso — riu-se e chutou Malric no estômago. 

    — Matem-nos! 

    Grety ergueu seus canhões de mão, tão rapida quanto o sumiço do conde. Concentrou seu fogo num dos lacaios. Ele abriu suas asas para fugir, porém três balas o perfuraram no torso, clavícula e testa. 

    Fragmentos de gelo surgiram nas regiões atingidas. O corpo caiu, com gelo cobrindo-o cada vez mais.

    — Tolo! Não subestime esses humanos! 

    E voou num arco pela horizontal, na direção do outro flanco de Grety. Ela atirou de antemão e interrompeu sua trajetória. 

    O outro capanga apareceu diante de Hansy e tentou agarrar sua espada. Com um puxão, jogou-o ao chão e fincou a espada em seu peito, na região do coração.

    — Menos dois — disse Grety.

    — Falta um — continuo Hansy, apontando para o Conde Magnus.

    Arrancou na direção direção do conde, espada na altura do rosto. 

    Grety trocou de posição. Atirou mais duas vezes com ambas as armas. O conde defletiu os tiros com suas garras, e seus dentes cerraram com o ardor do gelo.

    Bloqueou a lâmina de Hansy com elas. O Caçador deu um salto para trás. Dobrou os joelhos e correu em volta do conde, com a lâmina entre os dois. 

    Magnus ergueu os braços, mas parou logo na frente da cabeça. Duas duplas de tiros o atingiram na mão, que tingiram-se de sangue e gelo. Encarou Grety de canto de olho.

    Hansy estocou. O conde, porém, agarrou a espada por entre as garras. Percebeu que Grety precisaria recarregar suas armas. 

    Uniu os dedos afiados como uma lança, pronta para perfurar o peito de seu alvo. Lançou seu braço com toda a força que seus músculos permitiam.

    Seu alvo sorria. Agarrou a empunhadura com ambas as mãos. Seus olhos arderam como centelhas de uma forja. O metal da espada brilhou num tom carmesim.

    — Cinzas para as Cinzas! 

    E a lâmina irrompeu em chamas rubras e douradas. As mãos do conde explodiram, e o fogo consumiu seus braços. 

    Esse curvou a cabeça, e um projétil raspou na ponta de seu nariz. 

    Não teve tempo de planejar seu próximo passo. O espadachim desceu sobre o Conde Magnus como uma serpente em chamas. Circundou-o e o desmembrou em quatro cortes limpos e precisos. O tronco imobilizado tombou no chão.

    Cerrou os dentes, caído de costas para o chão. A mulher tinha uma visão boa de mais. Se não fossem seus sentidos aguçados, teria morrido sem perceber como seus subordinados. O homem era forte e treinado demais; seu corpo não cedia às pressões físicas, e suas habilidades marciais causavam-lhe inveja. 

    O que poderia fazer o Conde Magnus?

    — Aaaaaaargh!

    Um uivo fino saiu de sua boca, e os irmãos cobriram os ouvidos. 

    Um morcego gigante surgiu das árvores. Suas asas lançaram gotículas em todas as direções, fazendo com que a dupla também erguesse um dos braços para as bloquear.

    A fera agarrou o conde em sua boca e alçou vôo pelo céu noturno. Grety ergueu a mão esquerda e atirou as seis munições do tambor, mirando nas asas e na cabeça da fera. Essa, porém, desviou com uma estranha graça de todos os projéteis e desapareceu na tempestade.

    — Você precisa praticar sua mira. 

    — Cala a boca, Hansy! — ela grunhiu, recarregou a arma e a guardou em seu coldre. — Vampiros são muito rápidos, é difícil focar num alvo. Quem dirá com essa chuva.

    Estendeu a mão ao alto, deixando as gotas caírem e se acumularem nela.

    Viraram-se, então, para a carruagem. Logo em sua porta, jazia o cocheiro, um homem de cabelos grisalhos e barba aparada.

    — Agradeço-os, nossos benfeitores! — Curvou-se de leve, semelhante ao conde apenas nos movimentos externos. — Minha dama também gostaria de vos agradecer.

    — Isso é muito legal da sua parte, mas nós gostaríamos de saber o motivo de vocês estarem fugindo de um bando de vampiros.

    — Não se enganem! — disse uma outra voz, suave e fina, como vários sinos tocando — Conde Magnus é um mentiroso enganador!

    O homem ajudou a dona da voz a descer os degraus. Segurava uma grande sombrinha em suas mãos, negra como seu vestido. Faria-na desaparecer na noite, não fosse a iluminação que vinha de dentro da carruagem.

    Não fosse também, o alvo do mármore em sua pele, das estátuas e esculturas mais belas que viam nos salões de exibição pelos reinos. Ou pelo mar claro que dançava ao ao vento, numa correnteza de leite doce e puro, que eram seus cabelos; ou por seus olhos cor de sangue, encarando o infinito além deles.

    — Os senhores são caçadores, correto? — indagou, com a voz angelical atrapalhada pelo vento e a chuva. — Chegaram numa maravilhosa hora, pois tenho um grande serviço!

    Os irmãos trocaram olhares.

    — Que serviço? 

     A chuva amainou-se outra vez, e suas vozes podiam ser ouvidas com mais clareza. 

    — Chamo-me Alucaria Vlad Dracule, ao seu dispor. — Levantou um pouco sua longa saia com a mão livre, junto de uma reverência. — Sou filha de Vlad Kaspar Dracule, o Rei dos Vampiros. 

    Hansy e Grety arregalaram os olhos. A mulher, Alucaria, abriu um sorriso.

    — Gostaria de contratá-los para caçar e matar meu pai.

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