Capítulo 4: Caçadores e Monstros
“Aqueles que caminham pela Vigília devem cultivar virtudes que sustentem sua disciplina.” O Código dos Caçadores, Artigo Terceiro
— Entendo! Então é desta forma que os cidadãos entram em contato com vocês, caçadores — disse Alucaria, erguendo de leve um pedaço de papel, pregado a um quadro de madeira.
— Alguns nos enviam cartas, quando há alguma sede próxima. Apple Hollow não possui uma, no entanto — explicou Hansel, que passava também a mão entre os papéis. Sua outra mão descansava no pomo de sua espada, presa à cintura.
No salão que se encontravam, pessoas conversavam e chamavam pelas garçonetes. Alguns reclamavam que seus pedidos demoravam, outros pediam mais comida; uns poucos indagavam sobre notícias vindas de Silberfaust. Algo sobre as ações da conselheira da rainha.
O olor de carne e queijo derretido percorria as narinas de Hansy, e o vapor das refeições invadiam sua mente e tomavam sua concentração sempre que um prato passava ao seu lado. Seu estômago dava-lhe pontadas para lembrar do que tanto precisava a todo instante.
O que mais o distraía, porém, era Alucaria. Que tipo de perfume deixa-se espalhar por um ambiente inteiro, e não fica somente enredado em seu usuário?
Quais as flores que se misturavam para alcançar tal cheiro? Jasmins, rosas e margaridas eram tudo que podia perceber por entre a explosão de odores doces.
— Oh, veja, mestre Hansel — cutucou-o no cotovelo. — O que acha desta?
“Ela sequer nota o quanto chama atenção?”
Decerto, muitos na estalagem, a mesma em que discutiram há duas noites atrás, viravam-se para a princesa vampira sempre que abria a boca. Tal melodia só era ouvida em dias de festival de primavera, onde a sidra e o queijo jaziam abundantes nas bocas e estômagos do povo.
Muitos fitavam a cascata cristalina que descia de sua cabeça; ainda que sob a luz amainada do Sol da manhã, que mal entrava pelas janelas, rebrilhava como um rio de diamantes. Hansel, por sua vez, via a situação como algo digno de riso, embora se recusasse a fazê-lo.
— Mestre Hansel? — Seu rosto foi coberto por uma folha, encardida e com rasgos nas pontas. — Que tal este para a caçada de teste?
Assim que deram sua resposta, os irmãos, em especial Hansel, ofereceram a Alucaria uma “caçada de teste”. Seu objetivo era demonstrar suas habilidades como caçadores dignos de serem contratados.
— Ah, claro — respondeu, balançando a cabeça para os lados. — Deixe-me ver.
Tomou-lhe o papel, um contrato de caçada, donde leu: “Pedido de caça de Homem-Musgo”.
Esses eram construtos, feitos de musgo, como o nome indicava. Tomavam várias formas, em geral humanóides — nunca maiores que uma mulher adulta —, e comiam plantas rasteiras. Não eram perigosos ao extremo, pois viviam escondidos em cantos úmidos e escuros e só atacavam quando corriam perigo de vida.
— Acho que este é simples demais para mostrarmos do que somos capazes — explicou ele, colocando o pedido de volta no painel de madeira. — Talvez algo como este…
Passou os dedos por entre as folhas, buscando relembrar os que chamaram sua atenção. Interrompeu sua mão diante de um, quando outra colocou-se sobre o mesmo contrato.
Virou-se e encontrou um homem de barba grisalha. Vestia-se com roupas escuras e um longo casaco, os quais Hansel deixou em seu quarto pela manhã. Percebeu, porém, a mesma túnica branca que tinha consigo, por baixo das vestimentas do estranho. Ostentava também um capuz, que pendia em volta de seu pescoço, negro como as noites sem estrelas do inverno.
Trocaram olhares, e o homem disse:
— Capuz Negro. — Então sorriu para Hansel, com as sobrancelhas erguidas.
— Salamandra — respondeu o rapaz, tirando a mão direita do pomo de sua espada. Era uma protuberância pontuda, como um dente.
— Hah, tão jovem! — O homem riu e tirou a mão do quadro. — Todo seu, filho.
— Não, eu insisto. — Hansel fez uma leve mesura. — Ainda estamos decidindo.
Deu-se por satisfeito o outro homem, que tomou o contrato que ambos escolheram. Bateu algumas vezes no ombro do jovem caçador, e disse antes de se afastar:
— Boa Vigília, filho.
— Igualmente.
E afastou-se alegre de Hansel e Alucaria. Essa última fitou o primeiro.
— Você o conhece?
Hansel fez que não com a cabeça.
— Um veterano de outra escola de Caçadores, o Capuz Negro. — Ao ouvir suas palavras, a princesa inclinou a cabeça de leve.
— Achei que as escolas não se dessem bem. — Pôs o indicador sobre o queixo, mas recebeu apenas um “Talvez” como resposta.
— Apenas dei o devido reconhecimento e respeito a um irmão de Vigília com mais experiência que eu — concluiu ele, meio olhando para o quadro, meio para Alucaria.
Seus olhos não eram como os da irmã, mas tinha confiança em seu “Sentido de Caçador”. De fato, seu principal objetivo com essa caçada de testes não era a demonstração de habilidades; mas sim à observação de sua contratante.
“Cuidado nunca é demais” era uma das frases que sua mestra, Rouge Grimm, mais dizia, junto de seus pais. Hansel a levava ao extremo; mesmo quando certo de algo, buscava ter uma certeza ainda maior neste algo.
Grety e ele se dividiram em seus serviços, que começaram muito antes de sua caçada: Ela compraria ingredientes alquímicos, mantimentos e outros materiais essenciais que lhes faltavam com Roderic; ele decidiria o alvo da caçada com o consentimento de Alucaria.
Sondava-lhe as reações — ou a falta delas — quanto a cada resposta que a dava. Tomou cuidado para dissertar apenas sobre o necessário para evitar qualquer desconfiança.
Explicava-a as coisas comforme perguntava. Tratou, claro, dos assuntos mais óbvios, como Argente Vale, no extremo Norte, onde encontrava-se a sede da Ordem; explicou-a sobre os diferentes monstros que surgiam nos contratos que desprendia do quadro e suas categorias.
— É bem simples: Caçadores geralmente enfrentam qualquer mostro que encontrarem em sua trilha, se seu nível de periculosidade não exceder suas capacidades. Estas tabelas de contrato são para que a população peça ajuda, caso não conheçam ou não saibam encontrar um dos nossos. — Foi o que lhe explicou.
Diante de suas respostas, muitas das vezes óbvias, tiradas até mesmo de manuais dos Caçadores que Hansel decorara, aguardava qualquer ato que a tornasse suspeita aos seus olhos. Contudo, a vampira não demonstrava maior interesse que qualquer dama curiosa em relação a organização mais comentada de Vespera.
Uma ou outra vez, indagava mais sobre o assunto. Como quando perguntou sobre a gestão interna das Escolas de Caça. Hansel dizia pouco, esperando que a mulher insistisse; mas essa sempre aceitava o assunto como terminado, pulando para o próximo.
Não haviam segundas intenções em suas falas.
“No mínimo, ela finge muito bem”, concluiu em sua mente, com um suspiro.
— E que tal este? — Alucaria o entregou outro papel.
— “Avistamentos de uma árvore que se move sozinha e ataca transeuntes na estrada da floresta” — Hansel recitou o conteúdo, num tom alto o suficiente para que só a princesa ouvisse. — Parece um Leshie, um tipo de árvore viva e agressiva que gosta de sufocar e esmagar suas presas com seus galhos.
— Então? — Os olhos carmesim rebrilhavam.
“Ela parece uma criança.” Hansel pensou e deu de ombros.
— Serve.
— Ótimo! Vamos procurar Roderic e a senhorita Gretel! — pegou o papel da mão de Hansel e foi na direção da porta da estalagem.
Os olhares passaram por ela durante todo o curto trajeto. Seu vestido, agora num púrpuro profundo, farfalhou de leve com seus passos, dando a impressão que caminhava sobre uma nuvem.
Não trazia chapéu desta vez, mas sim uma sombrinha, que combinava com seu vestido e seus tons de preto e roxo entrelaçados. Parou diante da entrada, pois esperava que Hansel chegasse. Esse, com um leve aceno de cabeça, abriu a porta, e ambos saíram.
Em um milissegundo, Alucaria abriu sua sombrinha. O céu cobria-se de um cinza, semelhante ao cimento que pedreiros aplicavam nas casas de bairros mais nobres. Por entre essa densa cortina de rocha celeste, escapavam algumas poucas lanças de luz, cortesias do Sol que se escondia mais alto nos céus.
Hansel sabia que Vampiros Derradeiros não morriam ao entrar em contato com a luz solar. Ainda assim, a princesa que o acompanhava andava coberta quando sob o Sol, mesmo nestas condições.
Caminharam pela única via pavimentada de Apple Hollow, a principal, onde encontrava-se a estalagem da Sidra Errante. Uma ou duas carroças passaram por eles, e um único fazendeiro que passava com um carrinho cheio de maçãs.
Combinou de encontrar Grety num ponto entre o poço mais ao leste da cidade e o pomar. Poucos trafegavam por aquela área, pois acreditavam que aquele ponto era assombrado por espíritos. Hansel verificou isso no dia anterior, claro, e constatou que era falso, como muitos pedidos feitos a Caçadores em comunidades não muito grandes.
Tomaram uma das ruas de terra, batida pela constante passagem dos cavalos e burros de carga, e logo alcançaram o velho poço. Debruçada sobre a viga de madeira que sustentava a cobertura, estava Grety. Ao seu lado, estava Roderic, com um grande saco na frente de seu peito.
— Compras feitas, mano — disse Gretel, com o polegar erguido.
— Roderic! Você ajudou ela com as compras! — Alucaria bateu várias palmas.
— Nem eu sei se deveria ficar orgulhoso ou ofendido com essa — Grety riu diante da expressão que Roderic fazia.
A princesa ergueu o panfleto, e Roderic deixou o saco no chão.
— Um Leshie?
— Eles são relativamente comuns em Eisenwald. — Hansel cruzou os braços.
— Quando pretendem começar?
— Dependerá do quão rápido Grety conseguir terminar nossas poções. — Encarou a irmã que, com um pulo alegre, abriu a enorme bolsa de couro.
— Leshies são espíritos de árvores, então precisaremos de um óleo espectral — disse ela, mexendo no conteúdo da bolsa. — Não temos muito sobrando, então precisarei misturar mais. Não tínhamos muitas opções no herbalista de Apple Hollow, mas vejamos…
— Pó de asa de Pixie, pétalas de Lírio da Névoa, mel…
— Comprou sal de fogo? Seria bom se tivéssemos algumas bombas chamejantes.
— Está na mão, mano! — Mostrou um frasco na mão, cheio de um pó rosado e cristalino. Hansel acenou em concordância.
— Asa de morcego-ciclope, pó de esmeralda…
Roderic observava enquanto a irmã Vonwyll citava tudo que juntara para sua missão. Seus olhos tinham uma mistura de curiosidade e desdém.
— Vejo que é assim que vocês caçadores combatem. É um método eficiente para criaturas de baixo intelecto como um Leshie, mas ineficaz contra um ser grandioso, como um Vampiro Derradeiro.
— Já lidamos com vampiros antes, vovô. Até matamos alguns — Grety riu, sem dar-lhe muita atenção.
Roderic deixou um único e alto riso escapar.
— Não. Vocês não mataram.
Gretel virou-se para ele, com um meio sorriso estampado no rosto.
— Quer apostar?
Num instante, as pupilas de Roderic contraíram-se, e seus caninos surgiram entre os dentes cerrados. Parecia-se com a expressão que mostrou quando se conheceram.
— Sua fedelha! — As unhas em suas mãos cresceram, tornando-se como as de uma fera. — Uma criança como você, que mal saiu das fraudas, acha que pode matar um vampiro?
Teria a atingido, se não fosse o chute no estômago que recebeu de Hansel. Voou uns dois metros para trás, de braços ainda estendidos e buscando um alvo.
Esse ergueu sua espada. Faíscas apararam as garras recém formadas. O metal acinzentado refletia os olhos rubros de Roderic em sua superfície.
— Acalme-se. Você não quer comprar essa briga.
— Hah! — o vampiro riu, já longe de seu tom solene. — Não sou como aquelas sanguessugas que você espantou, fedelho!
A lâmina de Hansy emitiu um leve brilho vermelho. Empurrou-a junto das garras para trás, o que fez Roderic cerrar os dentes.
— Ouse levantar a mão contra minha irmãzinha novamente, e eu usarei todo meu Foco para invocar o próprio Rei das Salamandras e mandá-lo te devorar.
— Hmph! — ele grunhiu. — …?
Ao som de um clique, o mordomo inclinou o rosto. Grety o mirava, com seu revólver em mãos.
— Tenta a sorte. Dizem que a prata tem um gosto bom.
— Chega! — Um urro selvagem os interrompeu. — Roderic, desista!
Alucaria, ainda sob seu guarda-sol, agarrou seu servo pelo braço.
— Senhorita Alucaria! Estes humanos…
— Roderic — interrompeu ela —, quando saímos de Nocturnia, você disse que me serviria. Pois bem, sou sua mestra; estes dois são os caçadores que pretendo contratar. Aja como um servo e obedeça sua mestra.
O homem arregalou os olhos; parecia ter visto uma aparição. Ainda assim, abaixou a cabeça em uma mesura, e pediu desculpas com uma voz grave, mas ao mesmo tempo singela.
— Grety.
— O que?
— Você também — Hansel insistiu, o que fez a irmã arregalar os olhos. — Não me olhe assim. Mamãe e papai te ensinaram melhor.
A garota concordou com a cabeça.
— Está certo — suspirou e fez o mesmo gesto que Roderic. — Fui deveras agressiva com nossos clientes.
— Não, eu que devo me desculpar — o homem respondeu, com a mão sobre o peito. — Os companheiros da senhorita também são os meus. Cometi um erro como servo.
A princesa vampira bateu as mãos.
— Ótimo! Estamos resolvidos. — Tornou para Hansel, alegre. — Agora, mestre Hansel, lembro-me que nunca o questionei sobre a recompensa!
— Deixemos isso para depois do Leshie — argumentou ele, dispensando o assunto com a mão.
— Não! Eu insisto!
— Sim, eu também insisto! — Grety agarrou o irmão no braço, que a encarou com os olhos semicerrados e um semblante severo.
— Socorro!
Os quatro viraram-se para a direção de onde vieram. Uma mulher corria rumo ao poço, segurando as barras de seu avental com ambas as mãos. Tinha o rosto e os olhos avermelhados, os cabelos despenteados e soluçava em meio as arfadas da longa corrida.
— Por favor, socorro! — Quando os alcançou, colocou-se de joelhos diante de Hansel e Gretel. — O senhor e a senhorita são caçadores, certo? Eu os vi na Sidra Errante ontem pela manhã, enquanto trabalhava!
Hansel acenou com o rosto.
— Por favor, ajudem-me! — Agarrou os irmãos pelas pernas. — Meus filhos, meus filhinhos! Meu bom menino e minha doce menina foram sequestrados pela Bruxa do Bosque!
Os irmãos Vonwyll trocaram olhares. Alucaria, ainda coberta por sua sombra, elevou a mão livre para a boca. Seus olhos ficaram abertos e trêmulos. Roderic, de forma mais branda, repetiu o gesto.
— Eu imploro! Nenhuma criança que foi pega pela Bruxa do Bosque jamais retornou!

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