— Maldição!

    Lascas voaram em todas as direções, batendo no teto, paredes e chão. Na mesa de mogno, sua origem, jazia uma mão e um buraco. 

    — Maldição! 

    Conde “Magnus” aplicou mais força e abriu a mão em seguida. Serragem escapou por entre seus dedos, que sujou o fino tapete de lã abaixo de seus pés.

    Seu nome, no entanto, não era Magnus.

    — Alucaria, sua maldita! — arfou em intervalos curtos, semelhante a uma fera. 

    Conde Malric Dornwald lembrava-se dos rumores que circulavam em Blutveinn e em todos Nocturnia, por entre os ouvidos bisbilhoteiros das famílias nobres: Alucaria Vlad Dracule, a primeira princesa do reino, desapareceu sem aviso. Pouquíssimo tempo depois, missões de busca iniciaram-se por toda Nocturnia. 

    Os avistamentos e supostos encontros com a princesa Alucaria não eram poucos. Alguns diziam que se escondia nas fronteiras de Nocturnia, outros acreditavam que sequer saíra de Blutveinn. 

    Com o avanço dos meses, vampiros transeuntes contavam histórias da princesa perdida: que a avistaram em Sturmhafen, no Leste, ou Drakenshire, montada num dragão; que se escondia entre os palácios e templos de cristal de Auroria;  que se casara com o “Cavaleiro sem cabeça” de Thornhollow; ou que compartilhava segredos do sangue dos vampiros derradeiros com os alquimistas de Glockenheim.

    Os mais insanos diziam que ela cruzou as Cordilheiras Negras e foi ao Norte, e que escondia-se em Argent Vale, o coração da Ordem dos Caçadores. 

    Portanto, Malric não pode conter sua animosidade no momento em que descobriu que a filha de Dracule refugiou-se em Eisenwald. 

    A perseguição revelou a Malric que a princesa não fora sequestrada. Suspeitava de tal opção, mas a forma como evitou seus enviados, e o fato do mordomo, Roderic, protegê-la junto de sua carruagem clarearam-lhe a mente. Ouviu o suficiente do velho para ter certeza de que agia como escolta, não raptor. 

    Haviam também, é claro, os sinais que sua majestade, Vlad Kaspar Dracule, deu-lhe no dia que o encarregou de tal missão. Tais memórias não se escondiam por trás de nenhuma névoa, mas brilhavam como cristais à luz do dia em sua mente. 

    “Os escolhidos, agora condes do reino de Nocturnia pelo decreto de sua majestade, podem levantar.”, era a primeira memória que o vinha ao recordar de tal dia.

    Encontrava-se não em qualquer lugar, mas na sala do trono de Vlad, o Rei Sanguinário. Tapeçarias pendiam do alto teto, que se curvava até chegar a seu topo, em tons de vermelho e preto, como nas paredes de mármore negro. Rosas esbanjavam-se nelas, com seus caules e espinhos gotejando sangue petrificado. Enroscadas nelas, apareciam variados seres: ovelhas, cabras, trolls e humanos, com rostos cobertos de agonia. 

    Num grande trono, trabalhado em pedra escura e espirais de ouro, sentava-se uma sombra.

    Ou era ao que se assemelhava a figura ali recostada: um vulto, um espectro que se escondia nas trevas, longe de olhos curiosos. As luzes, espaçadas em candelabros de cristal, não o alcançavam.

    A sombra balançou a mão, e os ali presentes, antes ajoelhados, ergueram-se. 

    — Está bom, Corvin. — Acenou para o homem que falou antes, que deu alguns passos para trás. — Minhas felicitações, meus nobres condes. Os selecionei dentre os meus mais leais servos, por conta de seus talentos: inteligência, ambição, poder…

    Malric percebeu, por entre as trevas, a pressão dos olhos sangrentos. Não os via; não conseguia sequer erguer a cabeça, afinal. Ainda assim, seus ossos pareciam capazes de se despedaçarem a qualquer instante. Um frio percorria sua espinha sem cessar, suor escorria de sua testa, e seu coração estava a ponto de explodir.

    Desde garoto, aproveitava suas caçadas, tanto contra animais selvagens quanto contra humanos. Ambos eram ovelhas, e ele, Malric, agora conde, era o lobo. Poderia a ovelha esconder-se do lupino que a fareja? Um cordeiro jamais venceria seu caçador.

    Agora, porém, Malric sabia que era a ovelha. 

    O Rei dos Vampiros, Vlad Kaspar Dracule, era o lobo. Não qualquer lobo, mas o alfa da alcateia. Diante de sua sombra, que dominava cada canto daquele salão, Malric Dornwald conseguia apenas tremer em suas bases.

    — Agradeço-os, pois, pela sua disponibilidade. Afinal, como já sabem, minha doce filha, Alucaria, desapareceu. — O novo conde conseguiu perceber o rei apoiando a mão sobre o braço entre as sombras. — Ela é uma tola, sem sombra de dúvidas. 

    — Eu possuo um enorme carinho por minha amada filha — disse, sem mudar seu tom. — Portanto, peço aos jovens senhores que a busquem e encontrem. Tragam-na a mim; e matem qualquer verme que estiver com ela.

    Todos na sala do trono dobraram os joelhos. As sombras pareciam consumir o restante das luzes vindas dos candelabros, que tremeluziam no fim de suas breves vidas. 

    O coração de Malric saltaria de sua boca se passasse mais um instante assim.

    — E claro que — continuou o rei —, caso a tragam de volta, a recompensa será adequada. — A pressão desapareceu. — Vejam bem, estou disposto a dar a mão de Alucaria ao vampiro que a resgatar.

    Um sorriso enbranquecido surgiu nas sombras, logo abaixo dos olhos rubros que encaravam os recém-nomeados condes.

    — Alucaria é uma bela moça, muito fiel e amorosa. Estou certo de que amaria desposar com seu salvador. — De súbito, pôs-se de pé, e Malric pensou ter visto a ponta de seus pés. — Disfarcem-se. Não deixem que saibam que são nobres de Nocturnia. Estamos entendidos?

    — Sim, sua majestade — todos responderam em uníssono. Malric o fizera por reflexo, e lembrava bem disso; não podia, claro, conter sua animosidade.

    Alucaria Vlad Dracule, a princesa, filha do Rei da Noite; a mais bela flor de Nocturnia. Ela era dele, se a trouxesse de volta sã e salva. 

    Malric, desde pequeno, a observou de longe nas festas de gala dos nobres vampiros. 

    Sua postura de boneca de porcelana, digna das mais belas coleções; seus olhos rubros, abundantes de compaixão por todos ao seu redor; seus lábios rosados, que deixavam escapar um sorriso das pérolas mais puras na felicidade; sua voz que emaranhava quem a ouvia com fios de seda.

    Uma vez sorriu para ele. Teria sido para algum outro? Não. Foi para ele. 

    Nas poucas vezes que falava, encantava-o em seu coração.

    Os Dornwald eram grandes, mas estavam muito longe das Sete Casas Arqueducais; não poderia se aproximar de Alucaria nem se quisesse. 

    Suas idades eram próximas, e sua beleza era incomparável, mas a Princesa da Prata Rubra nunca seria de Malric Dornwald.

    Mas não mais. Ela poderia ser. 

    Ela era dele. 

    Ele ria. Um riso abafado, tanto pela mão que cobria sua boca quanto pelo impulso de segurar a própria voz. Suor escorria de sua testa, e suas pupilas dilataram-se.

    Ela seria dele. Seria; se não fossem…

    — AQUELES VERMES! — urrou a plenos pulmões, e a mesa de mogno, herança de família, cedeu em milhões de fragmentos. 

    Agarrou no ar a garrafa de vinho que estava sobre ela e a jogou na parede. O líquido escorreu como sangue derramado sobre a pedra trabalhada.

    — Se eu não estivesse com tamanha fome, teria os matado ali mesmo! — gritou para si mesmo, buscando as justificativas que lhe coubessem.

    De fato, esteve sem se alimentar há duas semanas. Desde que descobriu a trilha da princesa, não bebeu uma gota de sangue, não dormiu ou tocou em pedaço de carne.

    — Ainda me dei ao trabalho de mascarar minha aparência! — Esfregou os dedos nas palmas das mãos. 

    Escondeu sua alta nobreza vampírica, e ainda foi humilhado por dois humanos! 

    As memórias ainda ecoavam em sua mente.

    “Jovem mestre”?, aquele pivete não merecia ser chamado nem de criança; “senhorita”?, aquela menina era uma pirralha mal educada. Quem eles pensaram que eram? Nada além de vermes.

    Tal era o pensamento de Malric.

    A que ponto teria que chegar para cumprir sua missão?

    Olhou nos arredores do quarto. A mesa jazia em pedaços, os cacos cobertos de vinho. Os armários, cheios de jogos de vidro de gerações, estavam intactos. Conde Malric teve que segurar a vontade de os despedaçar.

    — Controle-se, Malric. Você é maior que tudo isso!

    Colocou a mão sobre o peito e inspirou em intervalos longos. Sua mente começou a esfriar; sua derrota não era completa

    Alucaria ainda estava em Eisenwald. Era impossível sair de Apple Hollow e ter alcançado o Rio Fosco, na fronteira de Rosenthal, a essa altura. Ademais, aquele velho Roderic decerto faria o possível para espantar os dois caçadores.

    Na próxima vez, seriam apenas ele e a princesa.

    “…matem qualquer verme que estiver com ela.” 

    A ordem do rei ecoou nas profundezas de seu coração, e um último sorriso, semelhante ao de uma hiena, surgiu.

    Dois toques abafados vieram do outro lado do cômodo.

    — Mestre Malric? — chamou alguém que ele reconheceu como uma das empregadas. — O jantar está servido.

    “Ah sim, estou aqui”, pensou. Era bom que sua família, que buscava influência em outros países, tivesse uma residência em Eisenwald.

    Por ser uma casa na fronteira com Nocturnia, a maioria dos servos eram humanos. Aos seus olhos, Malric não passava de um mestre jovem e peculiar, com alguns gostos pouco convencionais.

    Apenas um ou dois eram de fato vampiros. E esses, claro, tratavam de auxiliar o novo conde com suas necessidades especiais.

    — Estou indo — disse, tentando conter a animosidade. — Mande prepararem pratos extras, pois tenho muita fome.

    Soltou um sorriso voraz. Afinal, logo sairia para a caçada outra vez.

    E cumpriria, por fim, a missão que lhe foi entregue e tomaria seu prêmio.

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