Capítulo 5: A Lenda da Bruxa do Bosque
“Eu imploro! Nenhuma criança que foi pega pela Bruxa do Bosque jamais retornou!”
Em prantos, a mulher explicou o que ocorreu: há semanas, boatos de crianças desaparecidas espreitavam entre os ouvidos curiosos de Apple Hollow. Segundo muitos, o Bosque de Redbrook era a casa de uma bruxa, que ali se escondia desde tempos antigos e sequestrava crianças para suas refeições. Tal lenda foi esquecida por décadas, quando os estranhos casos pararam de ocorrer.
Isso até as semanas anteriores, quando uma menina, chamada Annabeth, saiu para colher ervas a pedido de sua mãe. Horas depois, encontraram a cesta que carregava estirada ao lado das raízes de uma árvore, numa região mais profunda do bosque.
Como penas ao vento, surgiram as antigas histórias da Bruxa do Bosque, a devoradora de crianças. Outras três crianças desapareceram nas últimas duas semanas. Homens que as procuravam na floresta nada achavam, além de um ou outro pertence que elas carregavam antes de desaparecerem.
De acordo com a mulher, o prefeito fez o possível para abafar tais rumores; as vendas de sidra para cidades vizinhas caíram de forma violenta na época em que a lenda surgiu. Os caçadores que ali passavam não recebiam informações sobre o caso, e contratos não eram pregados nos quadros espalhados pela vila.
Fiora, porém, não pode conter seu pavor ao descobrir que seus dois filhos resolveram explorar Redbrook e não foram vistas desde então.
— Dizem que ela usa doces para atrair as crianças! — Estava sentada no poço, ainda falando em meio a soluços. — O marido de uma amiga disse que viu uma casa feita completamente de doces!
— Doces? — Grety encarou o irmão. Ele deu de ombros.
— Por favor — soluçou outra vez —, minha Gretel só tem três anos. Hansel é um pouco mais velho, mas não o suficiente para levar a irmã à floresta!
Lágrimas escorreram de seu rosto, e seu desespero ergueu-se outra vez entre gritos sufocados.
Hansel estava prestes a agachar-se para a confortar, quando Alucaria se colocou entre ele e a mãe chorosa.
Deixou sua sombrinha no chão, e Hansel percebeu que seu rosto se contraiu de leve. Fez o que ele pretendia, e pôs ambas as mãos sobre as da mulher.
— Fiora, certo? Veja bem, estes dois são exímios caçadores — sussurrou-lhe, e sua voz assemelhava-se a de um rouxinol que cantarolava numa manhã de primavera. — Tenho certeza de que eles serão capazes de trazer seus filhos de volta. Portanto, acalme-se e explique tudo o que sabe sobre essa bruxa.
Fiora, por sua vez, acenou com a cabeça, ainda fungando. Alucaria sorriu em resposta, ainda que não mostrasse seus dentes. Virou-se para os irmãos, já de pé, e disse:
— Mestre Hansel, senhorita Gretel, vocês ofereceram esta “caçada de teste”, e até permitiram que eu opinasse sobre o alvo da caçada. — Ela estendeu os braços na direção da mãe entristecida. — Este será o seu teste: tragam de volta os filhos desta mulher.
— Uma ideia maravilhosa — Hansel concordou e encarou a irmã.
— Concordo. — Grety cerrou os punhos. — Hora de preparar algumas misturas para bruxas.
— Eu… Eu não tenho dinheiro para pagar pelos seus serviços.
A mulher abaixou a cabeça, e as lágrimas quase escaparam de novo. Em resposta, Hansel balançou a face de um lado ao outro.
— Esta é por conta da casa. — Aproximou-se dela e pôs-se de joelhos como Alucaria. — Agora, preciso que me conte qualquer coisa que tenha deixado escapar. Grety, você prepara o resto.
Assim o fizeram, e Hansel tirou o que pôde dos relatos de Fiore. Nada muito distante do que ela dissera antes, além da misteriosa trilha de doces que a tal bruxa preparava para as crianças seguirem.
Deixaram-na em casa após a longa conversa, para que recuperasse as forças. Depois, indagaram sobre Redbrook e a bruxa a todos os moradores de Apple Hollow. O horário do desjejum já chegara, então retornaram para a Sidra Errante, onde comeram pão e queijo.
Pouco tempo depois, estavam no quarto que alugaram alguns dias antes. Alucaria e Roderic encontravam-se da mesma maneira. Gretel sentava-se no chão, com as pernas cruzadas, de frente a pequeno caldeirão de ferro, próxima à janela.
— Bem, essa “Casa de Doces” é claramente fruto de algum ritual de bruxaria — disse Hansel. Suas mãos permaneciam na mesa de centro, onde jazia um mapa antigo da floresta.
As marcas de trilhas e pontos de referência eram de quase cinco anos atrás, então não haviam muitas vantagens em usá-lo em seu planejamento. De toda forma, ele buscou conectar os desenhos antigos com as descrições que recolheu dos aldeões.
— Terra e Água, com certeza — Grety continuou. Jogava ervas e sais na água fervente, testando a mistura com uma concha a cada novo ingrediente. — Talvez Luz, para deixar a casa mais agradável aos olhos?
— Só teremos certeza quando a vimos de perto. De toda forma, fazer uma casa inteira de diferentes materiais como doces é um feito impressionante de bruxaria.
Alucaria os observava, virando a alva face na direção de quem falasse no momento.
— Vocês não conseguiriam fazer algo assim, mestre Hansel? — indagou ela, igual uma criança que pergunta algo aos seus pais.
— Bruxas usam o Círculo de forma diferente dos Caçadores. Elas usam símbolos e pactos. Os resultados de seus rituais são bem variados e possuem vários propósitos. Nossas especialidades como caçadores são outras.
Claro que, através de estudo adequado, Caçadores experientes poderiam replicar rituais de bruxaria. De fato, a aplicação da Alquimia veio dos mesmos estudos herbalísticos que as bruxas utilizavam. Os Caçadores expandiram o conhecimento de plantas e ervas ao observar seus comportamentos e naturezas elementares, e ao misturá-las com órgãos e outros materiais advindos de monstros. Seu objetivo era sempre uma mistura harmoniosa.
Bruxas, por sua vez, viam as forças elementares como algo a ser manipulado. A Ordem dos Caçadores, que se preocupava em organizar quais ingredientes causariam misturas perigosas, tinha uma visão limitada. O verdadeiro poder e conhecimento vinha através de sacrifícios e oferendas, e a recompensa era o domínio sobre a natureza.
Hansel, porém, manteve sua explicação nos detalhes mais básicos.
— Enfim, o que importa é que essa bruxa está em Redbrook há no mínimo três décadas. Devemos tomar cuidado, pois um ritual que demora tanto para se completar certamente é perigoso.
Ouviram uma pequena e abafada explosão. Grety, já de pé, mostrou um sorriso perolado.
— Poções prontas, mano.
Ele sorriu e acenou com a cabeça.
— Muito bem! Eu diria para esperarmos o anoitecer, pelo bem de nossos clientes, mas o melhor talvez seja partirmos de imediato.
Alucaria não protestou, e Roderic, agora mais calmo, seguiu a opinião de sua mestra.
— Tenho confiança nas minhas capacidades de sobrevivência — disse a princesa, com os braços para cima. Roderic concordou com a cabeça.
Saíram, então, pouco mais de uma hora depois, pois os irmãos Vonwyll tiveram que amolar suas lâminas e limpar suas ferramentas de caça. Gretel dividiu algumas das poções que preparara com o irmão, que as armazenou na bolsa escondida dentro de seu casaco. Com seus chapéus sobre suas cabeças, tomaram o trajeto mais curto para Redbrook.
Os aldeões, ainda pouco acostumados com a presença de mais de um bruxo por vez em Apple Hollow, fitaram o grupo que passava.
A luz solar ardia mais forte naquela hora da tarde, e as vestimentas desses que passavam contribuíam para a curiosidade: a moça com um longo vestido e o guarda-sol? Decerto era uma nobre, delicada demais para caminhar sob o calor sem proteção; o homem ao seu lado, trajado como um digno servo de uma casa rica, alimentava a sensação dos que viam.
E o que dizer dos caçadores que iam à sua frente? Trajavam capas pretas, mas que possuíam estranhas decorações de escamas rubras em seus ombros. A mulher tinha um rifle pendurado nas costas; o homem tateava a espada escondida embaixo de seu manto.
Diante da trilha principal do bosque, repassaram seu plano: os pequenos Hansel e Gretel, filhos de Fiore, sumiram no dia anterior. Seus rastros, portanto, ainda estavam frescos. Embora os aldeões não tivessem obtido sucesso em encontrar os desaparecidos, tais limitações de rastreamento não impediriam dois Caçadores.
Adentraram no Bosque de Redbrook, e Hansy não pode deixar de lembrar da vez que passaram por dentro da Mata de Thornhollow. Pouca luz tinha o poder de penetrar diante dos altos carvalhos e de sua folhagem. Os feixes que o conseguiam tremeluziam de minuto em minuto, conforme a brisa vinda do Mar Cinzento, além dos Planaltos do Oeste, soprava por entre as folhas.
Como esperado, os irmãos logo observaram os restos de pegadas na terra e fragmentos de tecido presos nas cascas da madeira. Nada mais, além do sussurro do vento, indicava a presença de algum movimento pelo bosque.
Animais não surgiam, nem quando Hansy debruçava-se nas árvores para buscar por mais pistas. Aves não cantavam nem piavam, e as flores e frutos dos arbustos minguavam, quase que desaparecendo em seus próprios galhos.
Tal era o resultado das artes da bruxaria.
Em um momento, as pistas deixadas pelos pequenos irmãos tornaram-se infrequentes, até que cessaram por completo. Os Vonwyll tinham uma noção da provável direção que as crianças tomaram, mas era difícil ter certeza.
Para um não-Caçador, claro.
O brilho dourado tornava-se menos frequente, e o ar do Oeste gelava-lhes os ossos, mesmo quando protegidos por seus grandes casacos.
— Mano, toma! — gritou Grety, que jogou um frasco para o irmão. — Já chega a noite, então é melhor não perdermos tempo.
Tinha um leve brilho azulado, que recordava da água do mar.
— Poção do Sentido do Predador. — Ela apontou para a bebida. — Será mais prático do que eu procurar pela casa nesta mata escura com meus olhos.
Ele concordou e, sob os olhares curiosos dos dois vampiros, engoliu o líquido.
Suas orelhas zumbiram e sua garganta ardeu; nunca se acostumara com o gosto dos compostos alquímicos da ordem. Fechou os olhos, e deixou que a compreensão dos arredores invadisse sua mente. A floresta, antes silenciosa, lançava agora pulsos, batidas de um coração que gritava cheio de vida.
Hansel Vonwyll, como um Caçador treinado e moldado pelo controle do Círculo dos Elementos, tinha algo que os alquimistas da Ordem chamavam de “Sexto Sentido”, ou “Eco”. Na verdade, todo caçador o possuía, pois era um dom sobrenatural que despertava junto da afinidade elemental, nos primeiros testes dos iniciados. Dava-lhes uma percepção distinta do mundo em relação aos humanos normais. Esses últimos chamavam esse dom de “Nariz de Monstro”.
Sua sensibilidade com o Eco espantava até os mais eficientes caçadores. Hansy podia perceber os próprios Elementos reagindo e se misturando com a natureza, ao invés da simples sensação que outros Caçadores, como Grety, tinham em relação ao mundo.
Era essa habilidade que o dava uma capacidade considerável de analisar terceiros e supor, quase sempre de forma correta, sua índole.
Quando aumentado pelos efeitos de um frasco de “Sentido do Predador”, o rapaz alcançava o ápice das habilidades de rastreamento.
Em uns instantes, os “pulsos” apresentaram-se de forma mais clara, e ele descobriu para onde ir.
— Venham comigo — grunhiu, massageando a região entre os olhos.
— O senhor está bem, mestre Hansel?
— Ignore — disse Gretel. — Ele sempre fica assim quando bebe aquela poção.
Encontraram o que procuravam, por fim, depois de uma longa caminhada. Puseram-se atrás de arbustos, na esperança de ocultar sua presença. Quando pararam de fato, Gretel segurou-se para não soltar um assobio.
— Se eu ainda fosse criança, certamente cairia nessa armadilha — admitiu, e Alucaria, para a surpresa de ambos concordou.
— Ser uma princesa não me impede de gostar de doces.
Roderic, com o rosto imóvel feito pedra, adicionou:
— De fato, a senhorita sempre comeu muitos doces.
Tal comentário fez a princesa vampira engasgar, o que incitou os outros três a impedirem de fazer mais barulho.
Hansy, apesar de não compartilhar o mesmo tipo de reação externa que sua irmã, sabia que devia concordar com suas afirmações.
A casa tinha colunas de caramelo, que se assemelhavam a pilares de cristal coloridos. Suas paredes pareciam com gengibre, cobertas de biscoitos de mel e pedaços de açúcar cristalizados; pareciam presos à estrutura por grandes quantias de mel endurecido. As telhas eram barras de chocolate branco e escuro, alternadas como um jogo de xadrez, assim como a larga porta, que tinha tiras de goma rígida descendo de seu topo até sua base.
Haviam algumas janelas, também de açúcar cristalino e alvo; porém não era possível ver além delas. E havia uma trilha de biscoitos gigantes por entre o mato e arbustos.
Era certo que tal visão dava fome até às mais resilientes almas.
— Encontramos — declarou Hansel. — É hora da caçada.

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