Quando criança, Hansel adorava caramelos. Sua mãe, Isolde Reinhart Vonwyll, tinha o costume de derreter barras do doce no fogo e transformá-las em calda. Ela o misturava com panquecas e os entregava para ele e Gretel quando se comportavam. Sempre que via alguma criancinha degustando uma dessas peças açucaradas, não era capaz de esconder um sorriso.

    Todavia, a situação à sua frente revirava-lhe o estômago. 

    Encontravam-se cercados de raízes, como as da porta. Essas, porém, se passariam como troncos de árvores sem nenhuma dificuldade. Emaranhados entre elas, haviam blocos de caramelo endurecido.  

    Dentro de cada um deles, jaziam crianças de olhos fechados. 

    Pendiam nos cristais dourados e translúcidos como se estivessem em blocos de gelo. Nenhuma delas apresentava sequer a contração e expansão de seus pulmões em funcionamento. 

    Alucaria pôs a mão em um dos casulos.

    — Está frio — disse, de olhos caídos. Tocou o que estava logo ao lado e repetiu sua fala, mas num sussurro.

    Hansel fez o mesmo. Mais do que isso; buscou os pulsos do Eco diante daqueles cristais dourados.

    O Aspecto da Terra era a principal origem de sua composição. Haviam resquícios do Aspecto da Luz dentro do casulo, o que explicava o estado intacto das crianças. Luz, afinal, tratava do domínio da preservação. 

    Contudo, algo ainda o incomodava.

    — Nenhuma delas está respirando — disse, tocando cada invólucro enrijecido conforme avançava por aquela larga passagem.

    Alucaria o imitou, chegando aos mesmos resultados.

    — Morreram? 

    Hansel balançou a cabeça.

    — Não há como saber. Nunca vi usarem Luz para criar um estado de animação suspensa, mas não é impossível, na teoria. — Sentiu um frio em sua espinha — Mas a quantidade de poder necessária para isso…

    A princesa vampira engoliu seco, de forma quase imperceptível, e alternou entre as crianças presas e o caçador. Perguntou-lhe se pretendia desistir.

    — Hansel e Gretel ainda podem estar por aqui. Além do mais, não dá para deixar que essa bruxa continue o que está fazendo.

    Dizia isso sem olhar para frente, fixo em Alucaria. Essa, contudo, congelou no lugar.

    — Senhorita Alucaria? — questionou, agora parado. 

    A vampira, em resposta, ergueu o indicador na direção que seguiam. Hansel então percebeu que mais a frente havia um salão circular.

    Dentro dele, encontraram muitos outros casulos. Não se dispunham espaçados, igual ao corredor, mas quase grudados uns aos outros, segmentados pelas mesmas raízes que os acompanharam até ali.

    Essas últimas, por sinal, uniam-se rumo ao teto, que se abobadava no topo. As veias, mais grossas e brilhantes do que nunca, cobriam qualquer rocha que os lembrasse da existência daquele lugar como uma caverna.

    Assemelhava-se mais com o coração de alguma árvore monstruosa. Hansel nunca viu tal coisa, mas imaginava que se pareceria com algo assim.

    Em seu centro, havia um grande Círculo desenhando em giz. Dentro dele, haviam seis círculos menores, com runas gravando os nomes dos seis Aspectos do Círculo: Luz, Ar, Água, Sombras, Terra e Fogo. Acima dele, pendia uma enorme esfera dourada, desregulada e rudimentar. Não rígida como as outras, mas aparentava algum tipo de elasticidade, como se fosse uma espécie de goma.

    Hansel estremeceu. Percebia as seis naturezas remexendo-se naquele círculo, devorando uma a outra a cada oportunidade. Não haviam Foco, mas desarmonia e caos. Contudo, seus sentidos o chamavam a se atentar com outra coisa.

    Os Elementos, enquanto se expandiam e engoliam, desapareciam por um único instante. Logo em sequência, retornavam, minguantes e brandos, para então explodir em sua guerra uma outra vez.

    — Ali! — A princesa alçou para a esquerda, de braços estendidos.

    Haviam duas crianças, amarradas por raízes, naquela direção. Como todas as outras, seus olhos estavam fechados; porém, existia uma diferença.

    — Eles respiram! Estão vivos! — Alucaria pulou, quase em prantos. Em seu rosto rebrilhavam suas presas peroladas, num sorriso. — Vivos, mestre Hansel! 

    Esse aproximou-se e pôs-se de joelhos. Tocou o menino no pescoço, depois a menina.

    — Sim, eles têm pulso. — Acenou com a cabeça, também com um leve sorriso de dentes ocultos.

    O garoto era um pouco mais velho, mas ainda pequeno. A menina decerto sequer deixara de usar fraldas. 

    — Hansel e Gretel! — Alucaria pegou-os pelas mãozinhas. — Ah, que bom que estão bem! Vamos, acordem!

    Os pequenos, porém, não respondiam.

    Hansel sentiu a pontada de uma agulha perfurando sua mente. Seus olhos se arregalaram.

    — Não adianta — uma voz feminina os avisou, em meio a risinhos. — Eles beberam uma das minhas melhores misturas. Agora dormem como os ursos das florestas de Argent no inverno. 

    Viraram-se num sobressalto. Hansel, com sua arma na mão; Alucaria, de braços esticados para cobrir os irmãos. 

    Tinha um enorme crânio de boi sobre sua cabeça, com um de seus chifres partidos. Trajava um manto de couro, remendado em tiras irregulares e cheias de pontos, que ia até seus pés. Estava coberto de manchas de cores e tamanhos distintos, e fragmentos de açúcar brilhavam entre elas. Nos braços, nus e finos, esbanjavam uma série de círculos de tinta esverdeada.

    — Bem vindos! Sou Merida, a Bruxa de Redbrook! — Ergueu as mãos, em uma das quais tinha um cajado de madeira. — Ah, mas me perdoem por os cumprimentar tão tardiamente!

    — Sou muito receptiva, sabem? Interesso-me em cumprimentar todos os que me visitam, eu e meu criado. — Corou, com a boca aberta de orelha a orelha. — Ah! Mas você! — Apontou para Hansel. — Você é um Caçador, certo!

    Ele cerrou as sobrancelhas e bateu os dentes. Apertou ainda mais a mão no cabo de sua espada. Bastava um pensamento e ela arderia em brasas.

    — Tão jovem! Tão diferente daqueles velhos decrépitos que vinham me caçar naquela época. — Começou a andar de um lado para o outro. — A Ordem mudou muito desde a última vez que ouvi falar dela, não? 

    Exasperou-se uma segunda vez, agora com Alucaria, e prosseguiu:

    — E a jovem senhorita que o acompanha! — riu, elevando a mão livre para a vampira. — Ela não é uma caçadora, claro! Na verdade, ela sequer é humana! 

    A espada inflamou-se. Hansel a brandiu num arco, na direção do pescoço da bruxa. Ela caiu de costas, num grito fino.

    — Cuidado, senhor Caçador, minha cabeça quase desprendeu-se do pescoço! 

    Mostrou os dentes, alvos e brilhantes. As histórias diziam que ela aparecera em Redbrook há décadas; porém, sua pele permanecia lisa, as bochechas coradas e os cabelos limpos e fortes em cor. 

    Hansel sentiu um pulso. Deu um pulo para trás, em guarda. A bruxa rolou para sua direita. Ficou de frente para Alucaria, que estava à esquerda do caçador. 

    A mulher moveu a mão. Uma raiz surgiu do chão e rumou contra a princesa. 

    Hansel girou o corpo. A lâmina partiu a raiz na diagonal.

    Ergueu a mão. Inspirou, com a mente em Foco. 

    A palma de sua luva brilhou. Faíscas estalaram.

    A outra, agachada, deu um pulo. Urrou algo, com as mãos para cima. 

    O chão cedeu. Outras raízes nasceram das rachaduras. As chamas nas mãos de Hansel extinguiram-se. 

    Estava preso. De braços estendidos e com opções limitadas de movimento. 

    Conseguiu, no entanto, olhar Alucaria no fundo de seu campo de visão. Tinha as mãos esticadas para cima, presas entre as raízes como se fossem correntes. Outra circulava dos seus pés até a cintura num vestido vegetal. 

    Hansel tentou aplicar força nos braços, mas não conseguiu apoio. Sua prisão o erguera alguns poucos centímetros acima do solo, e o máximo que o permitiam era mover o antebraço para tocar as raízes próximas do rosto. 

    — Sim, sim! Vamos nos acalmar! — Merida bateu as palmas. — Você! — Ela cutucou Hansel no nariz, depois deu três tapas leves em sua bochecha. — Acho que vou fazer de você o meu novo criado! Vai ficar lindo com raízes saindo de sua boca.

    E suspirou, voltada para Alucaria.

    — E você, senhorita vampira — disse, tocando a princesa, estupefata, no queixo —, vai me ajudar com ingredientes! Sangue de vampiro é o que eu mais precisava! E tem algo mais, não é? — Aproximou seus rostos, esbanjando um sorriso, de olhos abertos e tremendo.

    — Não se preocupem, pois eu…?

    A bruxa arregalou os olhos. Não prestava atenção neles, mas fitava o nada.

    — E temos mais visitantes! — Virou-se na direção do círculo central. — Uma outra caçadora e outro cavalheiro de natureza semelhante a da senhorita! Não se preocupem vocês dois, pois meu criado já foi receber estes outros dois convidados perdidos!

    Gargalhadas ecoaram por entre os túneis, e vibraram nas mentes dos dois que ali estavam presos. 

    […]

    Gretel pensou se deveria ou não preparar um frasco de Óleo Elemental, mesmo depois de desistirem do Leshie, pelo simples motivo de precaução. Por fim, não o fez.

    — É claro que isso ia voltar para me assombrar! — Estalou a língua, e ergueu os revólveres na altura do peito.

    Atirou duas vezes. Os disparos atingiram a criatura nas fendas de seu rosto. Cantou um grito rouco, com as mãos nas áreas atingidas.

    Cinco em cada. 

    — Esse é o Leshie na floresta! — gritou para Roderic. 

    Estavam agora num ambiente cavernoso. As sombras desapareceram, afastadas por raízes luzentes.

    O vampiro alçou vôo. Suas mãos transformaram-se em garras.

    O Leshie o encarou. Cerrou os punhos e bateu-os na rocha. 

    Roderic circulou-o pela direita. O rosto do Leshie girou junto.

    Olhos dourados cravaram-se nele. O mordomo ergueu o punho monstruoso e o golpeou.

    Casca de árvore estilhaçou. Cicatrizes cobriram o chão da caverna. 

    A rocha explodiu em poeira. Uma nuvem cinzenta os engoliu. 

    O espírito da floresta não se moveu. Os vãos escuros em seu rosto quebraram, e seiva escorria deles; mas seus olhos fixaram-se no vampiro.

    Ergueu o braço como um martelo. Roderic bateu as asas, saindo da nuvem. 

    O outro braço surgiu da cortina de pó, e os dedos de madeira entrelaçaram-se em volta do homem.

    O Leshie forçou sua pegada. Os pulmões de Roderic se contraíram e ele tossiu. 

    — Aqui, bicho feio! — Gretel gritou. Focou-se na munição que tinha naquele instante, e, de dentes cerrados puxou o gatilho. 

    Estilhaços de gelo voaram. Fragmentos cresceram e penetraram nos orifícios do rosto arvorento. O tronco que era seu braço cedeu, e Roderic chutou-o no rosto com ambas as pernas. Desta vez, ele recuou dois passos.

    Quatro, esquerda; cinco, direita. 

    O monstro coçou o rosto, donde caíam as pedras gélidas. Seu rosto, antes regenerado do soco de Roderic, estava seco e craquelado. 

    — Não adianta dar golpes até ele cair. — A caçadora apontou para a face da árvore com o canhão de mão. — Ele vai se regenerar enquanto não tiver nada que o impeça de o fazer. 

    O mordomo vampiro concordou com a cabeça.

    — Pegue seu rifle, Caçadora — impeliu ele. Estalou os ossos dos ombros e do pescoço. — Congele-o nos pontos certos e eu o destruirei. 

    A garota conteve um riso. Ergueu o revólver esquerdo e pressionou-o no cão. Quatro projéteis voaram. 

    Troncos em forma de braços os bloquearam. Uma fina camada branca surgiu num deles.

    O vampiro empalou o tronco com a própria perna. O Leshie urrou, e seiva vazou de sua boca. 

    Arrancou a própria perna do membro do espírito. Esse abriu a outra mão. Desta vez, Roderic recolheu-se para trás. 

    — Sai da frente! 

    Pousou, de joelhos flexionados. O disparo raspou pelas pontas de seu cabelo grisalho. 

    A Árvore-viva não gritou, mas tossiu. Seu braço livre caiu sobre o próprio pescoço. 

    — Vê se para de gritar. — Gretel jogou o rifle sobre o ombro. Uma corrente com um dente de salamandra balançava em sua empunhadura. 

    Sentiu um arrepio na nuca. O Leshie direcionou todos os seus olhos à ela. Esses brilharam como pequenas lanternas.

    Rolou para a direita. 

    Uma lança fina e retorcida brotou onde estava.

    — Uma ajudinha!?

    Surgiram outros espetos de madeira, que a seguiam a cada pulo. Gretel, ao invés de recuar, correu. Com o momento, escalou as paredes da caverna. Tinha o rifle armado, em uma só mão.

    O monstro ergueu o braço, antes na sua garganta. De seus dedos estendidos, dispararam raízes. 

    Roderic surgiu entre elas e seu alvo. Agarrou-o com os dois braços e inclinou o corpo para trás. Suas mãos cresceram em tamanho, e as raízes se dobraram na sua direção. 

    A caçadora tomou impulso na parede de rocha. Esticou o corpo e, numa pirueta, alçou-se por cima de Roderic, que ainda descia ao chão.

    Ao se recuperar, ainda no ar, agarrou o cano de sua arma com a outra mão. Alinhou-a com o rosto e fechou o olho direito.

    Puxou o gatilho, e o ar gélido bufou em seus cabelos. 

    Gelo explodiu entre o peito e a cabeça do monstro. Tomou seu torso de um lado, e alçava-se até os chifres de galhos. Espinhos congelados romperam por entre sua pele de madeira, e seus joelhos cederam com um estrondo.

    Gretel deu uma cambalhota ao cair no chão. Seu chapéu caiu, e mechas castanhas desciam sobre o rosto suado. 

    Virou-se para o protetor de Alucaria, que acabara de soltar os dedos alongados do Leshie. 

    — Boa — arfou, com a boca aberta e contraída para cima —, vovô! 

    Puxou o ar aos pulmões várias vezes em sequência e ficou de pé.

    — Boa, vovô! — repetiu, de polegar erguido e punho fechado.

    Roderic acenou com a cabeça.

    — Bom trabalho, caçadora. 

    Fitaram o Leshie, de braços estirados. O frio o consumia no centro do disparo, e buscava todos os extremos do corpo. Seiva cristalizada pendia de sua boca aberta, e as fendas oculares permaneciam escurecidos

    — Agora, para a senhorita Alucaria. — O mordomo cruzou os braços nas costas. 

    — E Hansy — concordou Grety.

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