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    “Há uma tendência universal na família Godwill: irmãos em eterno conflito.”

    Izandi, a Oniromante.

    “Envio esta carta em profunda mágoa e pesar, tanto na persona de id Baene, quanto na de príncipe dos Godwill, mas principalmente na de Ezekel Ainee Godwill, para expressar as condolências guardadas no meu coração cesurado após a notícia que chegara a nós ao final do Conselho. Doí-me expressar, como igual órfão, a dor que compartilhei convosco: príncipe Howan e princesa Silale, mas que agora pesa jovem sobre seus corações.

    Pouco vi de Sua Majestade Rheider Bloemennen, senão que era um justo e nobre Rei, e como poderia o dono de uma casa não se entristecer pela perda de um vizinho? Na figura de id Baene, conforto-me em pensar que, como filhos de um senhor tão justo e sábio, que cercou-se de homens sábios à sua forma, sentar-se-ão e governarão como herdeiros da sabedoria de seu paí. Porém, na figura de Ezekel, pouco me conforta em ver jovens como eu entorpecidos na dor do luto.

    É uma chama cruel, que se aproveita da secura que nos resta para arder sem misericórdia, abrasando os caibros que protegem nossa alma da chuva; trata-se de um sentimento cruel. À princesa, que os Deuses consolem e fortaleçam seu coração, pois Vossa Eterna Majestade Rheider segue com Ilasis e hoje bebe de seu cálice. Que não lhe faltem os olhos bondosos da Mãe e seu consolo.

    Já ao príncipe, devo confessar coisas. Confesso que pouco entendi em nossa conversa, a qual não devo transcrever nesta carta. No entanto, agora, pressinto que entendo. Eu vejo virtude nos seus olhos e a sabedoria de um rei devido ao trono. Sei que será um rei amoroso para com seu povo, e torço e rezo para não somente com ele. Não podemos ter tudo, mas podemos lutar pelo que é especial a nós.

    Que o rei saiba que nosso coração compadece com o vosso, e que nosso afeto permanece intacto à Coroa dos Pavões de Aavier.

    Que os Deuses lhes protejam nesta difícil provação. Vida longa ao Rei.”

    Ezekel suspirou quando terminou a carta, deixando a caneta cair sobre a mesa. “Mentiras”, pensara Ezekel. “Um cardume de mentiras bem dispostas. Você fora abandonado por seus vizinhos.” A caneta espirrou tinta sobre o papel. No entanto, o príncipe tinha o bom hábito de ter uma régua em mesas próximas e letra pequena. Rapidamente cortou os excessos sujos da folha, a dobrou e selou a carta com cera e o sinete da Cidade de Diamante.

    — Está feito — disse, com sua voz quase como um suspiro. Seus ombros relaxaram por um instante, antes de devolver sua atenção à rei Rikard.

    “Eu deveria ser uma figura imparcial, um diplomata.”

    Rikard trajava roupas leves e de cor fraca, e estava sentado em um cadeirão de madeira escura. Ao seu lado esquerdo, Natharel se mantinha apoiado na parede, de braços cruzados e com seus longos cabelos loiros soltos sobre os ombros, fitando o teto. O Godwill mais velho deixou sua taça de cidra no criado-mudo e olhou para o irmão caçula com olhos cheios de julgo.

    — O garoto está no Leste, em Porto-Bastilha. — Tocou o queixo barbudo. — Os cuidadores-de-dragão afirmaram que ele tentou levantar voo com Meevel, sem traje de draconeiro ou preparação prévia, mas o dragão-real se recusou e o jogou para longe.

    — Que garoto sortudo — interpôs Natharel, ainda olhando para o tapete. Na sua cintura, Eclipse permanecia embainhada. — Se Meevel tivesse permitido o voo, ele estaria certamente morto e seu cadáver estaria em alguma árvore alta muito longe de nossos olhos, e agora teríamos de lidar com uma jovem rainha invés de um jovem rei de impulsos bem conhecidos. Já ouviram alguma história ruim vinda de Silale? — olhou o irmão mais velho. — Tudo que já ouvi dela foram elogios à sua beleza, eloquência e atos de generosidade: que todo início e final de inverno, abastecia os pobres com pão, queijo e vinho, e roupas.

    — A mim já chegou — disse Ezekel, com a voz pesada. — Uma vez, minha esposa citou que a viram andando com um homem de olhos cinzas e alto como um touro.

    — Ouvi semelhante — dissera Rikard. — Este ela armou como cavaleiro, mas depois de muitos encontros prévios, e seu irmão o tornou membro oficial da guarda-real quando tornou-se regente.

    Natharel sorriu.

    — Então temos um caso de amor!

    — Não temos nada. Ela o expulsou do castelo — afirmou o rei, sem expressão.

    “Ofina quase fez o mesmo comigo algumas vezes. O amor não morre tão fácil assim”, pensara Ezekel, mas não expressou seus sentimentos. Os dois outros já foram jovens e certamente tinham mais experiências amorosas do que ele. Afinal, qualquer número acima de um era maior que um. “Não que precise mais que um”, ele concluiu e ergueu a cabeça. Sua mente se voltou para a localidade onde o príncipe estivera.

    — Por quê ir à Porto-Bastilha, se fugiu de luto?

    — É uma pergunta que também me fiz — avisou Natharel. — Tenho teorias pessoais, irmãos, mas nada que valha a pena ser dito. — Naquele momento, Natharel passou a falar nos chiados e palavras da língua dos Godwill. — Ouvi coisas interessantes sobre os Hoones, no entanto. Certo passarinho contara-me que há cerca de vinte empréstimos sendo negociados por Duque Otto Hoone com o Banco do Dragão de Charyçás, por meio daquele tal de Aretes.

    Rikard franziu o cenho para o irmão do meio.

    — Como soube disso?

    — Você tem seus pássaros, eu tenho meus passarinhos. — Riu. — E o povo de Charyçás e eu temos muitas ideias em comum! Mas sinto que vocês não gostariam.

    O mais velho franziu o cenho mais rudemente, contraindo seu ombro esquerdo. Ezekel não entendeu o comportamento do irmão, mas ficou de olhos bem abertos. Ele seria o único príncipe no continente inteiro a não ter um único espião que fosse? Sua esposa certamente não contava como uma. Todavia, antes que pudesse voltar a se martirizar, o irmão mais velho cruzou as mãos e relaxou suas costas.

    — Minha suspeita inicial era para não ver a irmã, mas é emocional demais. Howan Bloemennen tem algo do pai, não é totalmente estúpido para temer uma mulher indefesa, que expulsou seu cavaleiro mais leal e amante. — Tocou a boca da taça de cidra.

    — A estupidez do garoto é remarcável — dissera Natharel. Ezekel cerrou os dentes. Tivera uma única conversa com Howan Bloemennen, mas abrira seu coração de verdade ao lado dele. O considerava um amigo.

    — Então é para ver alguém — afirmou Ezekel, erigindo as costas.

    — Senão, fugir de Randi, aquela mulher odiosa. Ele não é estúpido, já disse. Me dói saber que aquela meretriz tem mais culhões do que todos nós juntos.

    Ezekel suspirou, juntou as mãos e sacou uma nova folha de papel de carta. A caneta rolou, tocando no pomo da Última Vez, embainhada ao seu lado.

    — Apaziguar a ira da fratricida e patricida era seu plano desde o início, não? — perguntou Ezekel, com a voz ousada e canto do lábio caído.

    “O Império não era o alvo de seu ódio?”

    — Matá-la junto de seus filhos, esposos e avô, depois queimar seu palácio, suas bandeiras e apoiadores vivos, seria meu plano desde o início, mas fazê-lo poria sua Última Vez nas minhas vértebras e quatro reinos soterrando nossas Muralhas Verdes.

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