Capítulo 64: Por uma canção de amor (2)
“E lá segue o tordo
O pobre e pequeno tordo.
Nas costas, algo grande
Na cintura, algo justo,
e no peito
um girassol.”
Izandi, a Oniromante

Ela reparou nos cabelos ruivos claros, quase loiros, que se espalhavam pelo corpo magro e alto do eunuco. “Fiorry”, lembrou-se. O braço direito de seu avô, que agora tocava seu ombro como se também fosse um parente próximo. Hyd contraiu os ombros de susto, respondido pelo eunuco dando um curto passo para o lado. Por sua vez, ele ergueu as sobrancelhas finas num semblante divertido.
— De todas as pessoas neste palácio, sou a que menos lhe deseja qualquer mal — disse o andrógino, com seus olhos brilhando. Jenna respondeu semicerrando os olhos. Ela não entendia o que estava sendo falado. — Até menos do que sua bela e humilde protetora. Muito menos. — Se abaixou. Fiorry vestia uma túnica dupla de seda azul e rosa, com detalhes dourados nas bordas. Sua boca se abriu num ângulo estranho, e sua voz saiu numa língua estranha que nem Hyd conseguiu reconhecer. Ainda assim, entendeu: — Sou seu amigo.
Hyd suspirou. O peito ardia e sua cabeça latejava com a névoa quase infinita que nublava seus pensamentos. Todavia, não desconsiderou nenhuma palavra do que o eunuco dissera. Normalmente, ela meditaria aquelas palavras dentro do coração e da mente, mas nem conseguia pensar na última vez que conseguiu se concentrar o suficiente para isto. Seu corpo estava mudando sem parar. Era difícil de acreditar que há sete meses, tinha doze e parecia ter nove. Hoje, tinha doze, e sentia-se cada vez mais parecida com quinze. E mesmo assim, a voz afeminada do eunuco era suave e cheia de maciez, de conforto e amizade.
“Devo confiar nele ou ele me apunhalará?”
Com educação e graça, a ruiva endireitou suas costas e repousou as mãos sobre as pernas.
— En…entendo, senhor Fiorry.
— Só Fiorry me basta, pois não sou senhor de nada.
— Mas o senhor não é o braço direito do senhor meu avô, o generalíssimo?
Ele ergueu uma sobrancelha.
— De fato, nos Cinco Reinos, creio que seria recompensado com terras pelos meus serviços, e então seria senhor de algo. Ah! assim seria um homem muito rico e poderoso. — Seus lábios se contorceram cheios de soberba, como se considerassem uma mudança. — Mas a civilização requer outras regras e elas não recompensam certos atos e auxílios, minha senhorita, e os meus estão entre os não recompensáveis.
Hyd engoliu em seco. O tenor afeminado era suave, sem nenhuma intenção negativa; mesmo assim, sentiu suas costas gelarem. Seus bons ouvidos rapidamente perceberam o som de um ruído, vindo de uma garota que empurrava um objeto oval pesado.
— E qual é seu serviço? — ousou.
— A senhorita não quer saber.
— E… — piscou. — E se eu quiser saber?
Ele ficou de pé, balançando suas sedas.
— Então — ergueu os ombros — lhe farei um grande favor: responderei qualquer outra pergunta — abaixou os ombros e sorriu. — Mas esta não; a senhorita não quer saber. Sou seu humilde serviçal, o pequeno e humilde Fiorry, que lhe solverá dúvidas.
“Um espião”, pensara.
— Qualquer coisa?
— Qualquer coisa fora minha labuta.
— Então… — pensou em voz alta. “Eu posso usar disto em meu favor…? Que pensamento maligno!” Apontou com os olhos para a estátua onde estava sentada.
Fiorry coçou a testa e revelou um sorriso aliviado.
— Um demônio muito antigo. — Pôs um dos braços dentro da túnica. — O chamavam de Rei da Lama. Era um ser de repulsa e mal, que uma vez teve posse de todo o Império. Contamos que fora ele quem ergueu as Quatro Grandes Muralhas, ainda que nenhum estrieliziano tenha visto todas as quatro. Talvez o Lobo Branco… — pôs a mão no queixo.
“Por que fariam a estátua de um demônio?”, pensara Hyd, assustada. Num segundo, ela engoliu sua expressão nervosa. “Não devo fazer diretamente minha questão de fuga. Seria melhor esconder entre meus questionamentos.” Rapidamente, o ruído chamou sua atenção de novo, e seus olhos se voltaram para a garota que empurrava vagarosamente o objeto.
Foi assim que teve um breve susto: era algo que não esperava ver. A garota que empurrava a coisa pesada era magra, mais do que a esticando Hyd. No entanto, tinha cabelos escuros como carvão e encaracolados como cachos de uva fresca, e mais que os cabelos, sua pele era negra como uma noite breve e densa. Ela tinha uma gargantilha de metal no pescoço, não tão apertada quanto as de Elouan, mas uma faixa cobria seus olhos, de modo que ela empurrava um objeto pesado totalmente cega. Fiorry percebeu que a ruiva a encarava e respondeu:
— A escrava? Não a conheço — respondeu.
“Escrava”, pensou Hyd. “Nefasto.” Sentira seu coração arder numa mistura algoz de ira e desgosto, uma que a fez apertar seus punhos e perder o foco. Por um instante.
— Tire a venda dos olhos dela — falou, e surpreendeu-se com sua voz. Era ríspida.
— Hm? — fizera o eunuco. Seu sorriso escureceu por um átimo de segundo, mas ele não pediu para repetir a ordem. Dobrando suas costas, saudou-a e saiu até a escrava suada e suavemente retirou a venda.
No outro segundo, sua expressão se abriu de susto. A garota empalideceu e caiu no chão, arfando, enquanto Fiorry deu meio passo para trás antes de fechar o rosto com uma seriedade assustadora.
— Minha senhorita, terei de me retirar. — Sorriu, e assim saiu, puxando a escrava pelas mãos curtas e assustadas.
Hyd congelou e perdeu a força na mandíbula. “Eu a condenei?” Seu coração disparou de medo. “Isso era algum crime? Não, são só olhos… Mas não vi nenhum plebeu com olhos à vista aqui. Só escravos.” Seu intestino se apertou. Uma onda de medo maior do que muitas que tivera apertou seu coração, e ela saltou do banco. Jenna foi logo atrás, para salvá-la de uma queda ou cansaço.
Mas fora tarde demais. Fiorry havia sumido na biblioteca, e a pobre garota fora junto.
A ruiva arfou e suas pernas cederam, e com Jenna a segurando por trás, sua cabeça não bateu no objeto pesado. Hyd empalideceu, enfraqueceu e fechou os olhos por um curto segundo. Ela perdeu seu ritmo de respiração e sentiu um golpe atingi-la na barriga, no ventre. Suas costas ficaram geladas e seu pescoço cedeu, finalmente encarando o objeto: o oval e maior que ela objeto.
Seus olhos dispararam como os de uma esposa ao ver o marido voltar de uma batalha.
Não era como sua harpa longa e muito menos do que a curta, mas Hyd rapidamente percebeu as vinte e uma cortas em trios. Sustentado em um suporte de pedra e madeira, havia um corpo oval feito de madeira quase petrificada, brilhosa e com cheiro próprio, algo como pinheiro, sebo, flores e aço num perfume que sentia mais com os ouvidos do que com o nariz. O corpo possuía um formato oval longo, semelhante a um alaúde, mas com a boca quase no seu final.
No lado direito, sete anéis de aço pendiam segurados por um trio de fios, mas do esquerdo um braço de madeira se estendia por mais de um metro e meio, finalizando numa mão longa com mais cravelhas do que um músico iniciante gostaria de contar. Havia uma distância de quase um dedo entre as cordas e o braço, mas já soava uma canção aos olhos de Hyd. “É lindo”, pensara ela, com um sorriso leve que a fazia esquecer de dores, tantas dores.
No meio de tanta dor no seu corpo e coração, Hyd encostou sua mão no corpo do instrumento, roçando as cordas com a suavidade do orvalho matinal, e notas suaves e desafinadas a golpearam com uma dor alegre.
Alegria.
E então, Hyd percebeu as várias palavras talhadas no instrumento.
“Åd di mina riuřulan Halárieny.”
— À minha amada Haláre — ela leu e pronunciou. Desta língua, ela não sentia seu cérebro ardendo. Essa aprendera por amor, com o cuidado de sua mãe: o Otaneák.
“Um presente de amor”, ela pensou, e logo tocou os arranhões e amassados que o instrumento tinha. As manchas de sangue seco que o sujavam. E como ela não reconheceria a mancha seca de sangue, se quando no verão sua boca ficava com o gosto do ferro de seus vômitos? “Um presente de amor, um presente que não foi entregue.” E logo seus olhos identificaram outras letras.
“Arelvann”
“Andorinha e corvo. É seu nome, instrumento? Ou é algo que não conheço?”
Seu coração saltitou de alegria pela primeira vez em tanto, tanto tempo… Seu coração se sentia atraído pelo suar suave das notas, pelo corpo de madeira brilhante. Pelas palavras que foram tomadas. E logo, percebeu-se chorando, com lágrimas pesadas que doeram no seu coração e dedos.

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