Capítulo 66: Paciência e aceitação (2)
“Quando rei Rheider Bloemennen morreu, disse a eles, seu melhor amigo, Theolor Beesh, ao saber da notícia lástima, prendeu-se em sua cova de espadas por dois dias inteiros. O que saiu dalí era um homem diferente e aterrorizante.”
Izandi, a Oniromante

A mãe ficou com um sorriso grande na face. “Deuses, me perdoem por rir maldizendo meu filho!”
— Ele é assim. — respondeu Willmina, com as mãos no quadril. — Você ainda era pequena, acredito que não se lembre de quando ele desapareceu e voltou anos depois…
— Eu lembro. — Um sorriso nostálgico surgiu na face da jovem, que passou a encarar as flores. — “Contemplem a mim, o vencedor do Torneio de Ferro!”, ele gritara nos portões do castro. “Um grande campeão merece um bom banho e comida, por favor; pareço um mendigo.” Eu estava na porta, quando ele chegara com uma sacola de pedras preciosas e uma espada nova na cintura. O abracei primeiro que Hyd, me lembro bem, e o chutei na canela.
“Bert! Bert!”
— Que memórias adoráveis chegam aos meus ouvidos; as histórias do amor de Nianna Beesh — dissera uma terceira. Willmina viu o rosto da pequena ruiva ficar mais avermelhado que um rubi. Por outro lado, a dona da voz não tinha nada de vermelho na face.
A mãe quase se espantou com o quão alta era ela também. Quase não a reconheceu.
— Jeanne?
A morena prestou uma mesura educada e graciosa. Estava trajada num vestido preto simples, apertado na cintura, com arabescos dourados por toda saia. Willmina se aproximou da alta garota e tocou sua bochecha com a mão direita. Como uma garota baixinha e sardenta ficara tão grande em tão pouco tempo? “Se minha estrelinha a visse, certamente morreria de inveja.”
— Passaram-se quase dez anos desde a última vez que a vi! Mudou tanto…
— Já a senhora, baronesa Willmina, não mudaste em nada. Continua mais bela a cada olhadela desta. É um mistério, e certamente uma sorte do barão.
— E tornou-se eloquente também — havia um pouco de surpresa na sua voz. — Rheider é um homem de sorte. Espero que ele saiba disso.
— Ah, baronesa, meu Rheid sabe sim — sorriu Jeanne, com um olhar orgulhoso.
Willmina levantou uma sobrancelha, no que Nianna desviou o olhar.
— Ora, não fiques triste, minha futura irmã — disse Jeanne, tomando as mãos da ruiva pequena e as balançando. — Certamente, haverá um dia em que conhecerá um homem bom. Veja só a baronesa. Estou certa que, tão bela, muitos homens ruins conquistaram seu coração primeiro. Estou certa ou não?
A Zwaarkind cruzou os braços. Nianna mordeu o beiço e engoliu saliva. “O coração nas mãos de um traste e um noivado com outro”, pensara a grávida. “Piedade dela, Deuses.”
— Homens, não — respondeu com um suspiro. — Só diabos e outras coisas feias. Meu coração só pertenceu a um homem e pertence a ele para sempre.
Jeanne deixou o queixo cair; havia um lindo brilho em seus olhos escuros.
— Decerto preciso ouvir isto em detalhes, baronesa! — Com um sorriso enorme, deu um longo passo para trás, em direção de uma alameda rodeada de árvores de cor roxeada. Willmina sentiu um cheio quase intoxicante de azedo vindo daquelas árvores. Eram estranhamente familiares. — Venha, venham! Ao meu jardim particular. Darei uma história em troca de uma história, certamente darei para ouvir sobre isso. Não tolerarei vossa ausência!
Ao final das palavras da alta Jeanne Lennarsen, as três mulheres passaram por vários carvalhos e lariços, rodeados de flores que saiam de troncos de carvalho derrubados. Borboletas farfalhavam à melodia do vento. Willmina fechou seu nariz após passarem por um azevinho e por uma alameda de árvores púrpuras. Fedorentas, era tudo que pensava para descrevê-las. E então, esqueceu da existência das estranhas árvores ao ver o prometido jardim de Jeanne, e as construções de pedra que imediatamente percebeu serem muito velhas. “Mais velhas que o castelo, certamente”, pensou ela.
As duas jovens ajudaram a gestante a sentar-se, e de pé, Jeanne Lennarsen vagou até um dos tronos de pedra sobre os degraus de pedra, rodeado de grama má cortada e galhos de azevinho. Régio, era a palavra que soava na mente da mãe ao ver o lugar. Mesmo sentada no trono do centro e maior que os outros, não havia nenhuma impressão régia da de cabelos negros. Nianna repousou ao lado de sua cuidada. No entanto, a alta repousou com graça no trono e apoiou o queixo não mão, observando Willmina com olhos vidrados e curiosos.
Isso a deixou assustada.
— Se não estou perdida nas minhas memórias, foi aqui onde foram acolhidos por nosso duque — disse, sem mudanças no semblante.
Willmina segurou uma folha púrpura empurrada pelo vento. Um biquinho se formou antes que começasse a falar:
— Foi aqui onde meu marido provou-se em batalha e chamou atenção de Theolor.
— Sim, sim — respondeu, corrigindo a postura. — E graças a ele, meus pais continuaram vivos. O homem que sozinho mudou a maré da batalha, quebrando o cerco do invasor Sanguinário, destruindo suas linhas por frente e por choque! — sua voz ficava mais alegre a cada palavra. — Apaixonou-se por ele aqui?
— Já estava — soltou a folha — grávida dele. O conheci bem antes.
Jeanne franziu o cenho, no que Nianna repetiu, mas com um semblante mais turvo.
— Então, Hydele deveria ter quatorze anos, não doze… Ah… Perdoe-me, baronesa. Foi insensível de minha parte.
— Está tudo bem — respondeu, acomodando as costas no cadeirão de pedra com um sorriso terno. Era antigo e gelado, no entanto, não desconfortável. — Não saberia se não perguntasse. — “E mesmo que fizesse, não lhe responderia tudo.” — Conheci Ereken há muito tempo, numa festa, e só pude pensar no quanto ele era estúpido. Meu amado então era mais uma parede do que homem. Uma parede triste e muito servil. Ele brigou com meu padrinho, e depois, levou-me comigo. Simples assim.
— Hm! — fez a morena, sorridente. — Sim, sim! Belo! Posso imaginar meu Rheid me resgatando de uma situação dessas… — Havia um sorriso cada vez maior nela. Porém o sorriso morreu assim que fitou a garota mais jovem. — E quanto a ti, Nianna?
— Meu amor é paciente — respondeu, triste. — Apaixonei-me por um homem que se odeia mais do que me ama. E mais do que ele se odeia, ele tem problemas, e mais do que problemas ele tem de orgulho. E quanto mais ele se afunda no seu orgulho, mais ele se distancia de mim. Sei que posso ajudá-lo a resolver seus problemas…
— Mas não há de fazê-lo — sussurrou Willmina.
Foi então que Willmina notou que, no rosto oval e belo da jovem ruiva, havia um sorriso genuíno e brincalhão pela primeira vez em meses.
— Não hei de fazê-lo, pois ele precisa resolver seus problemas sozinho, pois esse é o tipo de homem que ele é. E se não for assim, ele se corrigirá de uma forma tão estúpida, que temo que até os erros que tanto amo sumirão. Até lá, serei paciente e aguentarei aquele traste numa coroa. — Seu sorriso cresceu. Havia nela uma feição de prepotência e confiança maiores que o Sol. — Um galho não cai longe de sua árvore, não importa o quão podre ele fique. Infelizmente, meu amor é paciente.
— Que deprimente — sussurrou uma Jeanne muito triste. Em seguida, ela serviu chá, e Willmina cedeu a um sono pesado e familiar.
“Filho”, ela disse para si, e no fundo, ela ouviu com clareza uma voz curta e dócil a respondendo.

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