Capítulo 43 – O Primeiro Passo
Dentro da caverna, todos estavam reunidos.
Algumas tochas fixadas nas paredes de pedra espalhavam uma luz instável, que oscilava conforme o fogo se movia, fazendo sombras dançarem pelo interior.
Glartak estava de pé, ao centro de todos, observando cada um deles com calma. Seus olhos passaram por Shivana, depois por Primal, seguiram para Drog e Varok e, por fim, repousaram na entrada da caverna, onde Fred permanecia.
O lobo estava deitado, observando a lua. Sua postura era tranquila, mas enganava quem pensasse que ele descansava. As orelhas permaneciam levemente erguidas, e seus olhos acompanhavam qualquer som vindo da floresta. Mesmo imóvel, estava de vigia.
Glartak rompeu o silêncio.
— A partir de agora… cada um aqui tem um papel.
Ninguém respondeu.
Seu olhar voltou-se para os dois novos goblins.
— Drog. Varok. A missão de vocês é permanecer na caverna protegendo Shivana.
Os dois se endireitaram imediatamente. Varok foi o primeiro a falar.
— Então… nós não vamos acompanhar vocês?
— Não.
A resposta veio curta.
Varok coçou a nuca.
— Nem por um pedaço do caminho?
Antes que Glartak respondesse, Drog deu uma leve cotovelada no irmão.
— Para de insistir.
— Só estou perguntando…
Glartak observou a pequena troca entre os dois antes de responder.
— Vocês só sairão para caçar. E apenas quando realmente for necessário.
Drog franziu a testa.
— O que o senhor considera necessário?
— Se faltar comida ou se vocês estiverem em risco.
Drog apenas assentiu.
— Entendido.
Varok ainda parecia inquieto.
— E se eu ouvir alguma coisa estranha lá fora?
— Primeiro observe.
— E se estiver chegando perto?
— Continue observando.
Varok fez uma pequena careta.
— E quando eu ataco?
Um discreto sorriso apareceu no rosto de Shivana.
Glartak permaneceu sério.
— Quando não houver outra escolha.
Varok soltou um longo suspiro.
— Certo…
Freddie ergueu levemente a cabeça ao ouvir as vozes. Seus olhos encontraram os de Glartak por um instante. Nenhum dos dois fez qualquer movimento além disso.A cauda do lobo balançou uma única vez antes que ele voltasse a observar a floresta.
Glartak tornou a olhar para os dois filhos.
— Fora essas situações… vocês não saem da caverna.
— Sim, pai. — respondeu Drog imediatamente.
— Entendido… mesmo não gostando da ideia. — completou Varok, arrancando um olhar atravessado do irmão.
— Você reclama demais.
— E você fala de menos.
Drog apenas bufou, fazendo Shivana esconder um sorriso.
Glartak esperou o breve momento passar antes de continuar.
— Eu sei que vocês acabaram de evoluir. É natural querer conhecer o mundo.
Varok abriu um pequeno sorriso.
— Eu sabia…
Glartak o interrompeu.
— Mas a curiosidade mata quem não sabe esperar.
O sorriso desapareceu.
Glartak caminhou lentamente pelo centro da caverna.
— Neste momento… nós somos fracos. Todos nós.
Seu olhar percorreu cada rosto.
— Existem humanos lá fora. Existem animais. Existem criaturas que sequer conhecemos. Qualquer uma delas pode acabar conosco.
O silêncio voltou a dominar o ambiente.
— Precisamos crescer… em número, em força e em conhecimento. Hoje temos pouco. Precisamos de muito mais. E isso não se conquista da noite para o dia.
Glartak fez uma breve pausa. Seus olhos percorreram cada um dos presentes antes de continuar.
— Eu já fui impaciente. Mais de uma vez deixei a pressa decidir por mim… e quase morri por causa disso.
O silêncio dentro da caverna ficou ainda mais pesado.
— Mas também aprendi a esperar. Aprendi a observar, a recuar quando era preciso e a atacar apenas quando a oportunidade aparecia. Foi assim que sobrevivi. Foi assim que cheguei até aqui.
Seu olhar parou em Drog e Varok.
— A força vence batalhas. A paciência vence guerras. Nunca se esqueçam disso.
Ninguém desviava os olhos dele.
— Confiem em mim. Vamos permanecer escondidos agora. Mas chegará o dia em que deixaremos esta caverna… e não precisaremos mais temer ninguém.
Varok foi o primeiro a erguer a cabeça.
— Esse dia vai chegar logo?
Glartak olhou diretamente para ele.
— Vai chegar quando estivermos prontos.
Drog respondeu antes do irmão perguntar outra coisa.
— Então vamos nos preparar.
Glartak assentiu satisfeito.
Por fim, Glartak voltou o olhar para Primal. As tochas crepitaram baixinho, e por um instante as sombras alongaram a figura do guerreiro goblin como se o devorassem por dentro.
— Nós vamos sair — disse Glartak, com a voz grave, sem pressa.
Primal sustentou o olhar do seu líder. Não havia hesitação no seu rosto, apenas a quietude de quem já aprendeu a esperar a hora certa de agir. Ele inclinou a cabeça de leve, e a luz dançante revelou as cicatrizes recentes do seu antebraço — marcas da última evolução.
— Aonde iremos meu senhor? — A pergunta veio num tom baixo, mas carregada de prontidão.
Glartak deixou a resposta pairar no ar por um instante, como se medisse o peso das próprias palavras. Então encarou Primal.
— Iremos atrás dos orcs.
Primal franziu levemente a testa.
— Orcs… Nunca ouvi falar deles.
Fez uma breve pausa antes de perguntar:
— Eles são fortes?
— É isso que vamos descobrir.
Primal assentiu, sem hesitar.
— Então basta dizer quando partimos.
— Não vamos caçá-los. Ainda não.
Primal permaneceu em silêncio.
— Primeiro vamos estudá-los. Observá-los de longe antes de agir. Quero descobrir onde vivem, quantos são, como se organizam, como lutam… e, principalmente, se eles têm alguma fraqueza.
Um brilho frio atravessou os olhos de Glartak.
Primal desviou o olhar por um instante para a entrada da caverna, onde Freddie seguia imóvel, um vulto cinzento contra o azul noturno. O lobo não olhou para trás, mas suas orelhas giraram minimamente, como se soubesse que seu nome estivesse sendo pensado.
— E ele? — perguntou Primal, apontando o queixo na direção da fera.
— Freddie fica — disse Glartak. — Alguém precisa vigiar a caverna enquanto estivermos fora.
O guerreiro goblin voltou-se para o líder e assentiu uma única vez. Não havia mais perguntas. Glartak já havia dito tudo o que precisava.
— Quando partimos? — perguntou Primal.
Glartak ergueu o olhar para a entrada da caverna.
— Partiremos agora.
Primal apenas assentiu. Sem dizer mais nada, pegou o arco, conferiu as flechas na aljava e prendeu a faca ao cinto.
Glartak voltou-se por um instante para Shivana, Drog e Varok. Seus olhos passaram por cada um deles, como se gravasse aquela imagem na memória. Por fim, encarou Freddie.
O lobo levantou-se imediatamente.
— Cuide deles.
Freddie soltou um baixo resmungo e tomou posição diante da entrada da caverna.
Glartak então fez um breve gesto com a cabeça.
— Vamos.
Primal caminhou logo atrás do seu líder.
Os dois deixaram a segurança da caverna e desapareceram entre as sombras da floresta.
Atrás deles, a caverna voltou a mergulhar no silêncio.

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